A escolha do voto, a mudança da Selic e a Acrasia (ou a irracionalidade racional)

Microfundamentação da Irracionalidade?

Todo mundo que já estudou Teoria dos Jogos conhece a história da criança que mostraria inconsistência intertemporal. A idéia está bem exposta em Cooter & Ulen (2010):

“(…) imagine que uma criança precisa escolher entre a promessa de receber um doce no sábado ou dois no domingo. Ela prefere os dois doces quando faz a escolha segunda, terça, quarta, quinta ou sexta-feira. Quando chega o sábado, no entanto, a criança pode mudar de opinião e escolher receber um doce imediatamente em vez de no dia seguinte. Observe que a preferência da criança pela troca de uma escolha futura pela outra está em conflito com sua preferência pela troca de uma escolha presente por uma futura (…). Quando os indivíduos descontam o futuro dessa maneira irrazoável, o ganho imediato de se fazer algo de errado lhes parece mais interessante do que a ameaça de punição futura. O aumento da severidade da sanção futura surte pouco efeito sobre seu comportamento, pois o futuro em si surte pouco efeito sobre seu comportamento. [Cooter, R. & Ulen, T. Direito e Economia, Ed. Bookman, 2010, p.485]

Aí eu me pego perguntando sobre os eleitores da presidente, que inundaram a internet com ofensas a Armínio Fraga porque “…vocês, do PSDB, só querem plantar inflação para colher juros”, numa das frases mais baixas já dita nesta campanha (tanto no quesito “honestidade” quanto no “conhecimentos básicos de economia”). Este mesmo eleitor está calado agora ou está justificando o aumento da Selic anunciado terça como necessário.

Sei que não é igual, mas parece, não? O cara escolhe sempre uma taxa menor do que uma mais alta durante a campanha. Aí, depois que ganha, ele altera a escolha. Digo mais, provavelmente, com a proximidade do dia da eleição, com as campanhas alterando sua percepção de quem ganhará ou quem perderá, sua capacidade de mentir racionalmente vai se alterando, tentando, sempre, mentir de forma a maximizar suas chances de alterar votos alheios. Chega o dia, ele vota, as urnas são abertas, contagem feita, seu candidato ganha. Obviamente, ele sabe que, agora, não dá para manter juros baixos e que é uma cabal demonstração de ignorância econômica dizer que “juros altos são apenas para dar ganhos para banqueiros”.

Irracionalidade Racional?

Lembrei agora do modelo do Bryan Caplan, de irracionalidade racional, no qual o sujeito, racionalmente, escolhia acreditar em asneiras. Acho que, em algum momento mesmo, ele chega a dizer que o mercado político estimula este tipo de comportamento (acredito que ele já escreveu isso em algum blog com 99.99% de chance de eu não estar enganado). Engraçado é que podem existir partidos políticos mais ou menos afeitos ao uso desta estratégia conforme os incentivos (circunstâncias, posições em pesquisas eleitorais, pressão dos filiados do partido, etc) e há os políticos patologicamente insanos. Ah sim, não estou xingando:

O desconto irrazoável do futuro, seja ele probabilístico ou sistemático, é uma forma de racionalidade reduzida que atingue uma grande quantidade de indivíduos. Quando a redução da racionalidade vai longe demais, a pessoas se torna insana. [Cooter, R. & Ulen, T. Direito e Economia, Ed. Bookman, 2010, p.485]

Partidos radicais parecem apresentar elevado grau de afeição à insanidade, não? Ah sim, o livro que citei aqui, em rodapé, afirma que meu amigo (bom, um amigo distante, mas um amigo) Pedro Sette-Câmara nos informa que “acrasia” (gregos, obviamente), “desconto hiperbólico” (psicólogos) e “desconto intertemporal” (nós, economistas) são exatamente a mesma coisa.

Conclusão

Obviamente, como sempre digo, creio que é importante pensar se isto tudo não é uma construção conceitual bonita sem fundamento empírico. Acho que não. Acho que há estudos que mostram que, empiricamente, este efeito não é desprezível. Mas isto é algo para se pesquisar mais adiante. Por enquanto, o trabalho urge. Até mais.

Uma resposta em “A escolha do voto, a mudança da Selic e a Acrasia (ou a irracionalidade racional)

  1. “Acho que, em algum momento mesmo, ele chega a dizer que o mercado político estimula este tipo de comportamento” Ele diz que assumindo que os agentes tenha preferência em relação à posições políticas, ou seja, os agentes auferem utilidade ao votarem por políticas que estejam de acordo com suas ideologias, sendo elas consistentes com a realidade ou não. Em um cenário onde agir baseado nessa ideologia tenha custo negligenciável para o agente, compensa para ele agir de uma maneira irracional(viesada) baseado na sua análise de custo-benefício. Dado que em um processo eleitoral o peso de um voto é negligenciável, o eleitor poderia votar com a consciência tranquila em qualquer política econômica, seja ela razoável ou não.
    Não sei se isso de fato se aplica no caso dos defensores do atual governo. Eles simplesmente defendem qualquer política adotada pelo atual governo, mesmo que seja contraditória com a posição que defendiam a uma semana atrás. Me parece mais um caso de os fins compensarem quaisquer meios adotados.

Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s