Por que os alunos – inclusive os mais fracos – não gostam de picaretagem?

Por que é que não?

Estamos em época de provas de “salvação” – a famosa PS (prova substitutiva) – e há sempre algum aluno desinformado que acha que a revisão de sua prova é um balcão de negócios no qual ele tem maior poder de negociação porque…bem, porque ele acha isso. Preconceitos e idéias erradas geralmente têm origem similar.

Mas mesmo assim, há alunos que não se saem tão bem em provas e que se recusam a entrar neste jogo errado. Por que? Porque eles sabem que o melhor para eles é uma avaliação rigorosa. O mesmo se aplica ao trabalho no Nepom: o que aconteceria se o coordenador do grupo fosse “bonzinho”, “relaxado” e não cobrasse um padrão mínimo de qualidade no trabalho do grupo?

Você pode não acreditar em mim. Então eu vou citar um outro economista (citação indireta, já que li o trecho a seguir em outro livro que o cita), o prof. José Márcio Camargo, da PUC-RJ:

Trabalhadores com baixos níveis de qualificação, com menos de sete anos de estudos, têm produtividade baixa. Ou seja, esse grupo é homogêneo e de baixa produtividade. Portanto, existe pouca assimetria de informação, o que faz com que seja relativamente fácil para o empregador determinar o salário para esse grupo. Entretanto, à medida que aumenta o nível de qualificação dos trabalhadores, aumenta a heterogeneidade (…). Para os trabalhadores com altos níveis de escolaridade, existe um grande número de informações sobre a produtividade do trabalhador: a qualidade da universidade onde estudou, o curriculum vitae, estágios, cartas de recomendação de professores e ex-chefes, etc. Portanto, apesar de esse grupo ser muito heterogêneo, o volume de informações disponível sobre a produtividade dos indivíduos que o compõem é elevado, o que diminui a assimetria de informações e, portanto, facilita a determinação dos salários. [Camargo, J.M. “Desemprego, informalidade e rotatividade – Reformas que fazem diferença; em Fabio Giambiagi e Octavio de Barros (orgs). Brasil pós-crise – Agenda para a próxima década. Elsevier, 2009, p.237 (*)]

Reparou no trecho acima? Como aprendemos no início dos nossos cursos de Economia, bens “homogêneos” são aqueles que apenas se distinguem quanto ao preço, sem qualquer apelo ao consumidor por outro critério. Um egresso da faculdade que não se diferencia do outro exceto pelo preço de sua mão-de-obra está limitado a conseguir empregos de baixa remuneração (ou então faz um concurso público, no qual, por lei brasileira, sabe o salário porque este está determinado a priori). Pode mudar isto? Claro. Basta se qualificar.

Qualificar-se não é um processo unilateral, mané!

Mas o que é se qualificar? Faça-se esta pergunta e logo você perceberá que seu curso de inglês, de alemão, francês ou de piano são apenas parte de seus esforços em se diferenciar de outros colegas. Qualificar-se é tentar sair da homogeneidade ou, como o próprio nome diz: é tentar se diferenciar pela qualidade.

Agora, qualificar-se é uma coisa e fazer com que os outros percebam que você se qualificou é outra. Por isso é que os alunos se incomodam se ouvirem um boato de que sua faculdade foi rebaixada em algum indicador de qualidade: é como se o valor do diploma, que ele pretende apresentar ao empregador, tivesse o valor diminuído. Em outras palavras, ele precisará mostrar muito mais serviço para aquela entrevista de emprego. Terá que usar o famoso: “eu sei que vim desta faculdade fraca, mas veja meu trabalho…”. O problema é que se for a primeira entrevista de emprego, o único jeito de “ver o seu trabalho” é conseguindo o emprego.

Ocorre que não é apenas a faculdade que adiciona valor ao currículo do sujeito. Pense no seguinte exemplo: você pode ter aulas de futebol na Escola X comigo e com o Ronaldinho Gaúcho. Não lhe parece óbvio que as chances de eu ter problemas em conseguir alunos serão elevadas neste caso? Isso ocorre porque quem adiciona valor ao aprendizado de futebol, neste caso, é o craque, não eu. Claro que ele pode ser um péssimo professor de futebol, mas acho que demorará bastante para as pessoas descobrirem isto – e eu continuo sendo um sujeito bem ruim quando estou com a bola no pé – e o tempo, meu amigo, é dinheiro (pois é escasso).

Quando o professor cede e atende aos pedidos de um aluno preguiçoso que não percebeu corretamente a questão do valor do aprendizado, ele prejudica a turma inteira porque, como sabemos, o boato é de que: “naquela faculdade, os professores facilitam a vida de todos”. Não há problema algum em uma faculdade optar pelo caminho mais fácil. A questão é que formará mão-de-obra muito mais homogênea e, portanto, limitada a um nível salarial mais baixo. Claro, o sujeito pode “lavar seu diploma” fazendo uma especialização em uma instituição de fama melhor (embora nem sempre fama seja sinônimo de efetiva qualidade, como falei).

A explicação é bem simples…mas nem sempre a gente quer assumir os custos…

Percebe-se, então, que no final das contas, todo aluno enfrenta um dilema humano simples: um trade-off entre estudar mais agora ou investir tempo tentanto alegar uma “correção injusta”, “rigor excessivo do professor”, etc. Obviamente, o professor é humano e erra tal e qual o aluno. Mas ambos também são humanos e, logo, devem cometer os mesmos erros cada vez menos ao longo da vida. É, sim, uma corrida. Quem começar errando menos agora sai na frente. Simples assim e não há lei, política do governo ou milagre que mude isto. Não é a toa que alunos mais fracos, com mais dificuldades, mas honestos, são os que ficam mais revoltados quando percebem que alguns de seus colegas querem professores picaretas.

Por isso é que nenhum aluno do Nepom jamais pediu para que eu lhe facilitasse a vida. Há problemas a serem resolvidos? Há. Tem preguiça e “corpo mole” de vez em quando? Claro. Mas todos sabem que um menor nível  de exigência hoje, complacência com erros e tolerância com a preguiça significam um ponto a menos na hora da prova fatal que é a entrevista de emprego e não é demais lembrar que é difícil construir uma boa reputação e é muito fácil destruí-la.

Nepom, provas, trabalhos…tudo isto é parte do mesmo universo: o universo acadêmico. Cá para nós, ele não é tão diferente assim do universo da vida, não é? Existe o desejo da folga, do menor esforço, etc. É a velha tentação bíblica. Quem decide ceder é o indivíduo. O problema, neste caso, é que todas as turmas de todos os períodos perdem com a picaretagem do professor que cede ao choro do aluno que anseia pelo caminho mais fácil (que, para seu desespero, não o levará ao sucesso pessoal no final do dia).

Há, portanto, a escolha da administração da faculdade, sobre que tipo de mão-de-obra quer apresentar ao mercado, a do professor que também tem que decidir, dadas as diretrizes da administração, se vai ser mais ou menos “bonzinho” (= “picareta”) com os pedidos do último elo desta corrente: o candidato a profissional (= “aluno”).

Não foi tão difícil entender isto, foi?

(*) Mas eu peguei o trecho de Fabio Giambiagi e Alexandre Schwartsman. Complacência – entenda por que o Brasil cresce menos do que pode. Campus, 2014, p.28

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