O investimento na atual conjuntura brasileira

A partir da análise do nível de investimento de determinado país é possível avaliar sua capacidade de manter um desenvolvimento econômico sustentável no longo prazo, uma vez que a ausência de investimentos impossibilita o aumento da capacidade produtiva, limitando a eficiência e a competitividade de uma economia.

Sendo assim, esclarecida a importância desse componente do PIB para a economia, apresentarei aqui, primeiramente, uma estimativa simplificada de uma possível função de investimento para o Brasil e, posteriormente, alguns dados e análises sobre a atual trajetória de tal variável em nosso país.

Um dos modelos macroeconômicos propostos para se analisar o investimento considera que este agregado seria função de duas variáveis independentes: o nível de produto e a taxa de juros. De acordo com tal proposição, essa primeira variável teria uma influência positiva no investimento, visto que quando os empresários se defrontam com um maior nível de vendas, será preciso investir na compra de máquinas e equipamentos e no aumento da capacidade produtiva. A taxa de juros, por sua vez, estaria negativamente relacionada ao nível de investimento, pois taxas mais elevadas tornariam mais onerosos e menos atraentes eventuais empréstimos necessários para se adquirir bens de capital.

Na prática, o principal indicador de investimento do país é a Formação Bruta de Capital Fixo (FBCF), que está relacionada à compra de máquinas e equipamentos, indicando os movimentos de investimentos produtivos. Dessa forma, a partir de dados sobre PIB e FBCF de 1996 até 2014 publicados nas Contas Nacionais Trimestrais do IBGE, juntamente com valores também trimestrais da taxa Selic foi estimada por meio de uma regressão linear múltipla, a seguinte função investimento para o Brasil:

I = -98,99 +1,98Y -1,14i

sendo que I indica o investimento (representado pela FBCF), Y o PIB e i a taxa de juros Selic.

A função obtida aparentemente confirma o modelo teórico, visto que sugere que aumentos no PIB e/ou reduções na taxa de juros seriam alterações com efeitos benéficos ao nível de investimento. O valor do R² obtido na regressão foi de aproximadamente 0.64, indicando que 64% das variações no investimento observadas são provenientes de mudanças no produto e na taxa de juros.  Maiores detalhes obtidos com a regressão, que possibilitam algumas outras conclusões, são apresentados na tabela abaixo.

primeira tabela

Ao se perceber o resultado obtido para o p-valor no caso da taxa Selic, é possível concluir que ao nível de confiança de 95% a hipótese de que o coeficiente da taxa de juros é estatisticamente igual a zero não é rejeitada, o que indicaria uma grande probabilidade dessa variável independente não influenciar o investimento da forma prevista pelo modelo teórico. Uma possível explicação para isso seria o fato da taxa de juros apresentar consequências de longo prazo no nível de investimento, e não efeitos instantâneos.

Passando a analisar o nível de investimento no Brasil, ressalta-se que, atualmente, ao se comparar valores da FBCF em percentual do PIB de diversos países, o país se encontra bem abaixo da média mundial. E a queda acentuada e contínua de investimentos é destaque negativo no PIB brasileiro.

Pela observação dos dados da tabela abaixo é possível notar que a queda da Formação Bruta de Capital Fixa foi bem relevante em relação ao mesmo trimestre de 2013, atingindo o patamar de -11,2%. Constata-se, ainda, que o resultado negativo do PIB que vem sido observado atualmente foi influenciado pela queda de 5,3% da FBCF frente ao trimestre anterior. Com isso, o acumulado em 12 meses ficou negativo em 0,7%.

segunda tabelaFonte: IBGE

Ainda de acordo com publicações do IBGE, a taxa de investimento na economia brasileira continua baixa e em retração, sendo que neste segundo trimestre de 2014 foi de apenas 16,5% do PIB, nível considerado insuficiente para retomar uma nova fase de expansão econômica sustentada.

Um fator explicativo do problema com o investimento é a taxa de poupança insuficiente, que no segundo trimestre de 2014 atingiu a pequena marca de 14,1% do PIB. E o principal motivador disso tem sido o crescimento do nível de consumo das famílias ao longo do tempo, que passam a poupar cada vez menos.

Além disso, os índices de confiança dos empresários -que mostram como a esfera privada avalia as perspectivas do cenário econômico em determinado momento- não são animadores. E são vários os fatores do contexto econômico atual que contribuem para isso, tais como: contração do PIB, taxas de juros elevadas, inflação fora da meta estipulada pelo Banco Central, intervencionismo estatal no mercado, entre outros.

Temerosos com o fraco desempenho da economia e inseguros em relação à baixa credibilidade do atual governo, muitos empresários optam por postergar seus projetos de investimento. Desse modo, enquanto as expectativas estiverem ruins o investimento permanecerá estagnado.

No mais, a queda nos indicadores de confiança sugere que os agentes econômicos desejam mudanças adicionais e efetivas na economia como, por exemplo, um ajuste fiscal por meio da correção nas contas públicas, o que permitiria a redução da taxa de juros visando estimular um incremento nos investimentos.

Conclui-se, portanto, que somente com o restabelecimento da credibilidade do governo será possível alcançar uma mudança efetiva nas percepções e expectativas dos agentes econômicos em relação ao desempenho do país e, assim, incentivar os investimentos destinados à ampliação da capacidade produtiva para que a economia apresente uma recuperação considerável e passe a avançar de forma satisfatória.

por Ana Luiza Coelho

Uma resposta em “O investimento na atual conjuntura brasileira

  1. Aos leitores que aqui chegam, permitam-me observações prévias. Ana Luiza ainda está a cursar Econometria I e, portanto ,não viu nada sobre os problemas próprios de dados de séries de tempo. Assim, a estimação da função investimento, neste caso, deve ser analisada nesta perspectiva.

    Eu diria que, portanto, alguns pontos precisam ser pensados antes de fazermos o salto para a análise dos dados. Primeiro, os dados são trimestrais e não tivemos acesso aos gráficos. Eu não duvidaria da existência de sazonalidade e isto precisa ser testado.

    Em segundo lugar, para os que já estudaram Econometria de Séries de Tempo, há que se verificar se as séries possuem, cada uma, raiz unitária para verificar a possibilidade de cointegração ou se a análise de impacto é apenas relativa a variações entre variáveis sem a presença de uma função investimento (o tradicional problema de séries de tempo…).

    Há, claro, a necessidade de se rever as variáveis pensadas como determinantes do investimento, bem como suas medidas (variação mensal? variação mensal real? etc). O que importa para o investimento (real) é a taxa de juros real. Uma estimação da função de investimento pode ter que levar em conta as relações com o resto do mundo, logo, alguém poderia dizer que uma variável melhor seria o diferencial de juros interno/externo (não sei se é um bom exemplo para o Brasil, msa levanta o ponto da variável omitida).

    Assim, eu não tiraria muitas conclusões desta estimação, embora considere que é um ótimo exercício para quem ainda não viu todo o conteúdo acerca dos modelos de regressão uniequacionais, multivariados.

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