Thomas Blake Glover: o empreendedor cervejeiro…no Japão da era Meiji

Modelando o empreendedor?

Já falei várias vezes que uma das agendas de pesquisa mais interessantes em Ciências Econômicas diz respeito à teoria do empreendedor. Há algumas opções no mercado das idéias, mas hoje eu tive acesso a um artigo de pretensões didáticas. Trata-se de Stull, W.J. (2014) Taking the Plunge: Teaching the Microeconomics of Entrepreneurship. International Atlantic Economic Society (2014) 20:139–150. Como você vê: a pretensão é didática mesmo. Ele quer nos fornecer um modelo simples que seja capaz de explicar a maximização de utilidade do empreendedor.

De maneira geral, U=U(Y, L, X) e H = W + L. Vejamos: Y = renda semanal, L = horas semanais de lazer (tal que H = W + L, em que W = horas alocadas para o trabalho). Já “X” é definida como: “vetor de características do trabalho além das horas de trabalho que abrangem todas as possíveis fontes de custos e benefícios não-pecuniários”.

A seguir, o autor define duas situações: a do trabalho atual – que dá ao indivíduo uma utilidade Uc – e a de empreendedor, que lhe dá a utilidade Ue. Supõe-se que a função de produção do empreendedor seja Q=g(H-L). Sob competição perfeita, o preço da firma é exógeno e a renda será dada por Y =Pg(H-L). Assumindo os tradicionais rendimentos decrescentes, obtém-se a relação NIF da figura reproduzida abaixo.

Quando X = Xe (vetor de características do empreendedor),  a maximização se dá no ponto “E”, e o valor da utilidade é dado por Ue(Ye, Le, Xe). Assim, o sujeito escolhe empreender quando Uc(Y, L, Xe) < Ue(Y, L, Xe). Ou seja, se ele tem características de empreendedor, sua utilidade será maior se escolher a alocação no ponto E.

enrepreneur

 

Ok, eu concordo com você que o modelo é muito simples e que existem outros pontos interessantes que poderiam ser modelados aqui (eu, particularmente, gosto da abordagem do Baumol sobre empreendedorismo). Mas vamos seguir a sugestão de Stull (2014) e tentar ilustrar a escolha do indivíduo no modelo acima.

Thomas Blake Glover: você conhecia?

Meu exemplo será o de Thomas Blake Glover. Citando:

The legend is true: the whiskers on the fabulous  gifaffe-lion on the labels of Kirin beer are based on Glover’s own moustache. Returning from beer-rich America, it dawned on Glover that while imported beer was too expensive in Japan, the foreign community was dissatisfied with the domestic product. But he was now a regular salaried worker with no investment capital of his own. (Gardiner, 2007 : 141)

Embora seja verdade que este escocês pouco conhecido entre os economistas (a gente só conhece mesmo Adam Smith, né?) não tenha fundado a Kirin, o fato é que Glover foi um empreendedor no sentido da palavra. O mercado de cervejas no Japão era algo novo e um holandês, Henrik Doeff (não é que parece com Duff???) não havia tido sucesso em produzir cervejas por lá. A outra companhia, a Copeland’s Spring Beer Brewery, que iniciou suas atividades em 1869 faliu em 1885. Quem a comprou? Isso mesmo: Glover.

20140517_110923Mas a história de Glover na cervejaria não é tão interessante quando se ignora – e aí está o motivo de eu preferir a abordagem de Baumol – suas conexões políticas com o governo Meiji. Na minha opinião, um bom modelo teórico do empreendedorismo deveria incluir mais custos de oportunidade como o de escolher empreender ao invés de atuar apenas na política (ou algo assim). Afinal, Glover não foi apenas o grande empreendedor da Kirin, mas também trabalhou como cônsul dos portugueses no Japão.

Bom, vou parar por aqui. O artigo de Stull (2014) é pequeno e didático e Gardiner (2007) é um livro interessante, principalmente se você quer conhecer uma história de empreendedorismo bem realista, sem as fantasias destes livros de bolso que pintam as pessoas como anjos ou demônios. Somos, todos, um pouco de ambos, empreendedores ou não.

Referência (Livro)

Gardiner, M. At the edge of Empire – The life of Thomas Blake Glover. 2007, Birlinn, London.

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