Para cutucar seu cérebro

Felizmente, o passado nunca morre totalmente para o homem. O homem pode esquecê-lo, mas continua sempre a guardá-lo em seu interior, pois o seu estado, tal como se apresenta em cada época, é o produto e o resumo de todas as suas épocas anteriores. E se cada homem auscultar a sua própria alma, nela poderá encontrar e distinguir as diferentes épocas, e o que cada uma dessas épocas lhe legou. [Fustel de Coulanges,  A Cidade Antiga, Introdução, 1996 (original de 1864)]

Pois é. A história – econômica ou não – é um objeto de estudo interessante. Resultados de políticas econômicas de hoje podem, em certa medida, depender de políticas passadas, historicamente falando. Obviamente, o homem tem o poder de alterar a realidade e nem tudo o que faz é determinado pelo seu passado. Mas é fato que alguns valores básicos podem ser importantes para explicar alguns fenômenos. Veja, por exemplo, o gráfico abaixo.

“To be or not to be…”

Ele ilustra a relação de duas variáveis: esta e esta outra que está neste estudo. Repare na legenda. Ela mostra que o tamanho das bolinhas que representam cada país diz respeito a uma medida de capital humano (humank_2010). Repare que o tamanho da bolinha é proporcional ao tamanho do indicador, o que significa que Uganda, por exemplo, tem uma média de capital humano bem menor do que Cingapura ou, sei lá, o Japão.

post original que qualifica um pouco esta correlação está lá no meu blog (clique na figura e divirta-se). Um ponto importante para se pensar: que tipo de instituições geram sociedades mais inovadoras? Bom, a correlação acima nos diz que uma cultura mais pró-mercado pode ser uma boa.

Que cultura é esta? Que país é este?

Ok, a cultura é (cito do original, cujo link já dei, aí em cima):

Our economic culture variable is constructed by identifying four distinct categories of culture that should constrain behavior related to social and economic interaction and, thus, economic development. These four components are trust, respect, individual self-determination, and obedience and serve as rules governing interaction between individuals, including market production and entrepreneurship. In general, trust, respect, and individual self-determination are thought to stimulate social and economic interaction, whereas obedience is thought to limit economic interaction and development by decreasing risk-taking, a trait essential to entrepreneurship.

Mais detalhes, obviamente, lá no artigo da Claudia Williamson e co-autora. Mas leia novamente o trecho acima e perceba o quanto o mundo de hoje é melhor do que o mundo de 20 anos atrás. Afinal, podemos coletar dados extremamente interessantes que nos dizem algo sobre as preferências de uma sociedade (e viva a psicologia evolutiva, claro!) e podemos nos dar ao luxo de testarmos teorias sobre o comportamento humano.

Bom, o “luxo”, neste caso, vem do fato de que a Revolução Industrial gerou uma nova classe de trabalhadores, os tais intelectuais, nem sempre satisfeitos com esta nova vida (alguns dizem odiar a classe média), que, eventualmente, ajudam a avançar (ou a atravancar) a inovação em uma sociedade.

Mas, voltando à cultura, note como ela diz respeito a valores que mudam (mas nem sempre com alta frequência) ao longo do tempo. Aliás, nós mesmos buscamos conservar alguns valores, somos a causa de sua imutabilidade relativamente alta pois, por exemplo:

Não há dúvida de que a obsessão em colocar outra coisa melhor no lugar da que existe é uma das molas propulsoras do ‘progresso’. Só que nas sociedades em que impera a descartabilidade, determinada por imperativos econômicos e tecnológicos, alguns valores éticos precisam ser tomados como absolutos para evitar que tudo, inclusive o homem, seja visto como mero degrau na escalada em direção à maior eficiência ou como simples objeto do saber instrumental propiciado pela revolução biotecnológica em curso. [Alberto Oliva, A Solidão da Cidadania, Senac, 2000, p.35]

Repare que o autor nos dá um belo exemplo de como nós mesmos temos a necessidade de criar valores mais ou menos estáveis ao longo do tempo, em especial, no que diz respeito à própria condição humana. Por que é que mercados não foram inventados por ninguém e existem até hoje? Dentre outras coisas, porque existe instituições informais – valores básicos – que nós mesmos cultivamos e que são compatíveis com sua existência. Fustel de Coulanges não lhe soa bem mais interessante agora? É que o temperamos com dados e um pouco de Teoria Econômica (sutilmente).

Obviamente, existem valores menos pró-mercado, mas a competição entre os efeitos sobre o bem-estar dos indivíduos destes diferentes valores gera alterações nas próprias demandas e ofertas de práticas baseadas nos mesmos (quantas mulheres, hoje, no mundo, são favoráveis à sua própria submissão aos maridos?).

Instituições e Inovação…

Uma desafiadora questão diz respeito à relação entre instituições e inovação. Que tipo de instituições maximizaria a inovação em uma sociedade, ceteris paribus? Ok, já vimos ali que a cultura (tal e qual definida acima) pode ser importante. Digo, vimos brevemente porque nem me aprofundei no tema. Mas há outras instituições, ensina-nos Douglass North, importantes para gerar sociedades mais inovadoras. Uma das melhores discussões sobre este tema vem do insight de Hayek sobre o uso do conhecimento. Richard Epstein, em um livro dos anos 90, discutiu a questão de Hayek (regras simples ou complexas?) em termos gerais, argumentando a favor das regras simples (leia Hayek e o livro para detalhes).

Recentemente, o livro de Sowell sobre os intelectuais (Intelectuais e Sociedade, ou algo assim) faz uma outra discussão interessante sobre o tipo de conhecimento que um intelectual tem e aquele que está disperso na sociedade (valhei-me, Hayek, again!). Finalmente, o novíssimo livro do William Easterly, The Tiranny of Experts, coloca a discussão no importantíssimo contexto do debate sobre o desenvolvimento e a pobreza.

Complicado? Simples? Sei lá. 

O conceito de inovação, eu sei, é bastante complicado para se resumir apenas a um indicador. Mas assim também o são os conceitos de cultura, desenvolvimento, etc. Para que possamos compreender a realidade é necessário fazer concessões porque somos, como dito acima, limitados em nossa capacidade cognitiva: é necessário simplificar o modelo para entender um pequeno pedaço do mundo (depois você coloca mortadela, presunto, rosbife, maionese, picles e aumenta sua compreensão da realidade).

Também é necessário, a cada passo que se quer dar na maior complexificação da compreensão do mundo, fazer checagens empíricas. Sim, estou falando de usar a Econometria ou qualquer outra ferramenta estatística para nos ajudar a evitar buracos, abismos e fosso(a)s.

Concluindo sem concluir

Deixemos ao leitor a tarefa de construir sua própria conclusão, após ler este texto. Para cada leitor, uma conclusão. Obviamente, nem todo leitor tem uma conclusão socialmente útil, mas a competição das idéias tende a corrigir isto. Para que esta competição funcione de maneira menos imperfeita, melhor não censurar a leitura ou criar cotas de leitores. O bom mesmo é deixar que cada um leia, livremente, passe raiva, ame, xingue e se veja no espelho como mais/menos/ou igualmente ignorante após a leitura do texto.

O próprio ser humano, como não é poste ou pedaço de pau, tende a avançar em sua busca do conhecimento. Não é assim com você? De certa forma, estamos fazendo a inovação enquanto dela falamos.

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