História do Pensamento Econômico Brasileiro – breves notas sobre a inflação

A confusa leitura de textos sobre a inflação nos jornais…

É interessante rever como andava  a cabeça de um aluno de Economia nos anos 80. De um lado, uns economistas que reconheciam o aspecto cruel da indexação e a questão da inércia na inflação.

Apesar de eliminar pelo menos por algum tempo a inércia, o choque heterodoxo enfrentaria obstáculos terríveis. A cristalização de preços e remunerações relativas na economia, ainda que bem planejada e executada, certamente provocaria a necessidade de um realinhamento no futuro. Troca-se o problema inercial pelo de descongelamento sem recrudescimento da inflação. (A)

Soa algo ortodoxo para você? Não, não vá ao final do texto ainda. O legal é ler primeiro e deixar para ver a referência após tentar imaginar quem seriam os economistas que teriam escritos os trechos. Bom, agora que você entendeu a brincadeira, vamos ao próximo trecho.

A teoria da inflação inercial parece que lançou raízes. (…) Para os economistas essa teoria é um verdadeiro achado, porque retira o problema da inflação do campo da economia, remetendo-a ao campo da psicologia social. (B)

Eis aí um trecho um tanto arrogante, já que o autor do trecho abaixo ainda se acha conhecedor de psicologia social, etc, além de analisar a economia como se a mesma não fosse uma ciência subjetiva, mas uma simples extensão de pseudo-ciclos gerados sabe-se-lá-como. Repare como a visão do mesmo tem um tom levemente pejorativo no que diz respeito ao aspecto psicológico da “inércia”. Não acha pejorativo? Pois o é. Eis outro trecho do mesmo autor:

A mudança das estruturas da oferta e da procura, encarada em sua forma mais elementar, é um problema de engenharia. Mas é óbvi que nossos engenheiros devem ser advertidos para a necessidade dessa mudança e essa advertência deve partir dos economistas e dos administradores. (p.46)

É muita crença no poder de um ser humano, não? Alguém não estudou direito o problema do cálculo econômico na economia socialista (um ponto pouco conhecido de alguns, embora a galera adore estudar o Methodenstreit de um século antes). A economia seria uma questão de engenharia e, cá para nós, qual seria a diferença entre um economista e um engenheiro nesta loucura imaginada pelo autor? A cor da mesa? O cargo no bureau de planejamento?

Mas eu seria muito malvado se não mostrasse o melhor trecho do dia, de um artigo chamado Carta Aberta ao Ministro da Fazenda, em 26/01/1986 cujas linhas iniciais eram:

Não invejo o cargo que o senhor ocupa. O senhor parece ter tantas responsabilidades e, em contrapartida, tão pouco poder. Sem dúvida, o senhor – ou um de seus sucessores – terá, em breve, que adotar algumas medidas fiscais desagradáveis. Essas medidas poderão, certamente, ser retardadas por mais algum tempo, a expensas, contudo, da aceitação de custos cada vez maiores em termos da severidade dos ajustamentos que, mais cedo ou mais tarde, terão que ser feitos. Seu cargo é hoje tão difícil porque seus predecessores optaram por adiar a resolução desses problemas. (D)

Não foi por falta de alertas, né? Houve alguém que escreveu uma carta aberta ao nosso ministro, na época, o Funaro, alertando-o sobre problemas sérios que vinham sendo adiados. Repare na didática exposição do custo de oportunidade que o autor da carta faz. Dá para imaginar quem seja?

Gran finale: culpados revelados!

Bem, chegou a hora! Deixei o melhor para o final! Veja quem foram os autores dos trechos acima. Será que você vai se surpreender?

(A) p.50 Arminio Fraga Neto, Problema no Brasil, Diagnóstico e Terapia, 09/02/1986.

(B) p.31. Ignacio Rangel, Ainda a Inflação Inercial, 05/11/1985.

(C) p.46. Ignacio Rangel, Recursos Ociosos na Economia Nacional, MEC/ISEB, Rio de Janeiro, 1960.

(D) p.51. Thomas J. Sargent. Carta Aberta ao Ministro da Fazenda, 26/01/1986.

Ah sim, os itens (A), (B) e (D) estão em: Folha de São Paulo, A Tragédia do Cruzado, 1987.

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