Diálogos Fictícios em Equilíbrio Geral

Ato I – Andante, ma parado

Então sentamo-nos eu e o Arthur no restaurante que é um “fora para trás” (Outback). Era sua despedida – atrasada algumas semanas – e esperávamos o restante do time do Nepom. Assim o Arthur começou:

– Shikida, e o semestre, heim?

– É, Arthur, o semestre…

– Gostei muito do R.

– É, Arthur, o R…

– A turma poderia ter estudado mais.

– É, Arthur, a turma…

– Shikida, você está cansado depois deste semestre?

– É, Arthur, Shikida…

Assim o tempo passou e conversamos mais um pouco. O Arthur reclamou da vida, do universo e dos espíritos.

– Shikida, acho que a Econometria tem espíritos malignos.

– Concordo. Mas indígenas ou africanos?

– Nossa…não sei.

O mais estranho foi a fila que se formou quando a porta do restaurante se abriu. Ninguém, mas ninguém mesmo, respeitou a ordem de chegada. Ali estava nosso povo da zona sul, os primeiros a pregarem sermões da teologia da libertação para os vizinhos, desrespeitando o mais básico direito das pessoas. Vai ver acham que a fila é uma invenção neoliberal. Logo eles, que viajam sempre para Miami

Ato II – Crescendo parante montante andante

Após sermos devidamente acomodados em uma mesa, começamos a contagem regressiva para a chegada do pessoal do Nepom. Com mais ou menos uma meia hora, Arthur já se achava abandonado.

– Shikida, o pessoal não gosta de mim.

– Por que, Arthur?

– Só porque sou monitor do Jonathan.

– Não, Arthur, as coisas não são assim. Muita calma. É só o trânsito mesmo.

– O Zé falou que pegou trânsito, mas aqui no celular diz que é um dia calmo na cidade.

– Mas Arthur, Zé é do interior. Na terra dele, automóvel é perturbador da ordem e da paz.

– As meninas, Shikida…

– O que tem elas, Arthur?

– Elas me abandonaram.

– Arthur, já pensou em procurar um psicólogo?

Com isto veio a garçonete e pedimos lá alguma entrada. O tempo passou e chegaram Larissa, José e Maria (mas não o menino Jesus).

Foi só o José sentar e lá veio um policial:

– Meu filho, você tem 18 anos?

– Sim senhor.

– Documento?

– Sim senhor.

– Não, eu pedi para ver um documento.

– Ah, sim, aqui está.

O policial olhou, olhou, fitou bem o Zé, olhos nos olhos (como diz aquela música: “quer ver o que você faz…”) e aí eu intervi:

– O senhor não vai perguntar minha idade?

– Meu senhor, vejo que o senhor está enquadrado no Estatuto do Idoso, pode beber tranquilo.

Fiquei realmente preocupado. Talvez seja o boné do Nepom que tenha me envelhecido. Ou minha aparência cansada. As meninas ficaram chocadas  e tentaram me consolar:

– Não, Shikida, você tá até jovem para quem tem 60 anos.

– Maria, eu tenho 44 anos.

– Oops, é, bem, Poços, ajuda aí.

– É Shikida, para quem tem 44, você até não pRecisa de ciRuRgia plástica.

Eu já me ressentia de não ter levado um facão para um suicídio com cerveja quando o Arthur interveio:

– Gente, eu quero mesmo é um chops e dois pastel.

Aqueles que nunca foram a São Paulo não entenderão, mas a Poços sim:

– Ah, ARthuR, eu sempRe soube que você queRia mesmo passar as féRias na avenida Paulista, visitando o MASP.

– Não, não, gente. Não é isto. Shikida, ajuda aí.

– É, Arthur, ajuda…

Ato III – Gran Finale 

Conversa vai, conversa vem e o Zé pediu outro chopp. A garçonete, então:

– Posso ver sua identidade?

– Sim senhora. Tá aqui.

– CPF?

– Sim, claro. Aqui.

– Endereço residencial?

– Hum…depende. É para a TV Globo?

– Não, estou brincando. Pode beber mais um chopp. Por conta da casa.

– Obrigado!

Todos se entreolharam. Um momento mágico acontecia ali? Chopp de graça para todos? Eram os deuses astronautas? Vai saber. O fato é que Zé tinha mais um copo de chopp na mesa. Ele me olhou e disse:

– Shikida, eu acho que estar no Nepom é muito legal!

– É, Arthur…digo, Zé,…legal.

– Sério, Shikida. Eu só não sabia que tinha que trabalhar todos os dias da semana.

– Ué, Zé, vocês querem twitterfacebook e não querem coursera? Como disse Keynes: “rapadura é doce, mas não é mole não”!

– Ele disse isso, Shikida? (perguntaram as moças em uníssono)

– Não gente, estou brincando.

– Ufa! Achei que tinha peRdido algo da matéria (disse Poços).

Arthur ainda pediu um hamburguer e começou a falar de incas, pirâmides, ET de Varginha (ou VaRginha, como diz Poços). Em determinado momento eu parei, fiz um exercício de meditação e saí do meu próprio corpo (juro que é verdade). De repente, lá estava eu, flutuando sobre o salão, ouvindo tudo que é bobagem. Eu me vi lá, sentado, ouvindo a conversa animada da galera. Pensei um pouco: mas que raios está acontecendo? O que é o Nepom? Qual o sentido de sua existência? Qual o sentido de fazer o que fazemos? Vai dar mais números primos na mega-sena mês que vem?

Tantas perguntas, tão poucas respostas. Creio que voltei a mim mesmo na hora de pagar a conta. Pagamos todos e fomos embora. E o Arthur ainda deixou uns números de telefone em guardanapos. Vai que cola?

 

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