Será que o governo não conhece econometria?

Todos nós sabemos que os últimos governos vigentes no Brasil têm realizado políticas fiscais bastante expressivas, com altos gastos e incentivos fiscais. Tudo isso resultou em um déficit primário de R$39,2 bilhões no acumulado em doze meses (0,7% do PIB).  Para que estas políticas sejam ao menos aceitáveis, é importante que gastos do governo e produto interno bruto do país se relacionem tanto no curto quanto no longo prazo, pois assim alterações no orçamento do governo impulsionariam o crescimento da economia nos períodos seguintes e também mais adiante.

Portanto, podemos utilizar um modelo VAR comum (vetor autorregressivo) e um modelo VAR com mecanismos de correção de erros (VECM) para verificar se existem essas relações de curto e de longo prazo entre as variáveis PIB e Gastos do governo. Se existirem, essas intervenções do estado na economia fariam algum sentido, caso contrário, não teriam fundamento algum.

Os dados utilizados são do IBGE, trimestrais de 1996.I a 2014.II. São valores reais, com base em 1995.

Primeiramente, foi feito um teste KPSS para as variáveis, a fim de verificar se são ou não estacionárias.Concluímos que não, o que podemos confirmar plotando os gráficos das duas variáveis e vendo o comportamento de ambas ao longo do tempo.Sendo assim, serão diferenciadas uma vez na construção dos modelos.

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Y1= PIB

G2= GASTOS DO GOVERNO

Outro passo importante para a construção do VAR é descobrir o número ótimo de defasagens, aquele que deixa as especificações do modelo mais próximas da realidade brasileira. Para as séries históricas da renda no Brasil e dos gastos governamentais do país pode-se ver que o  que melhor se adequa são duas ou três defasagens de ambas as variáveis, dependendo do critério a ser utilizado. Portanto, utilizarei duas lags no modelo.

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Depois de feito isso, temos o momento mais importante da estimação. Verificar se existem relações de cointegração entre as variáveis analisadas, ou seja, se existe uma relação de longo prazo entre PIB e gastos do governo. Para isso, usamos o teste de maior autovalor de Johansen. É importante lembrar que este é um teste recursivo, ou seja, uma vez aceita a hipótese nula do teste (r=r*, sendo r o número de vetores de cointegração) para-se por aí. Como resultado obtemos:

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Como hipótese nula não é rejeitada e, portanto, r=0. Vemos então que não existe nenhuma relação de longo prazo entre produto e renda no Brasil. Ou seja, alterações em uma das duas variáveis não afeta a outra em um horizonte maior de tempo. Sendo assim, qualquer variação nos gastos públicos, mesmo que seja uma mudança significante, não aumentará em nada o produto interno bruto do país no futuro.

Mas será então que ao menos no curto prazo existe uma relação entre as duas variáveis? Será que quando o governo aumenta os seus gastos, isso impulsiona o crescimento do país nem que seja apenas no período seguinte, como uma medida paliativa?

Para isso, estimaremos um vetor autorregressivo (VAR). As conclusões em que chegamos foram as seguintes:

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Observação: Apenas os coeficientes marcados com asteriscos são significativos, ou seja, de fato influenciam variações no produto, pois são estatisticamente diferentes de zero.

A renda brasileira, no curto prazo, também não é influenciada por alterações no consumo público. Nenhum coeficiente de g2 (gastos) foi significativo.

Então, poderíamos escrever o PIB como sendo:

DPIB = 0,2029DPIBt-1 + 0,61DPIBt-2 + 1,43 ,

onde D mostra que a variável está em diferença.

Ou seja, as variações no PIB são influenciadas por ele mesmo, e nem um pouco pela despesa do governo. Pode ser que no curtíssimo prazo gastos públicos gerem certa alteração no produto, mas tão pequena que não foi incorporada no modelo. Portanto o custo de oportunidade de políticas como esta é bem alto.

Concluímos então, que aumentos ou reduções nos gastos públicos não interferem no PIB de curto e nem de longo prazo do Brasil. Porque então o governo insistiu por tanto tempo em gastar mais e mais, sendo que isto não melhoraria, nem instantaneamente, a vida dos brasileiros? Não se tem uma resposta exata, mas começa-se a ver que o gasto impulsivo das autoridades brasileiras tem como justificativa muito mais uma questão política do que econômica. É algo bastante complexo para se analisar, mas alguns benefícios individuais dos governantes provavelmente são colocados em prioridade, e assim políticas ineficientes são implantadas pelo estado. Se ao menos o governo estudasse seriamente um pouco mais de econometria, talvez conseguissem realizar políticas públicas com menos distorções.

Ainda o modelo de (af)Fair(s): qual o número ótimo de anos de casamento? A curva de Laffer da traição

– Oh, meu Deus, tenho que aproveitar para chifrar o marido com o Mário e com o Ricardo…mas até quando??

A brincadeira continua. Vamos dizer que alguém queira fazer uma pequena modificação no modelo original de Fair (que expus ontem neste blog), simplesmente incluindo uma não-linearidade na variável anos de casado (yearsmarried, na base de dados). A pergunta é: será que existe um número ótimo de ano que maximiza o número de casos extraconjugais no ano anterior (veja o post anterior para detalhes sobre a base de dados)?

Obviamente, para se obter os efeitos marginais é necessário fazer um pouco mais de conta, já que se estima um Tobit (nada que você não possa aprender pesquisando um pouco). Bem, eu fiz estas contas (a dica para os efeitos marginais é esta) e descobrimos que o número ótimo de anos de casado que maximiza o número de casos extraconjugais (soa engraçado, né?) é………….15.27 (anos).

Bacana, né? Mas tem mais. Como os dados da variável dependente são de contagem, o modelo mais adequado não é um Tobit, mas sim uma regressão de Poisson. Tudo bem. Fazer isto no R não é difícil e ainda existe um pacote que calcula diretamente os efeitos marginais para alguns modelos, inclusive este (o pacote é este). Fazendo isto, temos que o número ótimo de anos de casado que maximiza o número de casos extraconjugais é de 16.34 (anos). Em relação ao modelo anterior, basicamente, é uma diferença de um ano.

Antes de me jogar no caldeirão do demônio, tenha cuidado. Afinal, o termo de segunda ordem dos anos de casado é fracamente significativo no Tobit (embora forte na regressão Poisson). Além disso, um teste simples de sobre-dispersão indica que este pode ser um problema nos dados. Assim, uma boa idéia é estimar a regressão com erros-padrão robustos. Fazendo isto, a significância do termo de segunda ordem desaparece.

Desta forma, o leitor deste blog já pode se divertir com a discussão sobre validação interna e externa deste modelo (leia um pouco do livro de econometria do Stock e Watson para ter uma idéia melhor do que estou falando). Muito cuidado com as conclusões: uma análise mais detalhada é essencial aqui.

p.s. Não fique brava, leitora. A base de dados não é apenas de homens traidores: mulheres também estão lá.

A Economia dos Casos Extraconjugais ou “Monica Lewinsky visita o Nepom”

Não me entendam mal, leitores. Meu interesse aqui é apenas na aplicação do famoso modelo de Becker de household production.

Você encontra o artigo original do Fair (o sobrenome do autor só torna tudo mais engraçado…) aqui. Ah sim, a decisão de investir ou não em um caso extraconjugal é resumida na equação (7) do modelo (p é o preço do bem composto x1i e x2i (x1 são as unidades do bem consumido no casamento e o x2 é o similar, no caso extraconjugal), w é o salário, V é a renda oriunda de outras fontes que não o trabalho, t1 é o tempo gasto com a esposa, t2, o similar com a amante e T é o total de tempo disponível para a solução do problema, exogenamente determinado).

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Pois é. Lá no meu blog, eu falava do amor, outro dia. Agora, bem, agora vamos para a maldade da situação. Fair (1978) resolve um problema de maximização simples com cinco condições de primeira ordem sendo que a equação acima diz respeito à restrição do indivíduo (neste caso, do indivíduo mesmo, já que não é o casal que decide ter um caso extraconjungal…).

Algumas conclusões da maximização:

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Fair (1978) prossegue em seu texto dizendo que estudará os impactos das variáveis exógenas na decisão do (da) marido (esposa) que decide arrumar uma (um) amante. Em outras palavras, pretende-se investigar os determinantes de t2. Obviamente, ele faz um exercício simples de Estática Comparativa e encontra as derivadas parciais.

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Sem entrar em detalhes (os leitores podem se divertir com o artigo), o melhor da história vem agora: a base de dados deste artigo é tão famosa que é usada como exemplo básico em pacotes econométricos. No R, por exemplo, você pode ter acesso a ela, facilmente.

Para este problema, o autor usa um Tobit. Eis a tabela com os resultados de suas estimações.

extramarital4

Podemos usar o R para reproduzir os resultados da primeira parte da tabela, na segunda coluna de estimativas de coeficientes (uso, a seguir, um trecho do link indicado acima).

library(AER)
data("Affairs")

fm_tobit <- tobit(affairs ~ age + yearsmarried + religiousness + occupation + rating,
                  data = Affairs)
summary(fm_tobit)

Os resultados são:

Call:
tobit(formula = affairs ~ age + yearsmarried + religiousness +
occupation + rating, data = Affairs)

Observations:
Total Left-censored Uncensored Right-censored
601 451 150 0

Coefficients:
Estimate  Std. Error z value Pr(>|z|)
(Intercept)         8.17420 2.74145 2.982 0.00287 **
age                   -0.17933 0.07909 -2.267 0.02337 *
yearsmarried    0.55414 0.13452 4.119 3.80e-05 ***
religiousness   -1.68622 0.40375 -4.176 2.96e-05 ***
occupation        0.32605 0.25442 1.282 0.20001
rating               -2.28497 0.40783 -5.603 2.11e-08 ***
Log(scale) 2.10986 0.06710 31.444 < 2e-16 ***

Signif. codes: 0 ‘***’ 0.001 ‘**’ 0.01 ‘*’ 0.05 ‘.’ 0.1 ‘ ’ 1

Scale: 8.247

Gaussian distribution
Number of Newton-Raphson Iterations: 4
Log-likelihood: -705.6 on 7 Df
Wald-statistic: 67.71 on 5 Df, p-value: 3.0718e-13

Como se vê, os resultados, como não poderia deixar de ser, são idênticos. A interpretação? Bem, esta fica por sua conta mas, aqueles mais familiarizados com a equação de Slutsky encontrarão motivos para se divertir lendo o texto de Fair e, claro, reestimando suas especificações com o R.

Raiz unitária? Cointegração? Jurava que isso era apenas pesquisa “acadêmica” ou “Claro que se você não almeja um emprego bom, você não vai mesmo usar nada do que estudou”

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Eis um belo relatório do FMI sobre o Brasil. As primeiras vinte e três páginas jogam por terra a lenda de que testes de raiz unitária e cointegração são apenas assuntos exclusivos de econometristas acadêmicos (a lei do preço único).

Isto sem falar da econometria com dados em painel e os modelos de calibração (na seção sobre o salário mínimo), os vetores autoregressivos (VAR) (seção sobre o multiplicador fiscal, aliás, citada aqui), a boa e, claro, a velha regressão múltipla (seção sobre o mercado cambial e em outras das seções citadas).

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Pois é, gente boa. Não tem para onde fugir: relatórios de consultores de boa qualidade não são os que você achou que iria ler. Foi mal, galera. ^_^

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Aliás, só para não dizer que não avisei mais de uma vez, o Vitor Wilher e sua turma têm demonstrado repetidas vezes que é possível melhorar a qualidade das análises econômicas que fazemos. Veja só este exemplo e, sim, explore o resto do blog dele.

A Desaceleração do Gigante Asiático

No cenário internacional é interessante destacar a maneira com que o Banco do Povo da China está enfrentando a desaceleração econômica presente no país desde o final de 2010. O crescimento chinês até 2010 foi em média de 10% a.a, enquanto em 2014 ficou em 7,4%. Já para esse ano, o FMI calcula que o PIB cresça ainda menos, cerca de 6,8%. Mas quais são os principais fatores que levaram o gigante asiático a essa desaceleração e, como o banco central chinês está tentando conter essa situação?
A queda no crescimento chinês é decorrente, principalmente, da dependência do país em alguns fatores que não podem ser mantidos para sempre. 

Um desses fatores é o investimento estrangeiro que entra no país o qual é essencial para impulsionar a economia. Assim como os outros países asiáticos, a China recebe altos investimentos e, em 2014, chegou a 48% do PIB. Para efeitos de comparação, no mesmo ano o investimento no Brasil representou 19,7% do PIB. 

Foi feita a correlação entre o investimento estrangeiro de 2008 até 2014 e o PIB anual referente ao mesmo período. Como resultado, foi obtido uma correlação positiva de 0,739097754 o que mostra que há fortes indícios de que o investimento e o crescimento do PIB apresentam uma relação diretamente proporcional. O gráfico 1 também mostra que as duas variáveis tendem a caminhar na mesma direção. Quanto mais investimentos o país recebe mais recursos podem ser alocados para os diversos setores da economia, ou seja, mais maquinário pode ser comprado, mais mão de obra pode ser contratada, por exemplo, o que estimula o crescimento.
Gráfico 1. Relação entre o investimento e o PIB 

Fonte: Banco Central da China 

Por outro lado, os altos investimentos podem gerar instabilidade no mercado, como é o caso do setor imobiliário chinês que representa cerca de 20% do PIB e, por conta do grande fluxo de dinheiro injetado paras as construções, está sendo abalado por conta da queda do preço dos imóveis. “Cidades fantasmas” são comuns no país e mostram um exemplo da má alocação de recursos financeiros presentes no país.
A China, também, passa por problemas de mão de obra e, é importante destacar dois motivos. O primeiro é decorrente da lei do filho único que contribui para a queda da oferta de mão de obra no país e, o envelhecimento da população. Em segundo lugar, o intenso fluxo migratório de chineses de áreas rurais para as áreas urbanas vem diminuindo e, em função disso, o preço da mão de obra aumenta o que encarece o preço final dos produtos. Esse fato afeta a balança comercial que é essencial para o crescimento do país.

Os produtos chineses reconhecidos pelo mercado internacional por terem preços muito baixos, agora sofrem com o aumento dos mesmos o que pesa negativamente nas exportações. Em comparação ao mesmo período do ano passado as exportações do mês de Março recuaram 15% e as importações seguiram o mesmo caminho, com queda de 12,7%. A balança, então, fechou com um superávit de U$$3,1 bilhões de dólares o que prejudicou o crescimento trimestral chinês que foi o mais fraco em seis anos, de 7%. Já em Abril, apesar do otimismo de alguns economistas do time do The Wall Street Journal, a balança comercial fechou com superávit menor que se se esperava, em U$$34,1 bilhões de dólares.

Nesse cenário, o banco central chinês diminuiu em 0,25% a taxa de juros, a terceira queda desde Novembro de 2014. Segundo o BC, essa política tende a estimular os bancos comerciais a emprestarem recursos às empresas chinesas e a estimular o consumo interno o qual é muito baixo no país. Além disso, o corte na taxa de depósito compulsório para 2,25% também pode ser benéfico para impulsionar a economia uma vez que mais dinheiro poderá circular no mercado. 

É essencial observar como a segunda maior economia do mundo irá passar por essa desaceleração tanto por ter um grande peso no mercado de compra e venda de commodities, como o petróleo e o minério de ferro, como por ser o segundo maior importador de produtos brasileiros. 

Alguns economistas chamam esse cenário de “aterrisagem suave” e, o FMI encoraja as políticas econômicas que a China vem adotando para que as consequências desse cenário não sejam piores. 
É difícil prever como será o reequilíbrio da economia chinesa, mas economistas do banco central chines acreditam que o mercado de trabalho terá um papel importante nesse caminho. Esse setor que agora é constituído de trabalhadores que exigem salários mais altos, tendem a ter uma maior demanda interna e querem melhores condições de vida nas áreas urbanas, então a aposta do governo é que esse mercado aumente a demanda interna do país que é baixa. Há, também, o setor industrial que se encontra inchado por conta de altos investimentos ao longo dos anos e agora terá que realocar os recursos existentes de maneira mais eficiente para enxugar os excessos. 
Os desequilíbrios desenvolvidos ao longo dos anos já estão gerando mudanças na China, a questão agora é saber se o governo saberá encaminhar o país em direção ao equilíbrio.

Bibliografia
Disponível em:<http://pt.tradingeconomics.com/china/foreign-direct-investment&gt;. Acesso em: 12 Maio de 2015

Walker, Andrew. Porque a desaceleração da China importa para o mundo. Disponível em:<http://www.bbc.co.uk/portuguese/noticias/2015/05/150508_china_desaceleracao_lgb&gt;. Acesso em: 10 Maio de 2015

Dow Jones Newswires. China corta a taxa de juros pela terceira vez desde Novembro. Disponível em: <http://www.valor.com.br/internacional/4043064/china-corta-taxas-de-juros-pela-terceira-vez-desde-novembro >. Acesso em: 10 Maio de 2015

Wildau, Gabriel. China vive o fim da mão de obra barata. Disponível em: <http://www.valor.com.br/internacional/4043604/china-vive-o-fim-da-mao-de-obra-barata&gt;. Acesso em: 10 Maio de 2015

A Política Fiscal Atual e Seus Objetivos

No ano de 2014 – ano marcado pelas eleições presidenciais – o governo bateu recorde de gastos, fazendo as contas públicas terem o pior resultados de toda a história. No início desse ano, foram divulgadas informações que mostravam o primeiro déficit primário – receitas menos despesas, sem contar com a dívida pública – em 18 anos.

Em 2013, as contas registravam um superávit de R$ 76,99 bilhões, equivalente a 1,6% do PIB. No entanto, em 2014, as contas públicas deterioraram devido ao aumento de gastos públicos, à ajuda para a Conta de Desenvolvimento Energético e à queda real da arrecadação.

No início de 2014, a equipe econômica informou que o objetivo para as contas de todo o setor público seria um superávit parecido com o ano anterior, de 1,9% do PIB, sendo que 81,6% do superávit corresponderiam ao esforço que o governo central buscava.

Devido a despesas exacerbadas em ano eleitoral, o governo precisou salvar o setor energético que foi prejudicado pela falta de chuvas. Também teve de arcar com os custos do jogo político feito com o intuito de segurar os reajustes da conta de luz e nos combustíveis. Além disso, a indústria e o comércio desaqueceram em decorrência de uma economia mais fraca. Muitos setores, também tiveram o benefício, concedido pelo governo, de pagar menos impostos. Esse conjunto de acontecimentos resultou em uma redução significativa das receitas da União.

Em novembro de 2014, no entanto, prevendo o resultado de sua governança, o governo lançou um projeto de lei ao Congresso para mudar a Lei das Diretrizes Orçamentárias que, por mais que tenha despertado intensos debates no Legislativo, foi aprovado pelo parlamentares.

Este ano, após o maior rombo nas conas públicas e grandes escândalos de corrupção, não sobrou dinheiro nem para pagar nem os juros da dívida – o superávit primário – uma garantia que o país não dará calote.

A dívida bruta brasileira ficou maior: houve um aumento de 10% em relação ao PIB. Se o governo não solucionar o problema que criou, o Brasil irá perder o grau de investimento – nota que qualifica o país para investidores tomarem decisões sobre onde investir.

Com uma nova equipe econômica para salvar as finanças em 2015, Joaquim Levy lidera as novas políticas fiscais do país. O novo ministro da fazenda avisou que serão necessários sacrifícios para alcançar a ambiciosa meta de um superávit fiscal de 1,9% do PIB, mesmo assim, prometeu consertar as contas públicas até o final do ano. Para isso, duas ações serão feitas: o corte das despesas do governo – Previdência Social e Orçamento da União, que cuida da folha de pagamento dos servidores públicos – e a elevação da arrecadação – feita pelo aumento de impostos e outras receitas do governo.

Para cortar os gastos, o ajuste fiscal consiste das seguintes políticas:

  1. Alterar o tempo mínimo de trabalho para solicitar o seguro desemprego de 6 meses para 12.
  2. Definir o tempo mínimo de 90 dias de carteira assinada na empresa para o trabalhador que poderá receber o benefício de abono salarial.
  3. Manter o seguro-defeso pago aos pescadores durante o período em que a pesca é proibida.
  4. Cortar por completo os repasses feitos ao fundo da Conta de Desenvolvimento Energético (CDE).
  5. Cortar em 33% tudo o que o governo pode gastar em 2015 – um bloqueio mensal de R$ 1,9 bilhão.
  6. Reduzir 27,1% os gastos do PAC (Programa de Aceleração do Crescimento). O programa é responsável em investimentos em infraestrutura, saneamento e habitação.
  7. Reduzir a participação do BNDES em financiamentos e aumentar as taxas de longo prazo (TJLP).

Para aumentas as receitas, a nova política irá:

  1. Reduzir os benefícios para exportadores de produtos manufaturados.
  2. Aumentar as alíquotas de contribuição previdenciária.
  3. Voltar à “alíquota cheia” do IPI dos automóveis.
  4. Aumentar o IOF, que incide sobre as operações de crédito para o consumidor.
  5. Elevação do PIS, Cofins e Cide sobre os combustíveis.
  6. Aumento da cobrança de PIS e Cofins sobre as importações.
  7. Equiparação do setor atacadista e industrial no IPI incidente nos cosméticos.

Com a meta fiscal voltada para alcançar novamente um superávit fiscal, podemos nos perguntar: O que mais acontece quando atingimos a meta?

Existem teorias que indicam que um superávit fiscal anda juntamente com o saldo em conta corrente. Os dois são chamados de déficits gêmeos, isto é, quando há um superávit fiscal, o saldo em conta corrente também tende a ser superavitário. O mesmo ocorre quando há um déficit fiscal. Se analisarmos o gráfico a seguir, podemos ver que há uma correlação positiva que sustenta a teoria dos déficits gêmeos e, com isso, podemos esperar resultados benéficos para o país que vão além do resultado isolado da política fiscal adequada.

Figura 1: Evolução ao longo do tempo da proporção do déficit fiscal no produto, (G-T)/PIB, e da proporção do saldo da balança comercial no produto, (X-M)/PIB.

figura 1 nepom

Fonte: https://nepom.wordpress.com/2014/09/19/deficits-gemeos-uma-breve-analise-teorica-e-empirica/

 

 

Referências:

  1. CUNHA, Joana. Dilma nem sempre age de forma eficaz, afirma Joaquim Levy. Disponível em: http://www1.folha.uol.com.br/mercado/2015/03/1609636-dilma-nem-sempre-age-de-forma-eficaz-afirma-levy.shtml
  2. MOTTA, Severino. Levy se encontra com presidente do STF e discute ações de execução fiscal. Disponível em: < http://www1.folha.uol.com.br/mercado/2015/03/1608096-levy-se-encontra-com-presidente-do-stf-e-discute-acoes-de-execucao-fiscal.shtml>
  3. COELHO, Ana Luiza. Déficits Gêmeos – Uma Breve Análise Teórica e Empírica. Disponível em: < https://nepom.wordpress.com/2014/09/19/deficits-gemeos-uma-breve-analise-teorica-e-empirica/&gt;

Café com “papers” atualizado

Na próxima semana, Maria apresentará Woodford (2007). Aliás, mais detalhes sobre o autor podem ser encontrados aqui.