Por que os alunos – inclusive os mais fracos – não gostam de picaretagem? (Epílogo)

Mais do mesmo!

Eis que volto à prática do apud (citação da citação):

Como é impossível elevar todos aos píncaros da glória, já que as aptidões individuais são diferentes, o objetivo passa a ser a mediocrização total. (…) Esse é sem dúvida um traço cultural, difuso, do brasileiro. Mas não há dúvida quanto ao locus no qual essa mentalidade é mais amplamente difundida e inculcada: a nossa escola. A ojeriza à meritocracia em nossas escolas vem sob a desculpa de que a competitividade pode causar profundos danos à psique das crianças. (Gustavo Iochpe em artigo para a Veja, 2008, citado em Schwartsman, A. & Giambiagi, F. “Complacência”. Elsevier, 2014, p.97]

No texto anterior, falei dos motivos pelos quais os alunos que conheço, inclusive os mais fracos (de base inferior e, assim, com mais chão pela frente para chegar ao mesmo grau de excelência que um colega mais bem favorecido pode alcançar), possuem para não seguirem o caminho da picaretagem.

Mas não expliquei, obviamente, o porquê de a picaretagem resistir ao tempo. Tivesse Hegel razão, então a picaretagem não poderia existir, já que seria um restolho da História ao longo da dialética da Razão. Estou errado, amigos filósofos? Para me corrigir, usem os comentários.

Gustavo Iochpe escreve bem, mas exagera na dose: será que a mediocrização é um traço cultural nosso? Duvido. Creio que se é uma cultura, ou melhor, um valor, é um do mais frágeis, que bem pode se alterar em 20 ou 30 anos. Mas eu concordo com ele no diagnóstico imediato: vivemos na era em que meritocracia, um conceito simples, é acusado de ser maligno por um bando de medíocres e alguns ingênuos.

Bons tempos aqueles da tia da escola…

Recordo-me do meu tempo de criança na escola e não vejo traços de preconceito  – como vejo hoje – contra a meritocracia. Ao contrário, lembro-me do orgulho que era chegar em casa com a caderneta cheia de boas notas e da vergonha que era perder média em prova. Não quer perder média fosse bom ou ruim. Perder média é uma forma de me fazer perceber que eu precisava estudar mais. Para os meritofóbicos, perder média é sinal de que o professor é culpado e que papai e mamãe devem ser chamados para ir à escola, se possível com uma arma, para ameaçar o professor, o diretor, etc.

Não é necessário, obviamente, retomar o texto anterior para mostrar que, em última instância, a meritofobia é inimiga do nível de vida que todos desejam ter, já que mediocriza  a qualidade do ensino e, portanto, da mão-de-obra que se forma no colégio ou na faculdade.

Traços como este, na psique do brasileiro, não são, de maneira alguma, permanentes. Podem durar muito tempo e podemos ter um crescimento econômico medíocre por conta da mentalidade medíocre, que promove a complacência e a leniência com as atitudes estúpidas, claro. Mas isso não precisa ser assim para sempre.

Por que não muda?

Então, você vai me perguntar: por que é que as coisas não mudam assim, como num passe de mágica? A resposta é simples: os incentivo de curto e longo prazo das pessoas nem sempre estão alinhados corretamente. O aluno quer a moleza e não deseja estudar. O papai e a mamãe da geração Y não querem impor limites e disciplina aos filhos porque isso atrapalha seu próprio gozo da vida que têm. As escolas podem atuar na educação técnica dos meninos e meninas, mas não substituem os pais no que diz respeito aos valores básicos. De que adianta o professor falar de mérito, se o pai (des)educa em casa? Vai depender mesmo da sorte se o menino vai ou não se transformar em um mini-bandido.

Mas, como eu disse no outro texto, em última instância, pessoas cometem cada vez menos os mesmos erros e a perspectiva de ter uma vida melhor para si e para sua família é um motivador que serve como barreira à picaretagem e a mediocrização. A meritofobia não se sustenta no longo prazo porque, em última instância, o competidor mais atento vence.

Eu me pergunto mesmo é se a geração atual que está nas escolas percebe o tamanho do buraco que constroem para si mesmos quando atacam a meritocracia. Acho que a resposta é: não percebem muito bem no curto prazo, mas, no médio prazo, aprendem e mudam de idéia. Serão, creio, melhores pais e melhores mães no futuro e corrigirão as bobagens que a geração Y fez com a pedagogia doméstica e escolar de hoje. Obviamente, isto demanda tempo e, bem, tempo é dinheiro…olha o poder dos incentivos funcionando de novo…

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