Relação Entre Consumo e Renda para o Brasil

O PIB de um país, também chamado de renda, representa a produção de todos os bens e serviços finais de uma economia. É uma variável macroeconômica extremamente importante para a análise da conjuntura de um país. Através de sua taxa de crescimento, por exemplo, podemos verificar se a economia de um país está aquecida, estagnada ou em recessão, se a inflação tem tendência de alta ou até mesmo se há expectativa de alterações na taxa de desemprego. Porém, para definir o valor de um PIB é necessário ter o consumo do período, além de outras variáveis, como investimento, gastos do governo e exportações líquidas de um país. Porém o consumo é o principal componente do PIB. De acordo com a Penn World Table Version 7.0 o consumo representa 70 % do produto interno bruto de todos os 190 países pesquisados, valor extremamente alto e que mostra uma provável relação bastante forte entre consumo e renda. Porém, a fim de verificar o nível de dependência entre elas, e também com o intuito de relacionar os resultados com a função de consumo Keynesiana e também com a de Milton Friedman, pesquisei alguns dados e estimarei, durante este artigo, algumas relações estatísticas.

Porém, antes disso falarei um pouco das diferentes funções de consumo criadas por Keynes e por Friedman. Ambas têm prós e contras e foram essenciais para a história econômica.

Keynes publicou sua função consumo em 1936, e esta não foi baseada em provas, mas apenas em uma análise empírica. Para ele o consumo era definido por:

C= Co + cYd

Onde Co é chamado de consumo autônomo, c de propensão marginal a consumir e Yd de renda disponível.

O consumo autônomo é uma variável que não foi muito bem explicada por Keynes, mas apenas foi considerada uma parte do consumo total da economia que é necessária para a sobrevivência desta, independentemente da renda de um país. Já a propensão marginal a consumir é um valor entre 0 e 1, que representa quanto uma unidade monetária adicional na renda acrescenta no consumo. Por fim, o consumo depende da renda disponível, que seria uma renda de uma economia já líquida de impostos, depreciação, etc. Esta, para Keynes, é a renda corrente daquele determinado período de tempo, ou seja, é a renda que foi garantida e que está disponível para consumo, já livre das obrigações fiscais.Dessa forma, se a renda de um país cai, o consumo cairá em grande proporção. Porém se caso a renda aumenta, por qualquer motivo que seja, não importando se é um choque transitório ou permanente, o consumo também aumentará.

Como Keynes não faz uma análise intertemporal do consumo, não é possível, por meio de sua teoria, pensar em indivíduos que poupam ou despolpam a fim de suavizar seu consumo, até porque a teoria Keynesiana considera apenas um período de tempo. Logo, mesmo ele tendo mencionado uma propensão marginal a poupar, ele não especificou para onde iria esta poupança. Para Keynes poupar era um luxo, por isso a propensão média a consumir para ele diminui à medida que a renda aumenta. Sua teoria, então, ficou um pouco limitada quando se analisa países que não possuem restrições ao crédito, pois nesses as pessoas olham para as taxas de juros ao definir seu consumo presente, além de que não levam em conta apenas sua renda disponível atual ao consumir, pois não querem que seu consumo varie muito ao longo de sua vida.

Vale lembrar que Keynes mencionou um conceito de propensão média a consumir, que representa a parcela da renda gasta em consumo. Na sua concepção, quanto maior a renda, menor a propensão média a consumir.

Entretanto, mais tarde Milton Friedman criou uma nova teoria de consumo, que enfatizava uma divisão do produto em renda permanente e renda transitória. Para ele a renda podia ser decomposta em 2 partes:

Y = Yp + Yt

Sendo Y a renda total, Yp a renda permanente e Yt a renda transitória.

A renda permanente seria a parcela da renda total que é mais previsível e garantida ao indivíduo durante sua vida, como um salário médio. É uma renda esperada em todos os períodos de tempo. Já a renda transitória seriam choques que podem acontecer ao longo da vida das pessoas, trazendo inesperados aumentos ou quedas na renda de um determinado período. Como por exemplo ganhar uma quantia de dinheiro em um sorteio, ou uma mesada extra dos pais em um único mês, ou até mesmo perder dinheiro em um assalto. Tudo isto afetaria a renda de uma pessoa, mas são situações aleatórias, imprevisíveis e que não ocorrem sempre, pelo contrário, são raras. Como o consumidor visa suavizar seu consumo, ou seja, definir uma renda média (renda permanente) que é capaz de manter um padrão de consumo ao longo de sua vida, sem grandes oscilações, as pessoas preferem poupar e despoupar esta renda transitória, do que consumir demais em um ano que sua renda aumenta, e consumir extremamente pouco mais para frente quando sua renda cair por algum motivo.

Para ele, a longo prazo a propensão marginal a consumir é bem próxima de 1, pelo fato de que as pessoas não deixam dívidas e nem heranças.

A função consumo de Friedman ficou definida por :

C = aYp ou por C = aCt-1 + bYt + erro

Ele também definiu como propensão média a consumir o consumo dividido pela renda, e na sua visão esta propensão era constante no longuíssimo prazo. Porém alterações na renda permanente não alteram a PMC, enquanto alterações na renda transitória afetam inversamente a PMC.

Logo, economias mais restritas ao crédito tendem a se adequar melhor á teoria Keynesiana, enquanto locais com grande facilidade de concessão de empréstimos se torna mais próximo da teoria de Friedman.

Depois de explicadas as teorias de dois grandes economistas, irei analisar um pouco a relação entre essas variáveis para os dados brasileiros. Eles foram retirados das Contas Nacionais, divulgadas pelo IBGE. Os valores nos eixos do gráfico abaixo possuem uma base móvel para o ano de 1995, onde o valor referencial é o PIB deste ano com base igual a 100. Os outros valores são variações em relação ao índice base.

Por meio de uma regressão linear simples, e utilizando o método dos momentos, estimei uma função consumo brasileira. No gráfico abaixo a reta preta representa esta função, que foi estimada como C = 0,7598 Y + 25,016, onde C é o consumo (variável explicada) e Y a renda (variável explicativa).

maaaaaaaaaaaaaaaaa

Podemos então relacionar esta função com o conceito pensado por Keynes, por exemplo. Onde 0,7598 seria a propensão marginal a consumir e 25,016 (em milhões de reais) o consumo autônomo. Logo, quando a renda aumenta em 1 unidade, o consumo brasileiro cresce em 0,7598.

Já pensando na teoria abordada por Friedman, esta função estimada seria coerente a curto prazo, mas não a longo prazo, onde a propensão marginal a consumir se torna bem próximo de 1. Além disso, a renda considerada foi a renda total do período, sem decomposição em renda permanente e em renda transitória.

Porém, é fácil ver que consumo e renda tem forte relação positiva, como mostrada na linha de tendência do gráfico abaixo.

Calculei também correlação entre essas duas variáveis, que teve um valor de 0,797293. A correlação se refere a medida da relação entre duas variáveis, mostrando o grau de dependência entre elas. Quanto mais próximo o valor for de 1, maior é a relação positiva entre essas variáveis. Quanto mais próximo for de -1, maior é a força da relação negativa entre elas, e quanto maior o valor for de 0, menor é a relação entre as variáveis. Portanto, consumo e renda considerando os dados brasileiros apresentam uma dependência e relação bem alta. Isto faz sentido, pelo fato de que a longo prazo, por exemplo de acordo com Friedman, consumo é igual á renda. Além de que para Keynes o consumo só depende da renda, e de nenhuma outra variável. Logo, os dados são válidos para ambas as teorias neste aspecto.

Portanto, ao invés de escolhermos um único economista para seguirmos, devemos utilizar os artifícios que todos propuseram para analisarmos os fatos econômicos e chegarmos a conclusões sobre quais contextos se adequam melhor á cada teoria.

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