Paradoxo do dia: por que o capital não sai dos países ricos para os países pobres?

Para alegrar seu domingo!

Pergunta que Robert Lucas se fez em 1990. O texto se inicia com uma pergunta bem simples. Diz ele mais ou menos assim: “caso o modelo de crescimento esteja correto, então temos que observar a convergência dos países”. Melhor deixar ele mesmo dizer:

The egalitarian predictions of the simplest neoclassical models of trade and growth are well known and easy to explain, as they follow from entirely standard assumptions on technology alone. Consider two countries producing the same good with the same constant returns to scale production function, relating output to homogeneous capital and labor inputs. If production per worker differs between these two countries, it must be because they have different levels of capital per worker: I have just ruled everything else out! Then the Law of Diminishing Returns implies that the marginal product of capital is higher in the less productive (i.e., in the poorer) economy. If so, then if trade in capital good is free and competitive, new investment will occur only in the poorer economy, and this will continue to be true until capital-labor ratios, and hence wages and capital returns, are equalized. [Lucas, R.E. Why Doesn’t Capital Flow from Rich to Poor Countries? The American Economic Review, Vol. 80, No. 2, Papers and Proceedings of the Hundred and Second Annual Meeting of the American Economic Association (May, 1990), p.92]

Pois é. Então Lucas resolve investigar, teoricamente, o porquê disto não ocorrer. Em outras palavra, ele muda o modelo tentando verificar possíveis explicações. Podemos resumir suas conclusões em: (a) as diferenças no capital humano dos países; (b) imperfeições nos mercados de capitais (“risco político”); (c)  rendas de monopólio.

Este texto é importante (quem já estudou Macroeconomia deve ter notado que Simonsen e Cysne, em seu livro Macroeconomia, em sua 3a edição, sugerem a leitura deste artigo logo nos primeiros capítulos, ao discutirem problemas do Balanço de Pagamentos) e gerou uma onda de trabalhos. Alfaro et al (2008) resume o que aconteceu, quase duas décadas depois do artigo seminal de Lucas:

Researchers, including Lucas himself, show that with slight modifications of the standard neoclassical theory, the paradox disappears. These theoretical explanations for the “Lucas Paradox” can be grouped into two categories. The first group includes differences in fundamentals that affect the production structure of the economy, such as technological differences, missing factors of production, government policies, and institutional structure. The second group of explanations focuses on international capital market imperfections, mainly sovereign risk and asymmetric information. [Alfaro, L., Kalemli-Ozcan, S. and Volosovych, V.. Why Doesn’t Capital Flow from Rich to Poor Countries? An Empirical Investigation. The Review of Economics and Statistics, Vol. 90, No. 2 (May, 2008), p. 347]

Vamos aproveitar que hoje é domingo para falar um pouco do paradoxo que permeia os dois textos. Assim, vamos lá!

Paradoxo de Lucas

Primeiro, que raios é este tal de Paradoxo de Lucas? Bem, é basicamente o que eu disse no início deste post. Em outras palavras:

In economics, the Lucas paradox or the Lucas puzzle is the observation that capital does not flow from developed countries to developing countries despite the fact that developing countries have lower levels of capital per worker.

Assim, Alfaro et al (2008) resolvem investigar o paradoxo com diversas variáveis e amostras de países. Vejamos seus resultados iniciais:

alfaro1

Encorajadores, não? Posteriormente, os autores seguem com uma bateria de regressões (OLS e IV) e testes de diagnóstico até chegarem às conclusões do artigo. Seus resultados são os de que, no período estudado (1970-2000), a principal explicação do paradoxo de Lucas é a institucional. Finalmente, dizem os autores:

Our results suggest that policies aimed at strengthening the protection of property rights, reducing corruption, and increasing government stability, bureaucratic quality, and law and order should be a priority for policymakers seeking to increase capital inflows to poor countries. Recent studies emphasize the role of institutions in achieving higher levels of income, but they remain silent on the specific mechanisms. Our results indicate that foreign investment might be a channel through which institutions affect long-run development. [Alfaro et al, (vide citação acima porque isto aqui não é artigo científico, só um post…, p.365]

Eu sei, eu sei, você queria que eu fizesse um resumo detalhado do texto. Bem, eu não vou fazer sua monografia para você, né? Mas veja como o tema é interessante.

The Lucas Paradox is related to the major puzzles in international macroeconomics and finance. These include the high correlation between savings and investment in OECD countries (the Feldstein-Horioka puzzle); the lack of overseas investment by the home country residents (the home bias puzzle); and the low correlations of consumption growth across countries (the risk-sharing puzzle). All of these puzzles stem from the lack of international capital flows, more specifically, the lack of international equity holdings. However, the empirical literature on these issues is extremely thin and not in agreement. [Alfaro et al, (idem), p.348]

Em resumo, segundo Alfaro et al (2008), os resultados empíricos nos dizem que se há algo que possamos fazer para aumentar o fluxo de capitais para os países pobres, isto seia estimular o investimento estrangeiro naqueles países, mas de forma que este investimento gerasse algum tipo de melhora institucional nos países pobres (aumentando, portanto, a probabilidade de que mais investimentos continuassem a fluir para os ditos cujos). Não é uma discussão estranha, não é?

Então, instituições importam?

Você que já teve aulas com o prof. Ari ou o prof. Diogo, já deve ter ouvido falar dos trabalhos recentes de Acemoglu (ou do debate entre Acemoglu e Sachs sobre a (in)eficácia da ajuda governamental externa a países pobres no que diz respeito ao desenvolvimento econômico).

Instituições importam? Lucas nos diz que, teoricamente, sim. Alfaro e co-autores nos dizem que, empiricamente, também. A bem da verdade, quem já fez meu curso de História Econômica do Brasil já foi bombardeado com autores que dizem que instituições são muito importantes (o falecido agraciado com o Nobel, Douglass North não me deixa mentir) para se explicar o desenvolvimento de países.

Os dois artigos acima são apenas grãos de areia nesta vasta literatura. Há quem sequer cite Lucas ou seu paradoxo em seus estudos sobre instituições. Do outro lado, há quem sequer se lembre de Douglass North ao fazer modelos. Ambos erram em não fazer uma revisão completa da literatura (para ser mais exato, eu diria que depende um pouco do objetivo do artigo, mas creio que o “esquecimento” ocorre em uma frequência maior do que eu esperaria, em um mundo no qual cientistas não são maximizadores de fama e popularidade).

Instituições importam sim. O leitor do Nepom pode não ter estudado isto ainda, mas uma busca pela internet por alguns autores citados aqui (bem como pelos artigos citados na bibliografia dos dois textos que usei como base para este post) vai lhe mostrar que o assunto é bastante interessante.

Ciência se faz aos poucos…

Pois é. Há várias formas de se melhorar a compreensão de um problema e uma delas é por meio da alteração das hipóteses dos modelos. Não é algo trivial de ser feito. Quantos colegas você conhece que, com dois anos de Economia, sentam-se em casa por quatro horas initerruptas tentando modificar um modelo? Nenhum, né? Aliás, quantos colegas você conhece que, antes disto, sentaram-se por mais de quatro horas tentando entender  o modelo estudado em sala? Pois é. PaperArtist_2014-05-11_09-48-044

Agora eu vou te dizer porque este post surgiu. Eu não tinha o menor interesse em ler o texto de Lucas e nem discutir o paradoxo. Na verdade, eu queria criticar uma equação ad hoc que existe no livro de Macroeconomia do Simonsen & Cysne que, na verdade, é do Simonsen. O próprio Cysne faz a qualificação da mesma (na 3a edição) e eu queria fazer umas simulações simples para mostrar a dita cuja. Iria falar um pouco do R e de álgebra. Iria encantar alguns mais chegados em álgebra, acho. Mas ao perceber a irrelevância do tema diante do belíssimo artigo de Lucas, não houve jeito: rendi-me ao belo texto do autor e terminei por perceber que muito do que faço (com instituições) tem a ver com este pequeno texto do Lucas que havia passado despercebido (my mistake, of course).

Viu como são as coisas? Quem leu até aqui tem potencial para não morrer na praia. Espero que tenha gostado do texto.

2 respostas em “Paradoxo do dia: por que o capital não sai dos países ricos para os países pobres?

  1. Estou no quinto semestre de Economia e estava lendo o livro do Mankiw quando dei de cara com esta pergunta e a indicação deste artigo (está no quinto capítulo). O li e gostei muito. Procurei algo em português e encontrei o blog – afinal, duas grandes descobertas. Deixo esta resposta porque seu último parágrafo foi um alívio e tanto para este que vos escreve, pois, levando em consideração que estudo em uma universidade onde, infelizmente, os alunos não tem este nível de preocupação, eu me limito a conversar com professores, mas muitos destes me passam um ar de incomodados com minhas indagações. Então, agradeço a preocupação em montar um blog de tamanha importância e dirimir minhas preocupações quanto ao futuro e, obviamente, a curiosidades, por enquanto, pontuais. Um grande abraço e até a próxima.

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