Por que temos que ter superávit primário, professor?

Tantos impostos, tantos gastos…tantas dívidas… o que eu, Levy, deveria fazer, espelho meu?

Pergunta em sala…

Outro dia alguém me perguntou isto. Devo ter cara de sabichão…ou de professor. Eu lembrei ao aluno que, no Sistema de Metas de Inflação, o superávit primário é um sinalizador de que você, governo, é capaz de abater sua dívida.

Melhor dizendo, sucessivos superávits (em número maior do que déficits, já descontados os efeitos sazonais) são sempre sinalizadores fortes de que você é um governo responsável com o dinheiro dos seus governados.

Até aí, tudo bem. Mas considere que você não esteja muito interessado no Sistema de Metas de Inflação. A pergunta, ainda assim, procede. De forma um pouco mais sofisticada, sabemos que aumentos permanentes de gastos do governo não são sustentáveis e que aumentos temporários de gastos também não…a não ser que sejam gerados como choques aleatórios. Como é?

Simples. Sendo choques aleatórios – ah, minha aula de Estatística! – a variação do gasto terá média zero (para os chegados em Econometria, estou dizendo que o gasto do governo está sendo modelado aqui como um passeio aleatório) e, portanto, ao longo do tempo (mais exatamente, ao longo do ciclo econômico), seus impactos negativos serão compensados.

Só isso?

A moderna teoria econômica nos diz mais. Ela nos diz que, ao longo do ciclo econômico, você pode ter déficits ou superávits primários. Agora, há algo importante aqui: o que fazer na fase ascendente do ciclo? Cortar o impostos ou abater dívida? A resposta certa é: abater dívida. Não é difícil também pensar no porquê disto porque, em última instância, a dívida é um imposto e se você retira impostos, só aumenta o tamanho da dívida que terá que fazer para pagar sua…dívida (ou seja, você entrou num jogo perigoso…).

Gostei! Quero mais!

Olha, se você quer uma prova mais formal disso, sugiro que consulte a bibliografia abaixo. Garanto a você que não é uma questão ideológica, mas baseada em princípios econômicos (e, por que não, contábeis) simples. Claro, estou falando de moderna teoria econômica. A antiga, aquela que você vê no início do curso (refiro-me ao currículo básico de nossa faculdade), não fala muito disto. Tem lá um estabilizador automático, cuja discussão é interessante, mas muito mais limitada. Goste-se ou de receitas keynesianas, você tem que discutí-las no moderno arcabouço teórico (este que você começa a aprender comigo em Análise Macroeconômica IV).

Bem, é isso. De vez em quando estas coisas me ocorrem e, sei lá, acho que talvez escrevendo aqui alguma aspecto interessante do tema que passou despercebido possa, finalmente, ser apreciado. Degustação de feriado. ^_^

Bibliografia (não é um livro básico, mas você consegue ler se for disciplinado)

Wickens, M. Macroeconomic Theory – A Dynamic General Equilibrium Approach. Princeton University Press, 2011 (cap.5).

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