Inflação, taxa Selic e composição da dívida pública

A taxa Selic é um dos instrumentos de política monetária utilizados pelo Banco Central para controlar a inflação, preservando a estabilidade da moeda e garantindo crescimento da economia do país.  Quando o BACEN adota uma política monetária expansionista, diminui a taxa básica de juros e como consequência tem-se um aumento no nível geral de preços; por outro lado, quando se adota uma política monetária contracionista os juros são elevados e a inflação é debelada.

De modo bastante simples podemos calcular a correlação existente entre inflação e taxa Selic, utilizando a seguinte fórmula:

É importante ressaltar que em períodos de tempo mais curtos a correlação é mais forte, por outro lado, por se tratar de uma correlação contemporânea existe uma defasagem do efeito da Selic sobre a inflação.

Figura 1: Inflação e Taxa Selic 2004-2014

Na figura 1, percebemos que no período de 2004-2014 há uma grande dispersão dos dados, de modo que a linha de tendência, embora negativamente inclinada, mostra uma correlação fraca entre taxa Selic e inflação; no período a correlação foi de -0,14. Isso sugere que há uma defasagem do efeito da Selic sobre a inflação em períodos de tempo mais longos.

Figura 2: Inflação e Taxa Selic 2004-2005

Na figura 2, analisando um período de tempo mais curto a correlação é mais forte, o valor foi de -0,34. Isso sugere que aumentos da taxa Selic provocaram redução da inflação de modo mais efetivo.

Figura 3: Inflação e Taxa Selic 2014

Na figura 3, analisando os seis primeiros meses do ano, percebemos uma correlação ainda mais forte, o valor foi de -0,93. Isso sugere que os sucessivos aumentos da Selic provocaram controle no nível de preços. Todavia, sabemos que o Governo Federal tem trabalhado com uma meta de inflação que bate no teto da banda, 6,5%, isto é, a política monetária é frouxa e reflete o cenário de baixo crescimento da economia.

No entanto, a composição da Dívida Pública pode diminuir ou potencializar os efeitos da taxa Selic sobre a inflação. Isso ocorre porque o Tesouro Nacional emite títulos de dívida com taxas de remuneração flutuantes, os LFT’s, remunerados pela taxa Selic. Se o Governo possui um elevado estoque de dívida indexado pela Selic, pode haver um desequilíbrio entre as políticas fiscal e monetária, e pior, a política monetária pode ter um efeito contrário ao desejado.

  • Caso o Banco Central eleve a taxa Selic para conter um aumento de preços, o custo com o pagamento de juros, pelo Governo, aumenta podendo comprometer sua política fiscal;
  • Os indivíduos e instituições que possuem os LFT’s recebem mais juros e parte desse dinheiro pode ser usado em consumo ou investimento, aumentando a demanda agregada e provocando aumento de preços.

O Brasil possui um elevado estoque de dívida pública remunerada pela Selic (19,86%), mas há alguns anos era aproximadamente 50%. Talvez esse seja um dos fatores que diminuem o efeito da Selic sobre a inflação.

Alguns países conseguem potencializar suas políticas monetárias emitindo apenas títulos não indexados pela taxa básica de juros (flutuante). No caso dos Estados Unidos, existem apenas os bonds e notes (prefixados). O resultado de uma elevação da taxa básica de juros não provoca impacto na política fiscal (no caso de pagamentos de juros), pois não existem títulos indexados a taxa básica. Por outro lado, o efeito sobre a inflação é maior, pois a elevação da taxa de juros provoca uma redução nos preços dos títulos, uma diminuição na riqueza dos detentores dos títulos e uma procura maior por títulos. Dessa maneira, a demanda agregada diminui e a inflação é controlada.

No Brasil o Governo vem diminuindo o estoque da dívida indexada pela Selic e num próximo artigo apresentaremos um modelo de regressão estimando essa relação entre composição da dívida e efeito da taxa Selic sobre a inflação.

2 respostas em “Inflação, taxa Selic e composição da dívida pública

  1. Jeff diz: “Na figura 1, percebemos que no período de 2004-2014 há uma grande dispersão dos dados, de modo que a linha de tendência, embora negativamente inclinada, mostra uma correlação fraca entre taxa Selic e inflação; no período a correlação foi de -0,14. Isso sugere que há uma defasagem do efeito da Selic sobre a inflação em períodos de tempo mais longos.”

    Não. A correlação da Selic e da inflação, ambas no mesmo período, é de -0.14. Isto sugere tão somente que elas se relacionam negativamente. Por que haveria uma sugestão de defasagem????

    Para ver se há defasagem da Selic sobre a inflação “em períodos de tempos mais longos” (então a pergunta é: qual é o comprimento da defasagem do impacto da Selic – se é que o mesmo existe – sobre a inflação?”).

    Digamos que Jeff pense que o impacto ocorre com defasagem de um período apenas. Neste caso, deveria ver se existe correlação (e testar a significância) da correlação entre a selic em t-1 e a inflação em t. Sacou?

    Eu falei sobre isso no meu blog, na questão dos preços monitorados e livres. Creio que vale a pena você dar uma olhada lá.

  2. Ainda no ano passado, algumas semanas depois de publicar o texto, o Prof. Afonso me indicou esse artigo que fala sobre a importância do efeito riqueza na transmissão da política monetária. De lá pra cá, a composição da dívida pública apresenta uma participação bem menor das LFT’s.

    http://www.scielo.br/pdf/rec/v12n3/04.pdf

    http://www.tesouro.fazenda.gov.br/documents/10180/409354/Texto_RMD_Jan_15.pdf/134dd0ab-209b-4c6c-a773-abdc7b68380b

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