Expectativas Racionais…novamente

Sabe aquele seu colega que vive lhe dizendo que as pessoas não são racionais ou, alternativamente, que expectativas subjetivas não são racionais? Pois é. Eu cheguei a pensar em preparar algo técnico (cujo esboço inicial está aqui) sobre o assunto e um dia eu termino. Mas eu gosto mesmo é de imaginar como alguém explicaria esta notícia sem assumir que as pessoas sejam racionais.

Vejam como é idêntico ao modelo estudado em sala: pessoas se antecipam a possíveis mudanças (não quer dizer que ocorrerão) e agem imediatamente. Não é exatamente o que você aprendeu em sala de aula?

O boizinho de Galton e a política monetária

O boizinho de Galton não nos engana!

É a pergunta que pode ser feita de outra forma. Podemos nos perguntar se as pessoas entendem, por exemplo, a política monetária. Como Scott Sumner falou (e eu resumi aqui, ontem), há um interessante exemplo observado por Francis Galton sobre como as pessoas, em média, formam expectativas corretamente, mesmo que ocorram desvios individuais.

Agora, veja que interessante o que chegou na minha caixa de mensagens hoje: dois economistas resolveram examinar as expectativas dos agentes para ver se eles entendem a política monetária. Citando-os:

Central bankers often emphasize the need to communicate with the public to improve their understanding of monetary policy. As the argument goes, this should allow households and firms to make better informed price- and wage-setting decisions, and improve policy effectiveness. More generally, agents’ understanding of how policies that affect their decisions are conducted is perceived to be a key ingredient in the policy transmission mechanism. This perception is guided by economic theories in which the behavior of the economy depends on the interaction between the actual conduct of policy and agents’ understanding of it.

A análise dos autores é bem simples e interessante. Vamos às conclusões (eu sei, eu sei, você já adivinhou o que eles vão encontrar, né?):

Maybe households are “empiricists” and simply repeat patterns they observe in their own experiences. In that case they might end up responding as if they understand monetary policy. The other possibility is that at least some groups of households do understand monetary policy, but may be inattentive and only think about monetary policy at times when doing so may be worth its while, or at times when monetary policy is relatively more salient. These might be times in which the labor market is weak, and unemployment makes the headlines.

Irrespective of the drivers of the business cycle variation in the pattern of responses, we can conclude that households’ beliefs about the evolution of inflation, unemployment, and interest rates – as elicited by the Michigan Survey – are related as if they had some understanding of U.S. monetary policy, particularly for the higher income (and more educated) households.

Ou seja, mais uma vez, o boizinho de Galton prevalece. Não lembra do exemplo? Reproduzo-o.

The statistician Francis Galton attended a country fair where there was a contest of guessing the weight of an ox. He looked at all the guesses, and not surprisingly found that many were very far from the actual weight. It’s not easy to guess the weight of an ox! But even though the individual members of the crowd were not very smart, the crowd was brilliant, as the median guess was within about 1% of the actual weight–even better than the “expert guesses.” In ratex we don’t even assume that much. We don’t even assume that the public is particularly good at predicting the weight of an ox, but rather that if the ox weighs 2200 pounds, the model should not assume that the public believes it weighs 1800 pounds. That the predictions are unbiased. That’s all.

Veja só que legal: dois autores brasileiros analisando a política monetária dos EUA e, claro, não é uma pesquisa qualquer: está para ser publicada no tradicional Journal of Monetary Economics. Veja: se você quer saber mais sobre política monetária, não pergunta pela cor da camisa do prof. Shikida, não lê a página de esportes do jornal e nem procura a resposta no Almanacão da Turma da Mônica. Você vai atrás do famoso JME! Sacou?

Antes que eu me esqueça…

Expectativas Racionais: simples e óbvio

Expectativas Racionais: você sabia o que esperar, né?

Pois é. Outro dia eu falei aqui de expectativas racionais com um exemplo muito simples. Qual não foi minha surpresa ao ver, hoje, Scott Sumner explicar o conceito de uma forma (mais) simples (ainda) aqui! São dois exemplos que eles nos dá sobre o que são expectativas racionais (ele usa ratex para abreviar o termo “rational expectations”).

 The statistician Francis Galton attended a country fair where there was a contest of guessing the weight of an ox. He looked at all the guesses, and not surprisingly found that many were very far from the actual weight. It’s not easy to guess the weight of an ox! But even though the individual members of the crowd were not very smart, the crowd was brilliant, as the median guess was within about 1% of the actual weight–even better than the “expert guesses.” In ratex we don’t even assume that much. We don’t even assume that the public is particularly good at predicting the weight of an ox, but rather that if the ox weighs 2200 pounds, the model should not assume that the public believes it weighs 1800 pounds. That the predictions are unbiased. That’s all.

Sensacional. Como dizem os advogados, I rest my case. Mas se você não está convencido e ainda acha que as pessoas são burras porque não são inteligentes (como você, né?) e que, portanto, expectativas racionais não funcionam, eis o segundo exemplo, mais parecido com o espírito do meu outro post citado acima.

Here’s a second misconception about ratex. The models seem to assume that the public would need a deep understanding of concepts like monetary theory, QE, forward guidance, etc. This is not so. The public’s expectations regarding monetary policy are mediated by the financial markets. Thus if QE causes asset prices to rise, the public notices the market response and changes its expectations of economic growth partly on that basis. All we really need to assume is that the asset markets know what is going on (a much weaker assumption) and that the public pays attention to the asset markets–also highly plausible. The dollar fell 6 cents against the euro on the day QE1 was announced, and yet I doubt one person in 100,000 can explain Rudi Dornbusch’s overshooting model (which predicts that sort of effect.)

Pois é, meus amigos, as coisas não são assim tão fáceis, não é mesmo? A pretensão do conhecimento – para emprestar um termo de Hayek (na verdade, o título da leitura dele na cerimônia de entrega do Nobel) que, por sua vez, não concordaria comigo no que diz respeito às expectativas racionais – é o primeiro passo para o abismo. Por que? Porque não há motivo algum para associar a hipótese de expectativas racionais a algum super-cérebro na cabeça de um qualquer.

Se até Galton percebeu, por que não eu?

Como sempre digo em sala: o mendigo que se recusa a ir para o abrigo sabe o que é melhor para ele e você não pode ter a pretensão de saber o que é melhor para ele. Ambos sabemos que seria a vida dele muito melhor se tivesse emprego, etc. Contudo, os parâmetros da vida dele são diferentes dos seus e, para eles, a melhor solução – racional – é a que ele tomou. Não vou discutir casos isolados como o de loucos, esquizofrênicos ou pessoas que escolhem matar alguém porque estão sob o efeito de drogas. Estou falando do mendigo mediano, assim como escrevo para um certo leitor mediano.

Quem avisa, amigo é!

Obviamente, podem existir críticas a quaisquer conceitos científicos, mas, siga meu conselho: aprenda o que é básico primeiro e seja mestre no manejo das ferramentas básicas da teoria. Só assim alguém vai acreditar que você tem algo importante a dizer em um debate no qual se critica a hipótese das expectativas racionais. Não adianta querer pular passos: é uma escada e tem degraus (experimente pular passos descendo a escadaria de Aparecida do Norte…). A pretensão do conhecimento, a arrogância, levam muitos a acharem que algo tão simples – e, diria eu, humilde – quanto as expectativas racionais não serve para nada. Ledo engano. Para concluir: que ótimo este texto do prof. Sumner. Não tem como não admirar a capacidade de comunicação e clareza de algumas pessoas. Três vivas para Sumner!

Expectativas racionais: não tem como negar…

Vem cá, conta uma coisa para mim: como é que alguém pode duvidar da hipótese de expectativas racionais depois que se vê, na internet, um post no qual o autor estuda a importância dos dias de reunião do FED (a autoridade monetária dos EUA) para estratégias de investimento? Vale destacar: o autor torna público o seu pequeno trabalho. Ou seja, qualquer um pode ir lá ver e tentar replicar.

Baita exemplo de uso da informação na tomada de decisões econômicas. A tentativa de antecipar eventos (ou impactos de eventos, para ser mais preciso neste caso) e tentar ganhar algum trocado com isto…o que pode ser mais compatível com o que dizem os bons livros-textos de Economia?

"Vai, reclama das expectativas racionais de novo, reclama!"

“Vai, reclama das expectativas racionais de novo, reclama!”

Mais um texto

Para os que curtem a história de metas de inflação, mais um texto.