Déficits Gêmeos no Brasil: uma lição da formiga que venceu 300 cigarras

300…cigarras cantarolando alegremente não valem um centavo

Depois de ler um texto extenso em sala, na verdade, um pequeno box no livro do Abel, Bernanke & Croushore de Macroeconomia, discuti um pouco o tema. Esperava ansioso que algum aluno fizesse uso do celular de maneira correta e encontrasse algo. Entretanto, lá ao fundo, alguns consultavam suas mensagens particulares, outros conversavam sobre outros temas. Sim, há quem fale de cupins e seres humanos (o falecido Og Leme tinha um livro sobre Liberalismo com um título assim…), mas eu prefiro ver o mundo como a disputa entre cigarras e formigas.

Pois é. Uma aula de Macroeconomia que discuta um tema ligado à realidade é bem menos interessante do que uma em que apenas o professor resolva exercícios para os alunos que não querem resolver nada. Por que? Porque dá trabalho pensar, né? Um pouco. Fica mais difícil ainda quando as pessoas querem ser formigas, não cigarras.

Então eu esperei. Certamente alguém me enviaria algo depois do almoço. Bem, nada. Eu quase podia ouvir as formigas descendo as escadas em direção à sala do coordenador, para reclamar que gostariam de usar o celular em sala, mas não para ajudar nas aulas. Talvez apenas para discutirmos filmes e cinema.

Uma formiguinha faz toda a diferença…

Tanto barulho de formigas cigarras cantarolando e me cansei: resolvi fazer uma busca super-complexa no Google. Digitei “déficits gêmeos no Brasil”. Sim, tudo isto. Devo ter levado muitos nanossegundos. Um sacrifício enorme! Quase achei que iria morrer de cansaço com tanto esforço! Pensei em pedir para meu chefe três dias de folga. Mas eis que veio isto.

“- Pensar dói. Mas não pensar dói mais ainda.”

Incrível! Quer dizer que a taxa marginal de substituição entre vinte frases que não vão mudar sua vida no wazápi e uma busca no Google por um termo que você terá que estudar é assim, tão cruel com sua paradeira? Bem, sinto dizer, mas é.

Mas há esperança. Você sempre pode, como bípede da espécie humana, recuperar-se: bípedes andam e se levantam. Bípedes humanos pensam. Eu sei, eu sei, a vida é tão difícil, falta-nos tanto tempo, não há mesmo tempo para nada. Como se divertir e vencer a concorrência chinesa ao mesmo tempo? Não tem jeito, né?

Agora eu te pergunto: quem você quer ser? A formiga ou a cigarra?

Ok, mas vamos prosseguir. Agora você já tem um gráfico. Incompleto, eu sei, mas é um gráfico. Completar os dados é um trabalho que o Victor ou a Isadora, meus monitores, conseguem fazer sem pensar. Aqui no Nepom, imagino, é a mesma coisa. Isto nem conta como “passo adiante” pois é mais óbvio do que inspirar oxigênio e expirar gás carbônico.

Mas falta ir além. Falta ver a causalidade implícita no livro-texto. Se eu fizer isso, terei matado o incentivo que motiva meus melhores estudantes. Gente que não tem medo de desafio, não tem orgulho besta ou atitude de planta morta. Então, eu não vou fazer nenhuma estimação. Só vou dar as dicas: (a) para a formiga que curte econometria: as séries deveriam ser estacionárias; (b) para a formiga que curte pesquisas: faça a busca por artigos científicos no Google e, (c) para a formiga que curte economia brasileira: faça como as formigas de (a) e (b) e use seu tempo de forma produtiva.

As formigascigarras, claro, nem precisam fazer provas. As formigas cigarras que desejam mudar, estas são bem-vindas. As cigarras formigas, bem, a mensagem para elas é: não se acomodem. Uma formiga não permanece formiga se não faz por onde. Claro, a todos, boa sorte. Quem publicar aqui primeiro algo interessante se candidata a trabalhar no Nepom (se for do Nepom, candidata-se a ser o campeão de posts da semana).

"- Ah, mas é tão difícil fazer uma busca no Google...vamos ficar conversando sobre o Carnaval, formiguinhas? Larguem deste negócio de estudar! Isso é coisa de escravo da senzala. Aqui na Casa-Grande, tudo é festa! Tem 'body shot' todos os dias!!"

“- Ah, mas é tão difícil fazer uma busca no Google…vamos ficar conversando sobre o Carnaval, formiguinhas? Larguem deste negócio de estudar! Isso é coisa de escravo da senzala. Aqui na Casa-Grande, tudo é festa! Tem ‘body shot’ todos os dias!!”

Uma resposta em “Déficits Gêmeos no Brasil: uma lição da formiga que venceu 300 cigarras

  1. Pingback: Déficits Gêmeos | De Gustibus Non Est Disputandum

Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s