A miséria dos intelectuais

O Vitor Wilher encontrou um texto que é “o” clássico da literatura brasileira sobre o pensamento heterodoxo. Sim, ele está aqui e corrige equívocos de muita gente que não leu e saiu fazendo críticas. Eis um trecho muito engraçado.

Davidson (1984, 1996), por exemplo, afirma que entre os axiomas utilizados pela teoria neoclássica encontra-se o “axioma da ergoticidade”. Segundo Carvalho (1992, p. 42), “the axiom of ergoticity assumes that economic processes are basically stationary…” Quando uma hipótese deve ser considerada um axioma? Deve-se esperar, pelo menos, que a maioria dos trabalhos a utilize. Neste caso, no entanto, uma vez mais eu, que trabalho com teoria do equilíbrio geral, sou pego de surpresa pela crítica heterodoxa: jamais encontrei qualquer hipótese semelhante ao axioma da ergoticidade nos principais modelos utilizados pela teoria do equilíbrio geral.

Não é ótimo? Não ler a teoria e criticá-la é fácil. Mas isso também implica ter seu argumento rebatido facilmente. Obviamente, isto pode gerar um efeito psicológico interessante no viés do pesquisador. Aliás, não creio que Marcos Lisboa tenha percebido todas as implicações do trecho que escreveu:

O efeito perverso da crítica que desconhe o seu objeto é o isolacionismo e delírio esquizofrênico que imagina gigantes no lugar de moinhos e, eventualmente, descobre-se melancólica e isolada em um mundo muito distante do sonho construído.

Marcos Lisboa acertou. Não é difícil ver pesquisadores da ala pterodoxa que insistem em criar moinhos de vento em tudo que é oferta e demanda que aparece no livro-texto. Alguns, inclusive, resolvem que sua esquizofrenia não pode ser testada por reles métodos econométricos que não fazem jus ao verdadeiro pensamento que, supostamente, estão em suas cabeças. Não é difícil ter um diálogo com gente de 20, 30 ou 40 anos que começa com: você não leu fulano, logo, não entendeu nada. A teoria neoclássica está errada porque o fulano, que é um gênio, disse de forma cristalina.

Note o qualificativo, a adjetivação mágica, fantástica: cristalina. Quão poderosa pode ser esta imagem? Qualquer coisa que não seja cristalina não pode ser válida, não é? Qualquer um que tome banho uma vez ao dia, pelo menos, não pode aceitar tamanha sujeira neoclássica, não?

Pois é. Mas o problema é que cristalina significa, em 99% das vezes, que o sujeito não apresentou seu argumento: (a) de forma lógica, com álgebra (ainda que elementar) ou (b) acompanhado de testes empíricos para falsear suas hipóteses. Claro, não é? Sabemos que é mais fácil vender um produto apelando para vinte e poucas letras do alfabeto e uma boa retórica do que para um sistema de equações estocásticas.

Ou seja, na verdade, o burro do leitor, aquele que o acompanha em aventuras idílicas contra moinhos de vento, entenda-se bem, adora uma alfafa retórica. Uma ração um pouco mais sofisticada já lhe é indigesta. Afinal, pensar dói (ainda mais para o pobre burrinho). E quem foi que disse que o que é cristalino para você hoje, sê-lo-á amanhã, após algum estudo (este sim, dói)? Ou, melhor ainda, quem disse que não se pode dizer besteiras de forma cristalina?

Eu sei, você não leu o texto do Lisboa ainda. Ele é grande e exige algum conhecimento prévio de algumas fábulas, alguns mitos, umas críticas e estorinhas que alguns professores não te contaram porque o tempo é escasso e ele teve que escolher entre cumprir o programa ou te ensinar a batucar no pandeiro. Mesmo assim, é um texto que vale a leitura.

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