A criatividade econômica perde um gigante: Gary Becker nos deixou

Eu sei que nem todo aluno de Economia conhece Gary Becker e também sei que não faz sentido algum continuar na ignorância após umas poucas aulas com bons professores (o que mais cita o Becker, nos primeiros períodos, em nossa faculdade, deve ser o Guilherme…ou o Ari).

Becker nos deixou hoje, economistas, órfãos. Muita gente nunca entendeu bem o que Becker fez e outros entenderam e o menosprezaram porque, sei lá, ele não falava da suposta peculiaridade latino-americana. Há muita gente ignorante no mundo, realmente.

Mas, os mais novos, que cresceram achando que o mundo era tal que livros como Freakonomics eram a regra, não a exceção, deveriam saber que a abordagem mais generalizada da Economia se iniciou com gente como Gary Becker e Jack Hirhsleifer (que morreu sem nunca ter tido a chance de ganhar o Nobel…tal e qual Mancur Olson Jr, outro que nos deixou cedo).

Becker é um legítimo representante da tradição de Chicago de fazer economia (aquela que meu querido professor Hillbrecht explicou em recente video-aula), de sua criatividade e maneira ultra-científica – e não menos tensa – de se fazer ciência, com rigor profissional e criatividade acadêmica.

Hoje de manhã eu lia sobre George Stigler – outro Nobel falecido – de Chicago, e co-autor de Becker em um famoso artigo que meus leitores deve(ria)m conhecer para escrever um post em meu blog (cujo nome não preciso citar agora…). Aí eu leio que Becker faleceu. Nada poderia entristecer tanto um domingo, do ponto-de-vista acadêmico.

Quando estava na USP, conheci o prof. Balbinotto Neto, então colega de aulas e leitor entusiasta de Becker. Não estarei mentindo se disser que ele foi um grande incentivador de minha leitura microeconômica. Ouvir Giacomo falar de Gary Becker era como ouvir uma criança se divertir com seu novo presente de Natal: era entusiasmo em forma pura.

Os anos se passaram e eu continuei me impressionando com a criatividade de Gary S. Becker. Desde seus artigos seminais em Microeconomia (sobre irracionalidade racional, preferências, economia da família e do divórcio) até as aplicações mais populares entre economistas brasileiros (como a economia do crime, né, prof. Ari?).

Então surgiram os livros no estilo Freakonomics, que diziam o que Becker ensinava há mais de 30 anos: que economia era algo interessante que não se limitava à análise de câmbio ou juros. Veja você, como são as coisas. Muitos passaram a admirar a Ciência Econômica como um método mais geral de estudo de ações humanas (porque, como já disse Buchanan, qualquer troca envolve valor e…caso envolva valor, é de nossa alçada, case closed) a partir destes livros, mas tudo começou lá atrás, com alguns nomes importantes. Um certo estilo vitoriano, por assim dizer, no caso de Buchanan, um estilo mais sarcástico (e cruel), no caso de Stigler e um verdadeiro estilo de criatividade dispersa, como era o caso de Becker.No final, percebo que fiquei mais velho: são todos economistas falecidos nos últimos anos.

Então, um brinde a Gary Becker! Muito obrigado por ter tornado minha vida um pouco menos pior, com seus insights. Minha vida acadêmica também mudou para melhor por conta de minhas leituras de seus artigos. Muitas coisas aprendi e pude rever alguns conceitos graças aos estudos de artigos que se iniciaram com alguns textos deste grande economista.

Até mais, prof. Becker.

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