Todo mundo diz que quer ser João Galt, mas ninguém quer trabalhar para isto.

Estou literalmente cansado e “por aqui” de ver umas menções superficiais a um personagem de um livro de Ayn Rand, geralmente resumidas em uma única frase que, garanto, mais de 50% dos que a citam não chegaram sequer a ler o livro da qual ela se origina por completo (se é que iniciaram sua leitura). Que frase? Ora…

” – Quem é John Galt?”

Frase bonita, enigmática, citada em diversos memes. Entretanto, a própria falta de resposta é um sinal de que muita gente não sabe mesmo do que se trata e não, como querem alguns, um sinal de que a peça propagandística funcionou e conquistou mentes e corações.

Inicio este texto no blog, hoje, porque sinto que vivo cercado de jovens que se dizem muito empreendedores mas não são capazes de usar esta sua tão poderosa capacidade para superar problemas básicos. Espanta-me como o mundo é-lhes um pantanal de dificuldades. Para não dizerem que sou um malvado general soviético que apenas reclama e dá bronca, eis alguns exemplos, colhidos da minha experiência e também da de colegas professores.

a) O professor pede que o aluno faça um exercício em sala. O João Galt, mesmo sabendo que tem aula, não está com o livro. Em um arroubo randiano, objetivista, consegue uma cópia, mas não é capaz de começar o exercício porque não foi galtiano o suficiente para se adiantar e ler a matéria antes do dia da aula.

b) O nosso João Galt das Alterosas, tão crítico do governo que massacra sua nascente individualidade é incapaz de resolver o exercício e entrega ao professor uma cópia do gabarito como resposta, claro, achada na internet. Começa bem nosso João Galt, mostrando que seu empreendedorismo se baseia na não-criatividade. Depois ainda reclama quando se lhe atribui não a merecida nota, mas a maior possível por este excremento travestido de obra-prima: zero.

c) Como o empreendedorismo é a mola-mestra do universo, o que separa os João Galts dos vermes rastejantes, esperava-se que as dificuldades de acesso à rede wireless da faculdade fossem rapidamente superadas pelo acesso 3g (“g”, de Galt, aliás…) ou 4g (idem) dos nossos jovens. Entretanto, o mesmo acesso “3/4 g” que lhe permite bater um papo animado com alguém em seu celular por troca de mensagens não pode ser usado como auxiliar para a sala de aula (auxiliar honesto, não nos esqueçamos do item anterior).

d) João Galt é um sujeito multi-tarefa. Um gênio da raça, ainda não descoberto por seus pares, certamente pela inveja que estes seres inferiores lhe depositam de forma vil, fruto de sua distorcida mentalidade coletivista, certo? Mas aí o João Galt é incapaz de ler o Plano de Aula e resolve empreender perguntando ao professor, a cada aula, o que é que tem que ler ou em que livro está esta ou aquela matéria. Para um galante empreendedor, nosso João Galt do pão com queijo e café cortado está bem pouco eficiente. Mais parece um maltrapilho dependente que mendiga até que lhe leiam sua própria agenda.

e) Ah, e há o João Galt do humor. Engraçado e mimoso como ele só! Ele não leu, tal e qual seu amigo empreendedor, o livro da Ayn Rand, já ouviu falar do Joãozinho Galt e tem uma vaga idéia do que seja a resposta para a pergunta famosa citada no início deste texto nada galtiano. Mas ele não curte a idéia. Bem, ele faz um pouco menos: não lê um livro, não abre o caderno, não anota nada, acha que sua potente memória dotar-lhe-á de arquivos completos de imagem e som das aulas de forma que, claro, como é o Galtinho Jr. do titio, não precisará estudar. Este curioso ser faz troça de quem leu o livro e, ao ler este texto, sorri, como se fosse muito melhor do que o colega.

Estes são alguns dos exemplos, caro leitor. João Galt é um sujeito chato, neste sentido. Monotóno, porque seu discurso é todo cool, com a dose certa de revolta e roupas da moda e, claro, pouca leitura e esforço. Seu protesto pelo mundo mais livre morre no primeiro convite para a balada de sábado. [Nota para o leitor do blog: o Nepom, creio, não é o lugar para gente assim. Sabemos disso por tudo que eu sempre publico aqui, certo?].

Mas há um aspecto positivo no verdadeiro John Galt: o espírito empreendedor. Digo, o verdadeiro espírito empreendedor, que vem com uma ética do trabalho genuína e que lhe é inseparável. Há quem diga que existe algum John Galt por aí. Talvez ele exista mesmo. Vai saber.

Olha, você pode não saber quem é o idiota do John Galt, mas pense no “paradoxo” que nem sempre é enfrentado pelos que tentam se espelhar no modelo de “empreendedor super-platinum”: o pior João Galt é aquele que acha que é John Galt.

Taí um meme que vou criar.

2 respostas em “Todo mundo diz que quer ser João Galt, mas ninguém quer trabalhar para isto.

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