E o Dilema Continua : Melhor Apreciar ou Depreciar o Real ?

 

A taxa de câmbio é uma variável macroeconômica extremamente importante para a análise da conjuntura econômica de um país. Ela representa uma relação entre o preço da moeda do país local com a moeda do país estrangeiro. Como as nações são estruturas que se relacionam com o resto do mundo trocando mercadorias, ativos financeiros, entre outros, uma taxa de câmbio mais alta ou mais baixa pode influenciar diretamente o resultado dessas trocas ( lembrando que estamos considerando quanto de uma moeda nacional preciso dar por uma estrangeira ) .

Porém existem prós e contras de um real apreciado (taxa de câmbio menor ) e um real depreciado (taxa de câmbio maior ). Estes benefícios ou prejuízos acabam levando o Banco Central e o governo a tomarem decisões sobre suas políticas, a fim de tentarem manter a taxa de câmbio em um patamar adequado para a situação econômica do país.

Um real depreciado, que tem como causas um aumento da desconfiança externa por parte dos investidores estrangeiros, além de taxas de juros mais baixas no país local que atraem uma entrada menor de dólares, tem como uma de suas principais consequências um crescimento econômico a curto prazo. Este efeito positivo é motivado principalmente por um aumento das exportações do país, visto que produtos locais ficam mais baratos diante os estrangeiros , fazendo também com que as importações feitas pela nação diminuam , e tudo isto incentiva um crescimento industrial . Este efeito atrativo a curto prazo leva muitos governos a incentivarem politicas monetárias (e outras ) que depreciem a moeda local a fim de ganharem popularidade, já que mantendo tudo o mais constante e em condições favoráveis da economia, uma taxa de cambio mais alta significa aumento do PIB, aquecimento da economia, e consequentemente menor desemprego. Isto frequentemente ocorre no Brasil, como por exemplo no ano de 2012 em que o Real aparecia em um cenário de desvalorização constante e mesmo assim as taxas de juros não foram aumentadas e a SELIC permaneceu por muito tempo em 7,5% para evitar a valorização do real, pois assim o governo incentivava a competitividade industrial brasileira.

Quando politicas monetárias contracionistas são realizadas, taxas de juros sobem o que atraem mais investidores ao Brasil, pois investimentos aqui renderiam mais. Além disto este tipo de política auxilia na venda de reservas internacionais. Tudo isto faz com que o Real sofra uma apreciação. Porém nem sempre é isso que é feito em um cenário como o de 2012. É claro que crescimentos a curto prazo não podem durar para sempre. Logo, uma desvalorização da moeda local causa a longo prazo um aumento das reservas de dólares do país e um superávit na balança comercial, porém o bem estar social tende a diminuir, pelo fato de que muitos produtos são exportados, poucos importados, então se reduz a quantidade de produtos que fica dentro do país para consumo interno. Além disso, taxas de juros baixas junto com aquecimento da economia são cenários desfavoráveis para um controle da inflação, principal meta do Banco Central. Logo, existe um trade-off : Real depreciado ou inflação mais baixa.

Já um real apreciado, fruto de taxas de juros mais elevadas e maior entrada de dólares no país, obviamente causará efeitos contrários na economia nacional. Os produtos domésticos ficam mais caros, levando a um aumento do déficit na balança comercial e elevando as dívidas externas.

Segundo um estudo canadense publicado no relatório Perspectivas Agrícolas Mundiais 2011-2020, a apreciação de moedas de países como o Brasil tem impacto importante no aumento dos preços mundiais. As projeções indicam que, para o período 2011-2020, o Brasil vai contribuir em 27% para o aumento do preço do milho, 35% para o aumento do preço do frango, 78% para o preço do açúcar e 72% para o preço do etanol.

 Além disso investimentos estrangeiros tendem a reduzir, pelo fato que ninguém se sente atraído a investir em um local que não possui mercado externo dinâmico no momento. Logo, a curto prazo a economia tende a ter seu crescimento reduzido, e como efeito positivo surge um maior controle da inflação. No ano de 2013 e inicio do ano de 2014, pela taxa de câmbio ter aumentado fortemente e o real se desvalorizado de forma significante, o Banco Central foi obrigado a buscar apreciar a moeda brasileira, pois se não mais tarde seria difícil manter a inflação mais estável . Desta forma politicas monetárias que reduzem os estímulos foram realizadas, aumentando a taxa SELIC. Neste mês, por exemplo, o COPOM ( Comitê de Politica Monetária ) , aumentou a taxa de juros em 0.25%, levando esta para 10.25 % ao ano. Isto, teoricamente aprecia o Real.

Trazendo esta discussão para um cenário atual, é possível ver que diante da desvalorização que o real vem sofrendo, e ainda por cima não acompanhada de consequências positivas significantes na balança comercial ( superávit muito pequeno no ano de 2013, apenas 2,6 bilhões de dólares ), e frente também a uma inflação não muito baixa, o melhor será que o Banco Central continue a manter a taxa SELIC mais elevada, a fim de conter a inflação. Além disso com uma política monetária mais contracionista é possível a realização de venda de reservas internacionais, além de outras intervenções, que aumentam a quantidade de dólares no mercado. Mesmo que assim o real sofresse uma apreciação, isto não o deixaria tão valorizado devido aos seus níveis atuais.

Portanto, expectativas de que a taxa SELIC se mantenha em 10.50% ou ainda que aumente para 10.75% são pertinentes tendo como parâmetro o mercado cambial.

Abaixo seguem gráficos  da taxa de câmbio e taxa Selic respectivamente. Neles podemos observar os dados citados no texto acima, como em 2012 que o real sofreu uma depreciação continua e mesmo assim a taxa SELIC permaneceu caindo . É possível ver também a situação atual, em que com um real fortemente depreciado o país foi obrigado a aumentar sua taxa SELIC, e este aumento não parou por aí. Como o gráfico reproduz os dados até agosto de 2013 a taxa SELIC havia subido para 9%, porém hoje ela está mais alta ( 10.50%).

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2 respostas em “E o Dilema Continua : Melhor Apreciar ou Depreciar o Real ?

  1. Eu acredito que no momento uma depreciação ainda maior do real é insustentável diante do cenário de inflação acima da meta do banco central e de uma taxa de câmbio tão alta desde parte de 2012.

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