IPCA – Serviços

E a inflação de serviços no Brasil? Para você pensar, algumas dicas: esta e esta. Eu dei uma olhada nos dados. O gráfico do IPCA de serviços pode ser feito em qualquer pacote de planilhas ou econométrico. Os dados, claro, vieram do ótimo sistema de séries de tempo do Banco Central do Brasil.

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Os dados têm uma sazonalidade marcante e fiz uma dessazonalização algo descuidada. Após isto, chequei se existiam diferenças entre as médias sazonais (apenas no eyeballmetrics).

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Aparentemente, funcionou. Assim, eu resolvi dar uma olhada na inércia dos dados. De forma exploratória, resolvi ver a autocorrelação dos dados (já dessazonalizados) de duas formas distintas. Primeiro, por meio do gráfico que relaciona a autocorrelação em diferentes defasagens (até a 12a).

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Percebe-se que há uma correlação sempre marcante (nunca menor que 13%) entre o IPCA dos serviços, mesmo dessazonalizado. Não sei bem o que isto significa. A forte autocorrelação que se aponta no intervalo de 12 em 12 meses (36%) parece apontar para a necessidade de eu repensar a dessazonalização feita. Mas vamos em frente.

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É, existe algo aí, né? No acumulado e na parcial.

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Nota mental: melhor não dessazonalizar de maneira descuidada. Nota mental número dois: vale a pena estimar um modelo para previsão do IPCA de serviços modelando sua sazonalidade. Nota mental número três: tenho que encontrar alguém que já tenha estudado o IPCA de serviços de maneira séria (econometricamente) para ver o que encontrou (ou encontraram, no caso de vários autores).

Bem, é isso. Nenhum avanço aqui, hoje.

 

Café com Papers – Impressões

Bom, esta foi uma semana intensa. Tive que estar no VI Congresso da AMDE, nas salas de aula e na prévia do Nepom acompanhada de pizza e texto do Milton Friedman. Não pude fazer direito tudo, obviamente.

Mas queria compartilhar aqui minhas impressões sobre o texto.

1. Eu já havia visto o modelo – obviamente – de renda permanente ao longo da minha vida em manuais avançados, mas nunca havia lido o texto. Assim, eu me preparei para o debate com uma expectativa boa. Afinal, Friedman é um grande mestre na arte da escrita e na retórica. Abri as contas e esperava que todos fizessem o mesmo porque as contas não são, realmente, difíceis. Nem integral tem. Então, neste ponto, acho que houve uma falha.

2. O texto é interessante e tentei contextualizá-lo. Eu já havia feito isto em sala nas aulas de consumo – que ora estamos terminamos – tendo, inclusive, feito uma aula bastante densa sobre a derivação de uma função consumo sob a hipótese da renda permanente se ajustando de forma adaptativamente. Ali, tentei destacar a importância da conexão teoria-prática com a busca de se estimar modelos que, inicialmente, possuem variáveis não-observáveis como a expectativa da renda permanente. No texto estudado, o problema é da própria renda permanente.

3. Como o texto é pioneiro, esperava que todos discutissem e aprimorassem seu entendimento sobre o significado da renda permanente. Afinal, que conceito é este?

4. Outro objetivo foi o de mostrar que você pode usar estatística para modelar teoricamente relações. Neste ponto, não há ninguém tão didático quanto Friedman. Não sei se todos apreciam isto, mas é uma importante contribuição para a sua forma de pensar incorporar a Estatística no nível teórico (convenhamos: estou falando apenas de três hipóteses sobre correlações que, inclusive, são supostas iguais a zero). Experimente ler um artigo da Econometrica dos anos 90: este insight nunca é claro para alunos de graduação.

Bom, honestamente, não sei se todos entenderam a relação entre renda permamente e transitória. Claro que um objetivo importante nestas leituras dirigidas é você perceber como é que se estuda um texto. Sei que não faço isso tão bem quanto deveria, mas é importante buscar sempre entender um texto ao máximo. Seja com resumos prévios, anotações ao lado, abertura de contas, rabiscos sobre os gráficos, perguntas anotadas aqui e acolá, enfim, tudo isto faz parte do treino.

A impressão que tive é que não tive tanto sucesso em mostrar a apreciação deste texto da forma como acho adequada. Não sei se todos aprenderam algo novo com este texto, mas espero que os membros do Nepom busquem, agora, ler novamente o texto tentando abrir as contas e fazendo, eles mesmos, seus experimentos com o gráfico. A demora com o texto nos tomou um tempo da prévia e teria sido mais eficiente se a leitura tivesse sido mais preparada por todos.

Claro que foi uma grande satisfação dividir minha primeira discussão do texto com interessados no tema.  Em outros tempos, no mestrado, a conversa teria sido com a Roseli (já viram o blog dela?), famosa por puxar as discussões sempre para um nível mais alto. Agora, com alunos de graduação, o que se espera é que a discussão tenha impacto facilitador no entedimento de conceitos e também na interrelação entre matérias diferentes que se aprende no curso. Agora, se isto aconteceu, somente cada um pode dizer.

Bem, vejamos agora qual será o próximo texto.

Café com ‘papers’ – Função Consumo e Renda Permanente

“I think the term classical liberal is also equally applicable. I don’t really care very much what I’m called. I’m much more interested in having people thinking about the ideas, rather than the person.” (Milton Friedman)

Amanhã vamos almoçar discutindo o terceiro capítulo do famoso A Theory of the Consumption Function de Milton Friedman. É um livro antigo? É. Foi publicado em 1957. Mas é um bom exercício de leitura. Espero que os membros do grupo tenham aprendido a estudar um texto de forma melhor com estes últimos textos que discutimos. Preparar-se para discutir um texto é uma tarefa que dá trabalho. Em compensação, o aprendizado…

Vamos pedir uma pizza e faremos a discussão. Depois teremos a prévia e isso vai fechar uma very tiresome semana com chave de ouro, espero. Minhas expectativas para amanhã são as de que os membros do Nepom estarão bem estudados com o texto: as contas foram abertas e souberam reproduzir todos os passos (não é um texto difícil, como os de hoje em dia, muito mais especializados); o texto foi resumido; anotações à mão (porque ninguém merece tentar ler em celulares, com aquela dificuldade…sem falar nos efeitos para a coluna vertebral e não estou brincando: um amigo médico relatou atender adolescentes com problemas de coluna de idosos por conta disto) e muita disposição.

A juventude atual encontrará um jovem Friedman (ele nasceu em 1912 e o livro é de 1957…). Vai ser interessante, para dizer o mínimo.

p.s. Achei muito boa a frase dele que citei acima. Nunca a tinha lido e fico feliz de ver que concordo com ele no que diz respeito aos rótulos, tão em moda entre os atuais jovens que se auto-denominam liberais/libertários. Não confunda economia positiva com normativa, ok?

p.s.2. Dá uma olhada na barra lateral, no item “Café com papers”. Lá está o registro deste novo trabalho que tenho tentado desenvolver com os alunos do Nepom.

Relacionando inflação e desemprego

Minha proposta para este breve artigo é apresentar a relação entre taxa de desemprego e taxa de inflação para dados de um período no Brasil.

A teoria de que essas variáveis são relacionadas foi desenvolvida pelo economista neozelandês Willian Phillips, e desde então é conhecida como curva de Phillips. Segundo ela uma menor taxa de desemprego leva a um aumento da inflação, e uma maior taxa de desemprego a uma menor  inflação. Porém, essa relação só é válida no curto prazo.

Matematicamente,

T= F (Te ; U).

 

Sendo T taxa de inflação, Te inflação esperada e U taxa de desemprego.

A equação acima mostra que taxa de inflação é uma função de inflação esperada (com relação positiva) e taxa de desemprego (com relação negativa).

Mas voltando à proposta inicial, eu calculei o coeficiente de correlação entre os dados da taxa de desemprego (PME – Pesquisa Mensal de Emprego, feita pelo IBGE) e taxa de inflação (IPCA) do Brasil entre agosto de 2012 e abril de 2014.

Coeficiente de correlação: -0, 57263

O coeficiente de correlação mede a “força” ou “grau” de relacionamento linear entre duas variáveis.

Abaixo, temos um gráfico mostrando o comportamento dos dados.

Sem título

 

O coeficiente de correlação negativo e a relação contrária das variáveis na curva de Phillips explicam os comportamentos opostos das retas do gráfico.

Logo, a teoria que aprendemos em sala de aula funciona na prática quando observamos os dados.

Como queimar seu filme…sem fazer força: breve digressão sobre o problema de se esquecer dos dados

Preâmbulo

Excelente texto do Menzie Chinn sobre como algumas pessoas se esquecem de fazer um pouco de estatística básica (ou talvez não queiram fazer a estatística básica para não perder uma ou outra boquinha).

O problema que ele aponta é abundante no Brasil, principalmente em meios mais preocupados com ideologias do que com resolver problemas, efetivamente. Por que? Porque o tempo é escasso (como nos ensinam praticamente todos os manuais de economia decentes) e, como não podemos fazer tudo o que queremos, temos que fazer escolhas. Não é um problema, claro, se você usa a divisão de trabalho para viver: escolhe coletar dados e deixa um estatístico fazer a análise dos mesmos.

Mas, já diriam os economistas: incentivos importam. Assim, como é que pagamos por isso tudo? Custa dinheiro. Então você escolhe um estatístico um pouco pior ou uma coleta menos bem feita e tenta vender seu peixe. Em um mundo onde há pouca concorrência, pode ser que cole, né? Mas em um mundo com internet livre e gente curiosa, nem tanto. Assim, a lição que se tira deste texto do prof. Chinn é que não devemos sair por aí falando de relações estimadas sem checá-las antes. Ainda mais se estamos propondo políticas públicas (que envolvem impostos…).

Saindo do texto original: digressão sobre o geral

Eu sei que você também acha que o governo é ineficiente e paquidérmico em 99% das vezes em que o vê agindo. Nosso país nos educou assim, não pela doutrinação escolar (que vangloria o governo de forma initerrupta, provavelmente desde que se criou o ensino público), mas pela nossa vida real, nosso cotidiano.

Entretanto, nossa experiência pessoal, individual e, logo, subjetiva, pode não ser generelizável e, portanto, é preciso pensar em meios de se investigar melhor a realidade e entender melhor os mecanismos pelos quais ela opera: suas correlações e causalidades. Há várias formas de se fazer isto, o que nos leva a um outro problema que é a disputa política entre este ou aquele sujeito que se pretende monopolista da verdade (já viu quanto ganham alguns caras por palestras vazias ou por serem amigos de órgãos públicos de financiamento de pesquisa?) e, assim, há sempre alguém defendendo um “pluralismo” que, em verdade, é um não-pluralismo.

Receituário para a sanidade

A melhor forma de evitar o charlatanismo e o baixo nível do conhecimento (e o do debate) é, claro, checar a realidade. Minha opção sempre foi – e provavelmente sempre será – o da economia aplicada. Ela não é fácil, é limitada, tem problemas, mas, se bem aplicada, ela tem um efeito muito bom: ela nos conta algo útil sobre um pequeno aspecto da realidade e nos força a rever conceitos prévios (pré-conceitos, preconceitos).

Quem quiser, que me siga.

Datas das Apresentações do Nepom (2° semestre 2014)

As apresentações do Nepom serão nos dias 02/09, 28/10 e 18/11.

Todas elas acontecerão às 16 horas, no Ibmec. As salas em que ocorrerão serão divulgadas na semana anterior á apresentação.

Convidamos todos os interessados a participarem deste evento.