Importações Brasileiras

O setor externo é um assunto determinante para a economia de um país, visto que com a globalização as economias se abriram, e portanto os países mantem relações de trocas de mercadorias e ativos financeiros entre si. Portanto, alterações em variáveis macroeconômicas externas acabam influenciando a economia brasileira, da mesma forma que alterações nas variáveis de nosso país interferem nas suas decisões de compras de produtos estrangeiros, entre outros.

Existem algumas variáveis que nos possibilitam analisar essas relações entre os países. Algumas delas são câmbio, balança comercial e balanço de pagamento. Neste texto darei foco ás importações de um país, que é um componente bastante significante da balança comercial (exportações menos importações). Portanto definirei quais variáveis impactam seu volume, e em qual proporção.
As exportações liquidas, ou balança comercial, mostram as trocas de bens que foram realizadas entre os países. Os dados e a teoria mostram que o que mais influencia o volume das exportações liquidas são o câmbio, renda interna do país (PIB nacional) e a renda do exterior (PIB estrangeiro).

O câmbio interfere nisto pois dependendo de seu valor os produtos nacionais podem ficar mais caros ou mais baratos frente aos produtos internacionais. Logo, um câmbio mais depreciado (real desvalorizado frente ao dólar) barateia os produtos brasileiros e faz com que as demandas por estes aumentem, incentivando assim as exportações do brasil, e também por consequência a indústria do país. Além disso, as importações realizadas pelo Brasil reduzem, neste caso, pelo fato de que o resto do mundo oferta produtos mais caros. Assim, com a depreciação do câmbio a balança comercial tende a melhorar, ceteris paribus, pelo fato de que as vendas de produtos nacionais aumentam, junto com uma queda da compra de produtos externos. Analogamente, um câmbio apreciado dificulta a venda de produtos nacionais, e incentiva a compra de produtos internacionais. Isto piora a balança comercial, mantendo tudo o mais constante.

Porém, é fácil ver que não é apenas o mercado cambial que afeta as exportações liquidas de um país. Se o produto interno bruto local aumentar, a renda do país aumenta, e portanto sua capacidade de compra também. Logo, as pessoas aumentarão sua demanda por produtos externos, o que elevam os valores das importações. Já se a renda estrangeira aumentar, os outros países do mundo comprarão do país local em maior quantidade aumentando o volume de exportações do país.
Após estas explicações podemos mostrar que as exportações e importações de um país dependem das seguintes variáveis, em especial:

EXPORTAÇÕES (PIB ESTRANGEIRO, CÂMBIO)
IMPORTAÇÕES (PIB LOCAL, CÂMBIO)

Como eu disse anteriormente, darei um maior foco para os dados brasileiros sobre importações. Buscarei definir qual a relação entre renda nacional e importações de um país. Pelo que eu disse anteriormente esta relação possivelmente será positiva, pois quanto maior a renda nacional mais se compram de fora. Mas nem sempre quando o PIB local aumenta, as importações aumentam na proporção devida. Isto porque em determinados governos brasileiros se tentam impedir a compra de produtos estrangeiros a fim de proteger a indústria local da concorrência. Então muitas vezes mesmo com cenários propícios para se importar mais, o governo tributa fortemente produtos vindos de outros países, não deixando com que de fato essa variável aumente.

O gráfico abaixo relaciona volume de importações brasileiras com o PIB brasileiro, desde 1995 até hoje. A correlação entre as duas variáveis para os dados brasileiros é de 0,813571. Uma relação bastante alta, e que comprova a teoria. Logo, se renda aumenta as chances das importações aumentarem é elevadíssima, a não ser que outros fatores externos influenciem, como por exemplo a tributação citada acima ou até mesmo o câmbio.
O R ao quadrado destes dados mostra que 66,19% da variação das importações são explicadas pela variação da renda brasileira.

nepom

Enfim, reduzir a compra de produtos estrangeiros apenas para beneficiar um setor específico da sociedade é algo muitas vezes utilizado pelo governo brasileiro. Porém ações deste tipo devem ser pensadas com calma, pois isto pode até melhorar determinado setor pelo provável aumento de sua produção, porém prejudicará todo o resto da sociedade, que terá que pagar mais caro por produtos brasileiros na maioria das vezes menos qualificados que os internacionais. Portanto, é um questão de escolha. Protecionismo pode até auxiliar uma pequena parcela da população, e também o governo, que ganha o apoio de parte das indústrias, porém de fato isto não melhora o bem estar social.

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ANPEC: boa sorte!

Muitos alunos – inclusive os do NEPOM – não sabem o que é a ANPEC (Associação Nacional de Pós-Graduação em Economia). Ontem e hoje, alguns ex-alunos fizeram as provas da ANPEC. Espero que todos tenham seu merecido descanso.

Aos que não sabem o que é a ANPEC, sugiro conversar com seu professor e fazer uma visita ao endereço virtual acima. A ANPEC tem, inclusive, uma revista científica que tem artigos interessantes (como este, para meus alunos de Análise Macroeconômica IV, por exemplo).

Caso, algum dia, você ache que sua formação profissional pode ser muito melhor, considere fazer um mestrado ou um doutorado.

Inflação em debate: Nelson Barbosa vs Samuel Pessoa

Este ano tem sido um rico nos debates econômicos relevantes, não aqueles inúteis, de sempre, que se fazem em palestras de má qualidade (geralmente caras). Estes da TV Estadão, por exemplo, estão muito bons. Outros videos da série são estes aí embaixo.

Pois é. Deu para perceber a importância de se acompanhar os dados e estudá-los, estatisticamente? Nem precisa ir muito longe, né? Basta assistir qualquer um dos vídeos…

 

Déficits gêmeos – Uma breve análise teórica e empírica

De acordo com a teoria dos déficits gêmeos existe uma relação de causalidade entre o déficit orçamentário fiscal e o déficit em transações corrente. Essa vinculação é objeto de desacordos entre os economistas e, apesar da existência de inúmeros estudos empíricos e teóricos sobre o assunto, os resultados ainda permanecem inconclusivos e polêmicos. Nem sempre é possível encontrar associações diretas entre déficit público e déficit externo, ou seja, nem sempre o que se observa sobre o equilíbrio externo de um país pode ser explicado pelo que acontece com suas contas públicas. Esclarecido isso, passaremos a uma sucinta explicação sobre a teoria em questão e, posteriormente, à análise de alguns dados da economia brasileira sobre tal conteúdo.

O argumento de que déficits fiscais empurram as transações correntes para situações também deficitárias é desenvolvido a partir da seguinte identidade macroeconômica contábil:

CC ≡ SN – I

(sendo SN = SP + SG)

Aqui CC indica o saldo em conta corrente, I o investimento e SN representa a poupança nacional, que engloba a poupança do setor privado (SP) e a do governo (SG).

Dessa forma, desenvolveremos o raciocínio da teoria a partir do pressuposto de que no equilíbrio macroeconômico o investimento se iguala à soma das poupanças nacional e externa. Isto posto, o excesso de gasto público ou a redução das arrecadações tributárias gera uma redução da poupança do governo que, quando não é devidamente compensada por um aumento da poupança privada doméstica, resulta na necessidade de absorção de poupança externa para compensar o excesso de investimento sobre a poupança nacional. Tal absorção se dá através da venda de ativos nacionais no exterior, ou seja, por meio de um saldo negativo em transações correntes. Seguindo esta lógica, portanto, ao partir de um déficit público chegamos a um déficit em conta corrente, demostrando a teoria dos déficits gêmeos.

Contudo, vale ressaltar que se o desequilíbrio inicial nas contas públicas tiver como consequência um estímulo à poupança privada, assim como sugere a Equivalência Ricardiana, não seria necessário financiamento externo para manter o equilíbrio macroeconômico entre investimento e poupança e, dessa forma, o saldo em conta corrente não seria afetado pelo déficit orçamentário governamental.

Só se pode afirmar com certeza, pela observação da identidade macroeconômica supracitada, que se um aumento do déficit público não é sucedido por um aumento de igual magnitude na poupança privada nacional, o resultado será necessariamente um declínio no investimento e/ou uma elevação no déficit em transações correntes.

Deixando de lado a explanação simplesmente teórica, passamos agora a um sucinto estudo de alguns gráficos e informações sobre a economia brasileira, construídos a partir de dados sobre contabilidade nacional obtidos pelo IBGE. É válido destacar que na análise feita adiante utilizou-se a suposição de que, por simplificação, a conta corrente (CC) é exatamente igual ao saldo da balança comercial (X-M), desconsiderando a renda líquida enviada ao exterior. Sendo assim, o déficit comercial equivale à diferença entre poupança nacional e investimento.

Na imagem abaixo apresentada é possível vislumbrar a evolução, desde 1996 até 2013, das variáveis déficit fiscal e balança comercial, ponderadas aqui de acordo com o PIB de cada ano do período.

Figura 1

Figura 1: Evolução ao longo do tempo da proporção do déficit fiscal no produto, (G-T)/PIB, e da proporção do saldo da balança comercial no produto, (X-M)/PIB.

       Por meio desse gráfico, em um primeiro momento só é possível perceber de forma mais evidente o vínculo entre as trajetórias do déficit orçamentário público e do saldo da balança comercial na experiência brasileira a partir aproximadamente do ano de 2005, que é quando ambas as linhas passam a ter um movimento mútuo de tendência predominantemente decrescente até o ano de 2013. Nota-se que, por um lado, durante o período que se estende de 2000 até 2009 o Brasil administrou superávit comercial juntamente com a situação de desequilíbrio nas contas públicas, diferentemente do indicado pela teoria dos déficits gêmeos. Por outro lado, nos anos que antecedem 2000 e nos anos que sucedem 2009, orçamento do governo e balança comercial tornam-se conjuntamente deficitários.

Agora, na imagem subsequente é possível observar o formato da dispersão dos dados em análise, estando a conta corrente em função do déficit público, isto é, CC/PIB em função de (G-T)/PIB. Além disso, está representada nela a linha de tendência linear para a série em questão.

Figura 2

Figura 2: Representação da dispersão dos pontos e da linha de tendência linear existente entre as variáveis de proporção do déficit fiscal no produto, (G-T)/PIB, e de proporção do saldo em conta corrente no produto, CC/PIB.

       A reta preta crescente indica que existe relação direta entre déficit em conta corrente e déficit fiscal, assim como previsto teoricamente. O coeficiente de correlação encontrado para valores de CC/PIB e (G-T)/PIB foi de 0.59, indicando moderada correlação positiva entre ambas as variáveis. É interessante notar que quando o coeficiente é calculado considerando um período de defasagem no tempo (ou seja, analisa-se aqui o impacto do déficit público de um ano sobre o saldo de transações corrente do ano subsequente, e não do mesmo ano), o valor sobe consideravelmente, atingindo um patamar de forte correlação igual a 0.73. Esse fato é evidencia de que a relação de causalidade entre o déficit orçamentário fiscal e o déficit em transações corrente apresentada pela teoria dos déficits gêmeos tem efeito provavelmente defasado.

Foi possível constatar, portanto, que o quadro econômico brasileiro apresenta evidências de alguma correlação entre déficit fiscal e déficit em conta corrente. Contudo, também foi empiricamente observável que superávits comerciais e déficits orçamentários ocorreram simultaneamente em determinados anos. Sendo assim, fica demonstrado que não é razoável derivar relações de causalidade analisando tão somente uma identidade contábil e ignorando o que o cenário econômico nos mostra na prática.

por Ana Luiza Coelho

Ponto de saciedade

Ex-alunos de Microeconomia sempre ficaram com aquela cara de “não acredito”. Pois é. Clique na imagem abaixo e vá lá ler sobre preferências, consumidores e marketing.

Clique na imagem para ler o texto

Estudante de Ciências Econômicas é mais feliz?

Sorria, você está sendo estudado

O artigo original é este. Os autores, Haucap e Heimeshoff, doravante Haucap & Heimseshoff (2014), fizeram um estudo econométrico interessante sobre a “felicidade” dos economistas. O artigo já está aprovado em um journal da área. O que eles fizeram (não vou citar as páginas porque o link está aí)?

This is the first paper that studies the causal e§ect of studying economics on subjective well being. Based on a survey among 918 students of economics and other social sciences, we estimate the effects of studying in the different fields on individual life satisfaction. Controling for personal characteristics we apply innovative instrumental variable methods developed in labor and conflict economics. We find a positive relationship between the study of economics and individual well-being. Additionally, we also find that income and futurejob chances are the most important drivers of happiness for participants of our survey.

Ok, este é apenas o resumo. Mas você deveria ler o artigo todo. Da revisão de literatura, destaco este ponto que eu sempre acho polêmico:

In summary, there is a broad consensus and little disagreement that economists behave differently (i.e, more selfishly) and that the also hold different views and values than other people. Hence, the main question in this line of research is not so much whether economists are really different at all, but whether these differences are rather due to nature or to nurture (see, e.g., Carter and Irons, 1991; Frey and Meier, 2003; Haucap and Just, 2010; Bauman and Rose, 2011).

Como se vê, há uma literatura que afirma que economistas se comportam de forma distinta do restante da população – mas não vejo isso, ainda, como um consenso na literatura – e há um ponto, supondo que isto seja verdade, interessante sobre saber se a diferença é uma questão, digamos, genética ou de meio-ambiente, no sentido biológico dos termos.

Sorria, você está sendo estimado

A parte econométrica do artigo é outro ponto a se destacar. Estima-se uma função utilidade com um probit ordenado. O que não é trivial é que eles usam dois estágios. Aliás, citando novamente:

However, estimating instrumental variable models for ordered discrete outcomes, which woule be necessary due to the endogeneity of the field of study, is by no means trivial and by far not standard in econometrics yet. Luckily though, it is also not necessary in our case. As Angrist (1991, 2001) has shown, it is sufficient to estimate instrumental variable regressions for discrete choice models using standard two stage least squares methods (2SLS) assuming a linear probability model as an appropriate choice. Angrist (1999, 2001) has also shown that these models estimate the so-called average treatment effect very well. Based on these considerations, we use 2SLS estimations as our basic regressions.

Bacana, né? Os resultados?

happy

Bem, como em outros trabalhos, a religião tem um impacto sobre a satisfação dos estudantes da amostra (eu e meus co-autores já achamos algo assim, em outros trabalhos, na área de Economia da religião e também na do Crime (embora eu tenha os links, parece que alguns estão desatualizados, mas não é difícil você encontrá-los por aí, online). Outro resultado legal é a importância da renda relativa sobre a felicidade. A renda, em termos absolutos, não é tão importante, mas ter uma renda melhor do que outrem o é (não sou muito conhecedor da literatura, mas acho que existem trabalhos que mostram isto com alguma frequência).

Sorria, você chegou ao final do texto

Finalmente, a conclusão:

To conclude, while income, religion, and future job perspectives are important drivers of individual life satisfaction for students in our sample, studying economics also increases students’self-reported well-being – at least some good news for all teachers of economics.

Será que os resultados dos autores são válidos para outras amostras? Meus alunos de Econometria III já conhecem o conceito de validação externa de modelos de regressão. Eis uma pesquisa que gostaria de fazer com alunos brasileiros. Aliás, conhecendo vários dos meus amigos economistas de outras faculdades, não duvido que haja alguém trabalhando nisto.

P.S. Por que você e sua turma de Economia não fazem um video como este do Williams? Caso o façam, publico o link aqui. ^_^

Relação Entre Consumo e Renda para o Brasil

O PIB de um país, também chamado de renda, representa a produção de todos os bens e serviços finais de uma economia. É uma variável macroeconômica extremamente importante para a análise da conjuntura de um país. Através de sua taxa de crescimento, por exemplo, podemos verificar se a economia de um país está aquecida, estagnada ou em recessão, se a inflação tem tendência de alta ou até mesmo se há expectativa de alterações na taxa de desemprego. Porém, para definir o valor de um PIB é necessário ter o consumo do período, além de outras variáveis, como investimento, gastos do governo e exportações líquidas de um país. Porém o consumo é o principal componente do PIB. De acordo com a Penn World Table Version 7.0 o consumo representa 70 % do produto interno bruto de todos os 190 países pesquisados, valor extremamente alto e que mostra uma provável relação bastante forte entre consumo e renda. Porém, a fim de verificar o nível de dependência entre elas, e também com o intuito de relacionar os resultados com a função de consumo Keynesiana e também com a de Milton Friedman, pesquisei alguns dados e estimarei, durante este artigo, algumas relações estatísticas.

Porém, antes disso falarei um pouco das diferentes funções de consumo criadas por Keynes e por Friedman. Ambas têm prós e contras e foram essenciais para a história econômica.

Keynes publicou sua função consumo em 1936, e esta não foi baseada em provas, mas apenas em uma análise empírica. Para ele o consumo era definido por:

C= Co + cYd

Onde Co é chamado de consumo autônomo, c de propensão marginal a consumir e Yd de renda disponível.

O consumo autônomo é uma variável que não foi muito bem explicada por Keynes, mas apenas foi considerada uma parte do consumo total da economia que é necessária para a sobrevivência desta, independentemente da renda de um país. Já a propensão marginal a consumir é um valor entre 0 e 1, que representa quanto uma unidade monetária adicional na renda acrescenta no consumo. Por fim, o consumo depende da renda disponível, que seria uma renda de uma economia já líquida de impostos, depreciação, etc. Esta, para Keynes, é a renda corrente daquele determinado período de tempo, ou seja, é a renda que foi garantida e que está disponível para consumo, já livre das obrigações fiscais.Dessa forma, se a renda de um país cai, o consumo cairá em grande proporção. Porém se caso a renda aumenta, por qualquer motivo que seja, não importando se é um choque transitório ou permanente, o consumo também aumentará.

Como Keynes não faz uma análise intertemporal do consumo, não é possível, por meio de sua teoria, pensar em indivíduos que poupam ou despolpam a fim de suavizar seu consumo, até porque a teoria Keynesiana considera apenas um período de tempo. Logo, mesmo ele tendo mencionado uma propensão marginal a poupar, ele não especificou para onde iria esta poupança. Para Keynes poupar era um luxo, por isso a propensão média a consumir para ele diminui à medida que a renda aumenta. Sua teoria, então, ficou um pouco limitada quando se analisa países que não possuem restrições ao crédito, pois nesses as pessoas olham para as taxas de juros ao definir seu consumo presente, além de que não levam em conta apenas sua renda disponível atual ao consumir, pois não querem que seu consumo varie muito ao longo de sua vida.

Vale lembrar que Keynes mencionou um conceito de propensão média a consumir, que representa a parcela da renda gasta em consumo. Na sua concepção, quanto maior a renda, menor a propensão média a consumir.

Entretanto, mais tarde Milton Friedman criou uma nova teoria de consumo, que enfatizava uma divisão do produto em renda permanente e renda transitória. Para ele a renda podia ser decomposta em 2 partes:

Y = Yp + Yt

Sendo Y a renda total, Yp a renda permanente e Yt a renda transitória.

A renda permanente seria a parcela da renda total que é mais previsível e garantida ao indivíduo durante sua vida, como um salário médio. É uma renda esperada em todos os períodos de tempo. Já a renda transitória seriam choques que podem acontecer ao longo da vida das pessoas, trazendo inesperados aumentos ou quedas na renda de um determinado período. Como por exemplo ganhar uma quantia de dinheiro em um sorteio, ou uma mesada extra dos pais em um único mês, ou até mesmo perder dinheiro em um assalto. Tudo isto afetaria a renda de uma pessoa, mas são situações aleatórias, imprevisíveis e que não ocorrem sempre, pelo contrário, são raras. Como o consumidor visa suavizar seu consumo, ou seja, definir uma renda média (renda permanente) que é capaz de manter um padrão de consumo ao longo de sua vida, sem grandes oscilações, as pessoas preferem poupar e despoupar esta renda transitória, do que consumir demais em um ano que sua renda aumenta, e consumir extremamente pouco mais para frente quando sua renda cair por algum motivo.

Para ele, a longo prazo a propensão marginal a consumir é bem próxima de 1, pelo fato de que as pessoas não deixam dívidas e nem heranças.

A função consumo de Friedman ficou definida por :

C = aYp ou por C = aCt-1 + bYt + erro

Ele também definiu como propensão média a consumir o consumo dividido pela renda, e na sua visão esta propensão era constante no longuíssimo prazo. Porém alterações na renda permanente não alteram a PMC, enquanto alterações na renda transitória afetam inversamente a PMC.

Logo, economias mais restritas ao crédito tendem a se adequar melhor á teoria Keynesiana, enquanto locais com grande facilidade de concessão de empréstimos se torna mais próximo da teoria de Friedman.

Depois de explicadas as teorias de dois grandes economistas, irei analisar um pouco a relação entre essas variáveis para os dados brasileiros. Eles foram retirados das Contas Nacionais, divulgadas pelo IBGE. Os valores nos eixos do gráfico abaixo possuem uma base móvel para o ano de 1995, onde o valor referencial é o PIB deste ano com base igual a 100. Os outros valores são variações em relação ao índice base.

Por meio de uma regressão linear simples, e utilizando o método dos momentos, estimei uma função consumo brasileira. No gráfico abaixo a reta preta representa esta função, que foi estimada como C = 0,7598 Y + 25,016, onde C é o consumo (variável explicada) e Y a renda (variável explicativa).

maaaaaaaaaaaaaaaaa

Podemos então relacionar esta função com o conceito pensado por Keynes, por exemplo. Onde 0,7598 seria a propensão marginal a consumir e 25,016 (em milhões de reais) o consumo autônomo. Logo, quando a renda aumenta em 1 unidade, o consumo brasileiro cresce em 0,7598.

Já pensando na teoria abordada por Friedman, esta função estimada seria coerente a curto prazo, mas não a longo prazo, onde a propensão marginal a consumir se torna bem próximo de 1. Além disso, a renda considerada foi a renda total do período, sem decomposição em renda permanente e em renda transitória.

Porém, é fácil ver que consumo e renda tem forte relação positiva, como mostrada na linha de tendência do gráfico abaixo.

Calculei também correlação entre essas duas variáveis, que teve um valor de 0,797293. A correlação se refere a medida da relação entre duas variáveis, mostrando o grau de dependência entre elas. Quanto mais próximo o valor for de 1, maior é a relação positiva entre essas variáveis. Quanto mais próximo for de -1, maior é a força da relação negativa entre elas, e quanto maior o valor for de 0, menor é a relação entre as variáveis. Portanto, consumo e renda considerando os dados brasileiros apresentam uma dependência e relação bem alta. Isto faz sentido, pelo fato de que a longo prazo, por exemplo de acordo com Friedman, consumo é igual á renda. Além de que para Keynes o consumo só depende da renda, e de nenhuma outra variável. Logo, os dados são válidos para ambas as teorias neste aspecto.

Portanto, ao invés de escolhermos um único economista para seguirmos, devemos utilizar os artifícios que todos propuseram para analisarmos os fatos econômicos e chegarmos a conclusões sobre quais contextos se adequam melhor á cada teoria.