A Segunda Fase da Crise do Petróleo e o Racionamento de São Paulo

Como castigo comercial da OPEP (Organização de Países Exportadores de Petróleo), após terem apoiado Israel durante a Guerra do Yom Kippur, os Estados Unidos começaram a sofrer a segunda das cinco fases da crise do petróleo, em 1974. Por várias semanas, a OPEP conseguiu impedir que a quantidade desejada de petróleo chegasse aos Estados Unidos ao aumentarem propositalmente o preço em mais de 400%, como podemos ver no gráfico abaixo.

Figura 1: Tabela do Histórico do Preço do Petróleo nos EUAIMAGEM1                  Fonte: <www.macrotrends.net/1369/crude-oil-price-history-chart>

Podemos avaliar, com a ajuda do gráfico abaixo, uma possível correlação entre a inflação nos Estados Unidos durante os anos 70 com a produção de petróleo da Arábia Saudita, um do principais fornecedores de petróleo dos EUA. Conseguimos ver que, quando a produção de petróleo cai no país que oferta tal recurso, a inflação dos Estados Unidos aumenta, dado que a demanda por petróleo nos EUA ultrapassa a oferta, causando racionamento e aumento dos preços. Esse fenômeno ocorre duas vezes na mesma década, durante a segunda e a terceira fase da crise do petróleo.

Figura 2: Tabela Comparativa da Taxa de Inflação Americana com a Produção de Petróleo na Arábia Saudita IMAGEM2                  Fonte: <http://www.tradingeconomics.com/united-states/inflation-cpi&gt;

Em 1974, diante de mais uma fase da crise do petróleo, os poderes Executivo e Legislativo americanos perceberam que a vulnerabilidade dos Estados Unidos perante a choques de oferta de petróleo estava descontrolada e que, portanto, alguma medida deveria ser tomada. Para isso, alguns planos para reduzir a demanda americana por petróleo estrangeiro foram propostos.

Um desses planos consistia em aumentar os impostos sobre a gasolina a fim de fazer com que os consumidores reduzissem suas demandas por gasolina que, por sua vez, reduziria a demanda americana por petróleo estrangeiro. No entanto, tal plano não seria politicamente aceitável. Por isso, foi também sugerido que o dinheiro arrecadado dos impostos sobre a gasolina fosse devolvido aos consumidores por meio de uma redução de outros impostos ou da devolução direta do dinheiro do tributo aos consumidores.

Essa política foi muito criticada por economistas americanos da época, pois era de se esperar que o efeito sobre a diminuição da demanda causado pelo aumento dos impostos fosse se anular uma vez que, ao receber o dinheiro de volta, o consumidor iria gastá-lo novamente com mais gasolina.

Para analisarmos essa política com uma visão econômica vamos, primeiramente, supor que o imposto é repassado inteiramente ao consumidor, ou seja, o preço da gasolina aumenta exatamente na mesma proporção do imposto, isto é, o preço da gasolina passa de p para p’. Isso significa que o novo preço é dado por p’ = p + t (t é o imposto) e que, por causa desse aumento de preço, consumidor comum diminua seu consumo de c para c’ litros de gasolina. Com isso, o consumidor pagará $t de imposto e consumirá c’ litros de gasolina, fazendo com que a quantidade total de imposto pago pelo consumidor seja:

R = tc’= (p’- p)c’

Conseguimos perceber com esta equação que a receita proveniente dos impostos da gasolina (R), depende da quantidade nova de consumo da gasolina (c’), não da antiga (c). Acrescentando ao problema desse consumidor um outro bem qualquer (y) e fixando seu preço em 1, podemos construir suas restrições orçamentárias antes e depois do imposto. Antes:

pc + y = m, sendo m sua renda.

Depois:

(p + t) c’ + y’ = m + tc’

Sabemos que o consumidor tem poder de escolha sobre as variáveis que estão do lado esquerdo, isto é, ele pode escolher quanto vai consumir de gasolina (c e c’) e quanto vai consumir dos outros bens (y e y’) e também sabemos que a renda (m) e a restituição por parte do governo (t) são dadas. A restituição total dependerá do consumo de todos os indivíduos que compram nesse mercado. Ou seja, a restituição acabará por ser o imposto arrecadado pelo consumidor médio, pois este se situa exatamente na média, não por alguma outra relação qualquer. Se cancelarmos tc’ dos dois lados da equação anterior, temos:

pc’ + y’= m

Podemos dizer, portanto, que a cesta nova cesta que otimiza a satisfação do consumidor (c’,y’) podia ser escolhida anteriormente (antes da aplicação do imposto), no entanto, ela não foi escolhida, pois a cesta (c,y) foi revelada preferida à ela. Por fim, concluímos que o tributo faz com que a gasolina fique mais cara e a devolução do dinheiro ao consumidor aumenta novamente sua renda. A cesta original (c,y) não pode mais ser comprada e a satisfação do consumidor piora. Com o imposto, a escolha ótima do consumidor é consumir menos gasolina e mais dos outros bens. Com certeza o consumidor médio, agora, irá demandar menos gasolina, reduzindo a demanda americana por petróleo estrangeiro.

Figura 3: Gráfico da Restituição do Imposto ao Consumidor e sua Nova Utilidade IMAGEM3                  Fonte: VARIAN, 2012. P. 158.

A política adotada pelos Estados Unidos pode não estar muito longe do nosso cotidiano. Vejamos o caso do racionamento de água em São Paulo e o possível futuro racionamento em Belo Horizonte.

Com escassez de chuvas em grande parte do país, principalmente em bacias hídricas que fornecem água para as grandes metrópoles, precisaremos de políticas que efetivamente reduzam a demanda média de água do consumidor brasileiro com urgência. Será que poderíamos usar a política que os Estados Unidos usaram em 1974 agora para o nosso país?

Comparando o choque de oferta do petróleo provocado pelo embargo da Opep com o “choque de oferta” de chuvas na região do Sudeste brasileiro, podemos perceber que a origem do problema é comum e a solução deve também ser similar: redução da demanda dos consumidores.

Imaginemos que os consumidores brasileiros se deparem com um imposto maior sobre a água que chega em suas casas que é usada para tomar banho, cozinhar e lavar. Considerando que a água é um bem comum, o aumento da percepção do preço da água pelos brasileiros fará com que a demanda pela mesma se reduza.

Como vivemos em uma época frágil na política de nosso país, seria muito provável que essa medida gerasse descontentamento em grande parte da população. Além disso, não podemos esquecer que pagamos mais impostos do que qualquer outro país do mundo. Sobre a água, particularmente, pagamos 29,83%. No entanto, o problema se resolveria com um aumento ainda maior dos impostos. Por que?

Bom, assim como nos Estados Unidos, o consumidor médio sentirá necessidade de deixar de consumir tanta água e escolherá, portanto, consumir mais de outros bens. Por mais que sua utilidade diminuirá por algum tempo (tanto tempo quanto durar o imposto), o problema gerado pela falta das chuvas se amenizará.

Geraldo Alckmin, no entanto, assinou um decreto no início desse ano que reduziu de 18% para 7% a alíquota de imposto ICMS sobre as embalagens de água mineral, pois o galão de água agora faz parte de um novo grupo de bens, o de “alimentos” que incluem outros bens que constituem a cesta básica. O governo estadual de São Paulo espera que, com esta medida, o preço da água não aumente muito devida à corrida dos consumidores aos super mercados já que há falta de água em muitas casas. De acordo com o governador de São Paulo, tal medida não tem relação nenhuma com o rodízio de água na região.

A questão que nos atormenta há tempos é a politicagem. Até quando será aceitável fingir que não é preciso tomar nenhuma medida drástica para que os problemas de nosso país cheguem mais perto do final? Esta novela está longe de acabar…

Referências:

Varian, H. R. Microeoconomia: Princípios Básicos. Campus, 1994.

TABORDA, Joana. United States Inflation Rate. Disponível em: <http://www.tradingeconomics.com/united-states/inflation-cpi&gt;

SILBERBERG, E. The Structure of Economics: A Mathematical Analysis. McGraw-Hill, 1990 (2nd edition).

SAYAD, João. O Preço do Petróleo. Disponível em: <http://www1.folha.uol.com.br/folha/dinheiro/petroleo_sayad.shtml&gt;

IPEA. Disponível em: <http://www.ipea.gov.br/desafios/index.php?option=com_content&view=article&id=2321:catid=28&Itemid=23&gt;

3 respostas em “A Segunda Fase da Crise do Petróleo e o Racionamento de São Paulo

  1. Ótimo texto de micro.
    O engraçado é que o governo de SP, não penalizou o consumo, pelo contrário, deu dinheiro para quem consumisse menos, através da bonificação, e o resultado, pelo menos no ano passado foi uma diminuição do consumo.
    Ou seja, basicamente de um modo grosseiro, o resultado foi o mesmo que o aumento de impostos nos EUA ,porém invertido, pois deu a população a escolha de pagar menos (ou aumento de renda), se consumir menos, que foi uma escolha que os americanos não tiveram, e assim a população priorizou a renda. Essa medida se não me engano, trouxe uma economia no consumo equivalente a cidade de Fortaleza.

    No entanto, eles vão comecar a penalizar quem consumir mais.

    Agora vem a pergunta, o aumento política de bonificação deve ser ampliada para reduzir mais o consumo, ou devesse aumento deve seguir o mesmo raciocínio do texto, ou ambos? E ainda, até que ponto a política de bonificação foi eficiente comparado os meios tradicionais, de aumento de preços?

    • Bom ponto, Lucas. O que me intriga, contudo, é o porquê da medida invertida no início. Talvez a autora queira comentar suas perguntas mas eu tenderia a pensar que o melhor para se analisar a questão, mesmo, é colocar horizonte de tempo (modelos intertemporais) nesta cumbuca porque aí o cálculo do consumidor (e também o do governo) ficaria mais bem modelado.

      Mas nada nos impede de ouvir a autora com seu modelo, tal e qual exposto. É bom aprender a desenvolver o raciocínio com o que se escreve apenas (no fundo, você é obrigado a pensar além e aí o esticamento mostra até onde o modelo mais simples suporta, o que é, na verdade, o exercício verdadeiro).

    • Muito obrigada por ter comentado, Lucas. Fico feliz que você tenha gostado do texto.

      Bom, ambas as políticas podem funcionar quando aplicadas. Como vimos, as duas geram redução na demanda por água. A questão é, por quanto tempo e a quais custos? Precisaríamos recorrer a um modelo mais completo, ou seja, que incluísse o horizonte temporal no problema do consumidor para que pudéssemos avaliar o que realmente ocorre com a demanda e com a utilidade total dos indivíduos desse mercado. Precisaríamos ainda comparar a utilidade gerada decorrente das duas políticas. Por mais que podemos ver a utilidade de alguns consumidores aumentando por causa da escolha da renda ao invés de um consumo maior da água, também nos deparamos com uma grande parcela da população que ainda tem que recorrer aos super-mercados para comprar garrafas de água mineral para poder lavar e cozinhar, o que mostra que essa política não está gerando resultados satisfatórios, pois a utilidade de alguns outros consumidores está muito menor.
      Com isso, é necessário que dois projetos sejam desenvolvidos, ambos utilizando o horizonte temporal no problema do consumidor para que possamos comparar qual surtiria efeito mais desejável para a população.

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