Café com “papers” atualizado

Na próxima semana, Maria apresentará Woodford (2007). Aliás, mais detalhes sobre o autor podem ser encontrados aqui.

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A escolha do voto, a mudança da Selic e a Acrasia (ou a irracionalidade racional)

Microfundamentação da Irracionalidade?

Todo mundo que já estudou Teoria dos Jogos conhece a história da criança que mostraria inconsistência intertemporal. A idéia está bem exposta em Cooter & Ulen (2010):

“(…) imagine que uma criança precisa escolher entre a promessa de receber um doce no sábado ou dois no domingo. Ela prefere os dois doces quando faz a escolha segunda, terça, quarta, quinta ou sexta-feira. Quando chega o sábado, no entanto, a criança pode mudar de opinião e escolher receber um doce imediatamente em vez de no dia seguinte. Observe que a preferência da criança pela troca de uma escolha futura pela outra está em conflito com sua preferência pela troca de uma escolha presente por uma futura (…). Quando os indivíduos descontam o futuro dessa maneira irrazoável, o ganho imediato de se fazer algo de errado lhes parece mais interessante do que a ameaça de punição futura. O aumento da severidade da sanção futura surte pouco efeito sobre seu comportamento, pois o futuro em si surte pouco efeito sobre seu comportamento. [Cooter, R. & Ulen, T. Direito e Economia, Ed. Bookman, 2010, p.485]

Aí eu me pego perguntando sobre os eleitores da presidente, que inundaram a internet com ofensas a Armínio Fraga porque “…vocês, do PSDB, só querem plantar inflação para colher juros”, numa das frases mais baixas já dita nesta campanha (tanto no quesito “honestidade” quanto no “conhecimentos básicos de economia”). Este mesmo eleitor está calado agora ou está justificando o aumento da Selic anunciado terça como necessário.

Sei que não é igual, mas parece, não? O cara escolhe sempre uma taxa menor do que uma mais alta durante a campanha. Aí, depois que ganha, ele altera a escolha. Digo mais, provavelmente, com a proximidade do dia da eleição, com as campanhas alterando sua percepção de quem ganhará ou quem perderá, sua capacidade de mentir racionalmente vai se alterando, tentando, sempre, mentir de forma a maximizar suas chances de alterar votos alheios. Chega o dia, ele vota, as urnas são abertas, contagem feita, seu candidato ganha. Obviamente, ele sabe que, agora, não dá para manter juros baixos e que é uma cabal demonstração de ignorância econômica dizer que “juros altos são apenas para dar ganhos para banqueiros”.

Irracionalidade Racional?

Lembrei agora do modelo do Bryan Caplan, de irracionalidade racional, no qual o sujeito, racionalmente, escolhia acreditar em asneiras. Acho que, em algum momento mesmo, ele chega a dizer que o mercado político estimula este tipo de comportamento (acredito que ele já escreveu isso em algum blog com 99.99% de chance de eu não estar enganado). Engraçado é que podem existir partidos políticos mais ou menos afeitos ao uso desta estratégia conforme os incentivos (circunstâncias, posições em pesquisas eleitorais, pressão dos filiados do partido, etc) e há os políticos patologicamente insanos. Ah sim, não estou xingando:

O desconto irrazoável do futuro, seja ele probabilístico ou sistemático, é uma forma de racionalidade reduzida que atingue uma grande quantidade de indivíduos. Quando a redução da racionalidade vai longe demais, a pessoas se torna insana. [Cooter, R. & Ulen, T. Direito e Economia, Ed. Bookman, 2010, p.485]

Partidos radicais parecem apresentar elevado grau de afeição à insanidade, não? Ah sim, o livro que citei aqui, em rodapé, afirma que meu amigo (bom, um amigo distante, mas um amigo) Pedro Sette-Câmara nos informa que “acrasia” (gregos, obviamente), “desconto hiperbólico” (psicólogos) e “desconto intertemporal” (nós, economistas) são exatamente a mesma coisa.

Conclusão

Obviamente, como sempre digo, creio que é importante pensar se isto tudo não é uma construção conceitual bonita sem fundamento empírico. Acho que não. Acho que há estudos que mostram que, empiricamente, este efeito não é desprezível. Mas isto é algo para se pesquisar mais adiante. Por enquanto, o trabalho urge. Até mais.

O boizinho de Galton e a política monetária

O boizinho de Galton não nos engana!

É a pergunta que pode ser feita de outra forma. Podemos nos perguntar se as pessoas entendem, por exemplo, a política monetária. Como Scott Sumner falou (e eu resumi aqui, ontem), há um interessante exemplo observado por Francis Galton sobre como as pessoas, em média, formam expectativas corretamente, mesmo que ocorram desvios individuais.

Agora, veja que interessante o que chegou na minha caixa de mensagens hoje: dois economistas resolveram examinar as expectativas dos agentes para ver se eles entendem a política monetária. Citando-os:

Central bankers often emphasize the need to communicate with the public to improve their understanding of monetary policy. As the argument goes, this should allow households and firms to make better informed price- and wage-setting decisions, and improve policy effectiveness. More generally, agents’ understanding of how policies that affect their decisions are conducted is perceived to be a key ingredient in the policy transmission mechanism. This perception is guided by economic theories in which the behavior of the economy depends on the interaction between the actual conduct of policy and agents’ understanding of it.

A análise dos autores é bem simples e interessante. Vamos às conclusões (eu sei, eu sei, você já adivinhou o que eles vão encontrar, né?):

Maybe households are “empiricists” and simply repeat patterns they observe in their own experiences. In that case they might end up responding as if they understand monetary policy. The other possibility is that at least some groups of households do understand monetary policy, but may be inattentive and only think about monetary policy at times when doing so may be worth its while, or at times when monetary policy is relatively more salient. These might be times in which the labor market is weak, and unemployment makes the headlines.

Irrespective of the drivers of the business cycle variation in the pattern of responses, we can conclude that households’ beliefs about the evolution of inflation, unemployment, and interest rates – as elicited by the Michigan Survey – are related as if they had some understanding of U.S. monetary policy, particularly for the higher income (and more educated) households.

Ou seja, mais uma vez, o boizinho de Galton prevalece. Não lembra do exemplo? Reproduzo-o.

The statistician Francis Galton attended a country fair where there was a contest of guessing the weight of an ox. He looked at all the guesses, and not surprisingly found that many were very far from the actual weight. It’s not easy to guess the weight of an ox! But even though the individual members of the crowd were not very smart, the crowd was brilliant, as the median guess was within about 1% of the actual weight–even better than the “expert guesses.” In ratex we don’t even assume that much. We don’t even assume that the public is particularly good at predicting the weight of an ox, but rather that if the ox weighs 2200 pounds, the model should not assume that the public believes it weighs 1800 pounds. That the predictions are unbiased. That’s all.

Veja só que legal: dois autores brasileiros analisando a política monetária dos EUA e, claro, não é uma pesquisa qualquer: está para ser publicada no tradicional Journal of Monetary Economics. Veja: se você quer saber mais sobre política monetária, não pergunta pela cor da camisa do prof. Shikida, não lê a página de esportes do jornal e nem procura a resposta no Almanacão da Turma da Mônica. Você vai atrás do famoso JME! Sacou?

Antes que eu me esqueça…

Já viu uma curva de Phillips antes?

phillipscurve_japan

Esta aí está no formato gerado pela lei de Okun (sobre a qual já falamos aqui anteriormente). Ela veio do discurso do presidente do Bank of Japan (BoJ), que é, obviamente, o banco central japonês.

Há um experimento econômico em curso lá, como você já deve saber (tem lido os jornais, não é?). A política monetária pode não ter o charme que tinha nos anos 60 ou 70, mas ainda é relevante.

Ok, de volta ao trabalho.

Política monetária: regras e discricionaridade

O assunto em si

Hoje eu não pude ir à faculdade pela manhã por um tremendo mal-estar (sim, quando falamos de bem-estar, é fácil saber o que não o é…). Isto poderia ter destruído nossa reunião para discutir o texto do John Taylor (veja aí no link lateral a lista dos textos). Já havíamos adiado este texto por muito tempo. Gostaria mesmo que alguém do grupo fizesse um resumo baseado nos três textos, porque estão todos ligados. A bem da verdade, o primeiro texto era um artigo submetido para publicação e eu fui um dos pareceristas e, portanto, não sei o nome dos autores. Já os outros dois estão citados lá.

O fato é que eu devo ter pego alguma maldita virose, mas a tecnologia (viva os choques tecnológicos!) me permitiu fazer a discussão do texto com os membros do Nepom (temos dois novos membros, sabiam?). Bom, eu não gravei, obviamente, a conversa. Mas todo mundo que pesquisa um pouco sobre o que lê encontra muitos links com textos do Taylor por aí.

Agora, o bacana é ouvir o próprio. Eis um podcast muito bom do Russ Roberts com o Taylor sobre a questão das regras e discricionaridade, um dos pontos discutidos hoje. Aliás, o Russ Roberts faz um ótimo trabalho com este Econtalk.

À guisa de conclusão…ou seria “mudando de assunto”?

Por conta da mudança do horário da discussão (que seria ao meio-dia), o pessoal cancelou o happy hour da despedida que haviam marcado com o Arthur que, aliás, prometeu um post de despedida, o que já me deixou feliz. Afinal, mais um post é sempre bem-vindo. Ainda mais do Arthur, que foi um dos maiores entusiastas do grupo no final do ano passado até o começo deste ano.

O que me incomoda é ter atrapalhado o happy hour deles. Mas prometemos fazer isto semana que vem e, agora que fui convidado (ahá!), acho até que vou!

Nosso Nepom, agora, tem duas Marias, uma Larissa, um Guilherme, um José e um Martim. Basicamente, voltamos a uma escalação marginalmente acima do ideal (cinco pessoas) e vamos ver como os novatos se saem por aqui. Espero, como sempre, que todos aproveitem para entender melhor como funciona a cabeça do economista, a evolução da teoria econômica, a relação entre teoria, realidade e pesquisadores. Afinal, esta porcaria é uma ciência humana, né? Logo, incentivos importam. Falei um pouco disto hoje no meu blog, ao discutir a questão do capital humano na política monetária.

Então, é isto. Até mais.

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“Não, não, nossa reunião não é assim!!!”

A história econômica e nós (ou eles)

Os que já estudaram Econometria II, notadamente, vetores autoregressivos (VAR) e que também gostem de história econômica mundial vão curtir este artigo. A gente sai de viagem e o pessoal do Nepom debanda para a cerveja muito rapidamente. Bem, voltaremos à programação normal logo.

Quer ver o modelo DSGE do FED?

Quem está no Nepom já ouviu falar da regra de Taylor e, caso tenha conversado mais sobre modelos econométricos e política monetária, deve ter ouvido falar dos modelos DSGE. A bem da verdade, quem leu a última edição do ótimo livro-texto do Mankiw de Macroeconomia deve ter passado pelo capítulo 15 (cujo resumo, bem básico está aqui) que trata do tema. Claro, quem gosta de discussões mais avançadas pode ver isto, isto e isto.

Ah sim, um amigo antigo – e também grande incentivador do blog – Ângelo, tem algumas palavras interessantes sobre modelos DSGE:

(…) ainda sofremos com o drama de ter um software que faz muita coisa para o pesquisador, sem obrigar uma reflexão um pouco mais profunda sobre o que está sendo modelado/estimado. Já fiz piada sobre isto, mas depois de tanto tempo acho que está na hora da academia subir um pouco o nível das discussões. Não dá para escrever modelos e não entender as consequências das hipóteses adotadas e sair tirando conclusões apressadas; não dá para colocar um modelo para estimar sem pensar nos dados, nas priors, nos coeficientes estimados; não dá para continuar pegando um modelo pronto, de economia fechada, estimado para os Estados Unidos, e achar natural aplica-lo para o Brasil. Como não vivo em sala de aula, não sei se o problema está nos professores (chegam para a turma e dizem “tem um pacote que faz tudo para vocês, olhem lá”), não sei se o problema está com os alunos (“Oba, achei estes códigos na internet, coloco dados para o Brasil e está pronta a minha tese/dissertação”). Sei que existe um problema que deve ser enfrentado.

A sala de aula tem diversos problemas e um deles é o tempo escasso. Então, como o Ângelo sabe, temos que fazer o que podemos com o tempo, de preferência eficientemente (caso me permitam a piada…). Os alunos, claro, adoram códigos prontos (quem não gosta?) mas, como o papel de refletir sobre o que se faz é deles quando o assunto é a própria monografia/tese/dissertação, creio que é um problema que se resolve com esforço individual mesmo. O bom e velho esforço individual.

Mas eu não vim aqui hoje repetir obviedades sobre o esforço individual. Meu objetivo era repassar a dica do Pedro, que encontrou o modelo do FED (o modelo DSGE do FED) disponibilizado pela própria autoridade monetária (infelizmente para Eviews apenas) de forma transparente e livre. Está aqui.

Obviamente, como disse o Ângelo, se você quer apenas paquerar, decore este texto e repita-o como um papagaio para a menina que não lê a pesquisa do IPEA, mas fica revoltada. Ela estará na sua em menos de 4 minutos (pode apostar). Mas se você quer algo mais do que uma noite de prazer, então tem que ler com calma o documento e estudar o código.

Acho super-legal quando um governo realmente se preocupa com a transparência da política monetária. Sim, é o que eu penso, é opinião minha mesmo, mas suspeito que estou bem acompanhado…

 

O FED mandou bem!