Correlação: o que você (realmente) quer ver? – Momento R do Dia

Digamos que você tem umas cinco mil observações e fez um trabalho para seu professor (o prof. Jonathan adora sufocar alunos com bases de dados deste tipo). Aí você pega duas variáveis e faz a correlação entre elas. Digamos que você ainda é inocente e jovem e só sabe usar uma planilha como a da Microsoft. Então, você obtém um gráfico de dispersão como o que se segue.

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Ok, deu para ver que existe uma relação negativa entre as variáveis. Mas será que não estamos sendo enganados por nosso amadorismo em Estatística? Digamos que existam cem pares que correspondam aos valores (0.3, 4.2). O gráfico acima não será capaz de nos mostrar esta forte incidência do dito par. Agora, que tal este outro gráfico, obtido por meio do programa gratuito R (especificamente, por meio de um de seus pacotes, o hexbin).

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A história ficou um pouco diferente, não? Repare que, na legenda vertical à direita, temos a contagem correspondente às cores dos pequenos hexágonos no gráfico. Em outras palavras, há pares ordenados que se repetem 37 vezes! Claro, conforme o tamanho do hexágono, podemos agrupar um ou pares ordenados (isto pode ser alterado nas configurações do gráfico, claro).

Repare que agora podemos visualizar duas nuvens de pontos mais frequentes ao longo da linha de regressão linear. Uma mais em cima (na direção noroeste) e outro mais embaixo (na direção sudeste). Por que isto acontece? Não sei. Mas uma coisa é certa: você não conseguiria descobrir este padrão usando o gráfico simples lá da planilha.

É verdade que uma correlação não é muita coisa, mas mesmo ela nos ensina algo. Tudo depende de se você está bem equipado para enxergar os dados.

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Murdoch recebe uma mãozinha do Senhor Fantástico e passa a usar o R.

E se usássemos um alfa de 1%?

Leitura para os que não entendem o tal p-valor, mas não têm coragem de estudar.

A dica não é tão difícil, né? Afinal, o autor é um psicólogo. Opa, calma lá. Cuidado com os preconceitos, leitor: na civilização (ou seja, fora do Brasil), psicólogos não são majoritariamente analfabetos em Estatística Básica…

O pessoal do Nepom entrou mesmo no clima da Copa e eu, bem, estou ocupado me divertindo com uns mestrandos muito bons do PPGOM e, assim, não posso atualizar o conteúdo aqui com a frequência que gostaria. Em breve, claro, eu volto à minha programação normal e, espero, eles também.

 

A nova era da Econometria: grandes bases de dados

Hal Varian, professor emérito da U.C. Berkeley e atual economista-chefe da Google, tem um novo artigo (acesso liberado…mas não sei até quando…aqui) sobre este fascinante tema. O artigo recebeu um comentário crítico de outro craque de Econometria, o Rob Hyndman. Obviamente, eu acho que vale a pena ler ambos.

Também é legal notar que Varian usa o R em boa parte (senão em todo ele) do artigo. Ou seja, Varian e Hyndman são referências de, digamos, 2/3 do que eu penso/falo/ensino/aprendo no dia-a-dia e, portanto, é um prazer divulgar estes textos aqui.

Off-topic: Mudando rapidamente de assunto, veja que exercício interessante este do Vitor Wilher.

O Porquê da crise da União Européia

A união européia é uma união econômica e política que compreende 28 países na região da Europa. Dentre esses países estão grandes potências mundiais, como Alemanha e França, e também países com economias menores e menos desenvolvidas, como Grécia, Portugal e Irlanda. Em 1958 foi formada a Comunidade Econômica Européia, e mais tarde , em 1993, após o tratato de Maastritich instituiu-se o nome atual do grupo econômico .

A União Européia é o maior exemplo mundial de uma União Monetária, conjunto de países que se unem e aderem todos a uma mesma moeda. Em uma União Monetária os países membros passam a não ter mais uma moeda única, e logo um Banco Central individual. Surge então, assim como na União Européia, um Banco Central comum a todos os membros, que no caso da Europa é o Banco Central Europeu. Com essa integração, surgem tanto benefícios quanto problemas aos países pertencentes ao grupo.

 Os maiores benefícios são a redução dos custos de transação e do risco cambial. Pelo fato de existir uma única moeda e portanto não ser necessária a conversão da mesma, são diminuídos os cálculos econômicos. Além disso, é válido lembrar que um grupo destes não se resume a objetivos econômicos, mas também existem importantes aspectos políticos que são levados em conta na sua formação. Em contrapartida, os principais problemas são a perda da política monetária, que leva a uma perda de receita de senhoriagem e também de mecanismos ajuste de variáveis econômicas domésticas , além da perda do câmbio nominal, que dificulta a movimentação do câmbio real.

Com isso, é necessária uma boa avaliação da área em que se tem o objetivo de formar uma União Monetária, para que os problemas sejam minimizados. Uma área é considerada ótima para a formação deste tipo de união se apresentar as seguintes características:

Política monetária pouco influente em variáveis como produto e nível de emprego, pois desta forma ao perder este tipo de política os países sofrem de forma menos radical.

Países com integração maior e com choques externos que proporcionam efeitos semelhantes nestes, pois assim o Banco Central pode agradar com um mesmo tipo de política grande parte dos países membros.

Presença de federalismo fiscal, pois isto auxilia no desenvolvimento de países menos ricos e em menor crescimento.

Preços e salários flexíveis, pois com uma união monetária ao se perder o cambio nominal, o cambio real entre os países se torna apenas P*\P , e desta forma o único meio de movimentar a taxa de câmbio real dentro da União e melhorar as exportações líquidas de um país é alterando os preços e salários domésticos.

Por fim, ter mobilidade geográfica é importante, porque faz com que a necessidade de trabalhadores em uma região seja suprida por empregados de outras que estavam desempregados, por exemplo.

 Tendo todas ou pelo menos parte destas características, já é válido pensar em uma possível formação de um grupo econômico como o citado acima. Porém, o problema da União Européia não surgiu apenas na crise de 2011, mas desde a formação do grupo.

A Europa não apresenta os aspectos citados acima. Por exemplo, é uma área que não possuí federalismo fiscal e mobilidade geográfica ,por exemplo. Apresenta, porém, rigidez dos salários e preços para baixo, devido em grande parte ás fortes leis trabalhistas da região. Além disso, pela diferença de desenvolvimento e riqueza dos países membros, um único acontecimento leva a diferentes conseqüências em cada região, fazendo com que políticas do Banco Central Europeu as vezes beneficie um país e prejudique o outro, e vice e versa.Por fim, o comércio intra europeu era pouco significativo.

Dessa forma, economicamente falando, talvez não tenha sido a melhor opção a formação da União Européia, mas motivados por uma tentativa de estabilidade política, de reduzir o poder do Banco Central Alemão e de reduzir os prêmios de risco nas taxas de juros dos demais países, fundou-se o grupo.

Após instituído em 1993, houve um período de mais estabilidade econômica entre os países membros, que aos poucos foram se adequando ás normas e integração da União.

Porém, em 2011 o plano econômico mundial foi marcado por uma crise na União Européia. Essa crise influenciou não apenas a região dos países membros, mas se espalhou por todo o mundo. Nas próximas linhas serão citados os principais motivos dessa crise, e possíveis soluções que foram pensadas pelo governo dos países europeus, principalmente os países periféricos, mas que acabaram não surtindo muito efeito.

Ao longo do século 21, as taxas de juros dos países da União Européia , em especial países da periferia ( como Itália, Portugal, Grécia , Irlanda , etc ) tiveram uma queda significativa. Isto porque os juros internacionais de longo prazo reduziram ao longo do século 21, puxando os juros também da Europa para baixo. Além deste motivo, o fato da Alemanha na época estar passando dificuldades econômicas fez com que o Banco Central Europeu baixasse os juros de todo o grupo para incentivar o consumo, investimento, etc na Alemanha. Por fim, esta queda nos juros também foi causada por uma redução dos spreads de risco nos países da periferia.

Com juros mais baixos a tendência de qualquer país era realmente ter seus níveis de consumo e investimento aumentados, porém na periferia estes níveis aumentaram de forma assustadora, exagerada.  Estes países tinham taxas muito altas antes da União, que chegava em até 25 % na Grécia, por exemplo. Com a queda então, toda a população e o próprio governo começaram a se endividar, pegando financiamentos e empréstimos desenfreadamente.

Com isso a absorção doméstica nessa região aumentou demais, levando a uma queda das exportações líquidas. Com esse alto consumo interno, a produção de bens não comercializáveis passou a ser mais atrativa do que a de bens comercializáveis . Porém, este tipo de comercio exige uma maior quantidade de mão de obra, gerando uma pressão para o mercado de trabalho dos países periféricos . Como não há mobilidade geográfica significativa na Europa, os salários aumentaram na região. Logo, as empresas não arcaram com estes custos sozinhas, e repassaram o aumento dos salários para os preços domésticos, que também aumentaram. Dessa forma, a taxa de cambio real intra européia, formada apenas por P*\P ( por não ter câmbio nominal entre os países do grupo ), sofreu uma apreciação , piorando ainda mais o déficit da balança comercial, e não ajudando os países membros a recuperarem do enorme endividamento.

Com a crise financeira, surgiu uma dificuldade de conseguir financiamento externo, pelo enorme risco de não pagamento da dívida. A única forma então de tentar pagar todas as dívidas adquiridas era diminuindo os preços locais, a fim de melhorar as exportações líquidas. Porém a inflação dos países centrais da Europa, como a Alemanha, já eram muito baixas, tornando esta missão quase impossível, sendo necessária deflação na periferia. Devido a rigidez dos salários e preços na Europa, as empresas começaram a demitir seus funcionários, buscando assim reduzir seus preços. Porém com mais desemprego, menos produção é formada, diminuindo a renda do país e conseqüentemente a arrecadação do governo. O déficit público então aumentou, levando a cortes de gastos pelo governo. Com menos gasto público, a produção local caiu ainda mais, gerando menos impostos e mais cortes de gastos pelo governo, e assim a União Européia entrou em um ciclo de recessão e endividamento bastante crítico.

Buscando amenizar a crise, a União Européia tomou algumas medidas, como a implementação de um pacote anticrise, maior participação no FMI, e ajuda financeira aos países com maiores dificuldades econômicas, como a Grécia. Essas ações foram coordenadas em especial pela Alemanha e França.

Ainda é muito recente para falar se as políticas foram válidas ou não, mas até o ano de 2013 o Pib do bloco econômico apresentou retração, e em 2014 apesar de ter apresentado uma leve recuperação, este grupo ainda apresenta crescimento econômico bastante baixo. Enfim, será necessária bastante atenção a estes países, que tem como um de seus maiores objetivos em 2014 a melhora de sua balança comercial. Ainda mais com a desvalorização do dólar em 2014, a Europa se encontra bastante preocupada com a cotação do euro, moeda local. Dessa forma, é provável que novas políticas no grupo sejam tomadas neste ano.

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 Fonte : The economist 

O gráfico acima mostra a parcela do endividamento europeu em relação ao Pib da região. Como se pode ver, após a formação da União Européia em 1993 os países europeus se tornaram cada vez mais endividados. Em 2010, quase no auge da crise da União Européia, o endividamento europeu correspondia a aproximadamente 120 % do Pib, situação insustentável. Um ano depois a crise européia apareceu de vez no cenário mundial. 

 Texto baseado nas aulas de macroeconomia do professor Afonso Henriques Borges Ferreira .

Indicadores Antecedentes

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O governo japonês divulgou os últimos dados de encomendas de maquinários (detalhes aqui). Em análises de conjuntura, gostamos de dados como estes porque, geralmente, há uma correlação entre eles e o desempenho econômico. Encomendas de maquinários mais altas indicam um certo otimismo com a economia (pode ser uma reposição de máquinas antigas…porque vale a pena, pode ser uma aposta no futuro…obviamente porque também vale a pena, etc).

O quão útil é este indicador, obviamente, depende de sua correlação, ou melhor, de seu co-movimento relativamente a algum outro indicador (ou alguns outros indicadores) de desempenho da economia. Por exemplo, será que o crescimento do PIB japonês tem relação com este indicador? Ou não?

A história dos indicadores antecedentes está diretamente ligada aos estudos de economistas que buscavam, como todo bom economista, entender melhor a realidade. Afinal, entender as oscilações do PIB, câmbio, balança comercial, investimentos, consumo, inflação pode não ser o que há de mais charmoso na profissão (acreditem: não é), mas faz parte do bê-a-bá. Não dá para andar sem aprender a engatinhar antes e também não dá para estudar, digamos, economia do crime, sem aprender a fazer análise destes indicadores antes.

Quer um conselho? Procure alguma boa literatura sobre o tema. Existe um livro mais antigo, do Claudio Contador, em que ele pesquisa indicadores deste tipo (antecedentes, futuros ou coincidentes) para a economia brasileira. Já para os amantes da história do pensamento econômico, uma referência obrigatória é Wesley C. Mitchell.

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Em algum momento do início deste livro, ele diz (veja o parágrafo que se inicia com “Entretanto, a teoria…”):

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Pois é. De lá para cá a coisa evoluiu muito. Os ciclos econômicos estão na base de muitas das indagações dos economistas, desde os clássicos (no sentido dos historicamente considerados como “pais” da nossa Ciência Econômica), até os atuais e, claro, os futuros, como os membros do Nepom. Membro do Nepom que não se preocupa com ciclo econômico, por definição, não existe.

Estrutura a termo da taxa de juros – em R

O pessoal do Revolution Analytics tem um post didático sobre como construir uma curva destas usando o R. Outro dia o Guilherme falou disso aqui e como sempre há um leitor ou outro interessado no tema, eis minha sugestão: construa a sua usando como inspiração o texto acima, publique em algum site como estes de armazenamento de imagem, por exemplo, e envie-nos o link!

Preferências do Consumidor – Cerveja

Particularmente, eu não ligo se em garrafas ou latas. Mas há quem se importe.