Embora muito útil, Curva de Phillips apresenta limitações

A curva de Phillips representa uma relação de trade-off entre Inflação e desemprego. Baseando-se em  dados da economia do Reino Unido no período 1861 a 1957 , Phillips  percebeu haver uma relação negativa entre estas duas variáveis, em que quanto maior for a taxa de desemprego, menor a taxa de inflação, e vice e versa. Após alguns anos, outros dois economistas,  Paul Samuelson e Robert Solow , confirmaram a teoria analisando dados nos Estados Unidos que também mostravam o mesmo tipo de relação.

A primeira curva de Phillips foi descrita pela seguinte fórmula:

πt=(m + z) – αut

Onde:

πt = inflação;

m = markup;

α = força do impacto do desemprego sobre os salários;

u = desemprego;

z = outros fatores que afetam a fixação dos salários.

Porém esta fórmula desconsidera as inflações passadas e por isto não era o modo mais racional de analisar esta relação, portanto mais tarde a fórmula passou a ser descrita do seguinte modo:

πt -πt-1 =(m + z) – αut

onde π t-1 é a inflação do ano anterior. Esta curva é chamada de curva aceleracionista.

Por definição, conforme ressalta Blanchard (2001, p. 170), a taxa natural de desemprego é a taxa de desemprego em que a inflação corrente corresponde à inflação antecipada e pode ser descrita conforme a equação:

αun = m + z

Desta forma, quanto maior for o markup, m, ou quanto maiores são os fatores que afetam a fixação de salários, z, mais alta será a taxa natural. Substituindo (m + z) por αun e rearranjando a relação se tornará (BLANCHARD, 2001, p. 170):

πt – πt-1 = -α (ut –un)

Porém, nem sempre uma taxa de desemprego abaixo da taxa natural de desemprego de um país irá causar a mesma inflação e um mesmo nível de variação do mesmo.

Logo, apesar da Curva de Phillips ser uma grande guia nas análises de políticas sobre inflação e taxa de desemprego, nem sempre mesmas ações levam a mesmas consequências e variações destas variáveis.

Um primeiro ponto, é que apesar de um nível da taxa de desemprego abaixo do natural parecer ser altamente positivo para a economia de um país, isto também pode ter seu lado problemático, muitas vezes não mostrado em sua proporção devida por esta curva. Por exemplo, como Milton Friedman e Edmund Phelps verificaram em 1968, quando o desemprego está abaixo do seu nível natural ( taxa de desemprego baixa) a inflação não fica alta de forma fixa, mas continua aumentando . Isto pode até ser verificado pela inflação do ano de 2013 ter aumentado seis semanas seguidas no ano. Portanto, uma inflação sempre crescente diminui o desemprego apenas temporariamente, e depois no longo prazo o desemprego volta ao natural, com um custo de uma permanente inflação.

Outro aspecto não muito exato da curva de Philips e que pode ser mostrada pelo período de alta inflação no Brasil (1980 a 1994), é que a linha de tendência em períodos econômicos extremos de um país podem não apresentar uma curva de Phillips exatamente como a original. Apesar da Curva de Philips no Brasil ter tido uma inclinação negativa, no período de 1980 a 1994 , esta inclinação foi bem menor, relatando uma relação negativa mais fraca entre as variáveis.

Em maio de 1984, quando foi verificado o maior índice de desemprego do período em questão (9,32%), a variação da taxa de inflação em relação ao mês anterior foi de apenas –0,49%. Em abril de 1990, a variação da taxa de inflação alcançou o percentual de -66,87% e tendo para este mesmo mês uma taxa de desemprego de 5,17%.

Para piorar a situação,  de 1994 a junho de 1999, esta relação negativa não foi identificada entre inflação e desemprego. Foi apresentada uma relação positiva entre as variáveis. Nem sempre quando a inflação aumentava, significava que o desemprego havia diminuído.

Se observarmos a historia econômica do Brasil, é fácil ver uma tendência de alta inflação, onde mesmo com politicas de estabilização da mesma, ela permanecia alta.

Ela foi melhor controlada apenas em 1994 com o Plano Real.

Portanto, apesar da Curva de Phillips ser indispensável na análise da conjuntura de um país e na  tomada de decisões sobre o que fazer com certas variáveis, cada país deve ter um certo cuidado na estimação de sua curva, e ter sempre em mente que, não é apenas o desemprego que influência a inflação e vice e versa. Existem  outros fatores próprios de cada país, como políticas monetárias e políticas de estabilização de preços, dentre outras, que podem ter enorme influência sobre esta relação, devendo também ser levadas em consideração no trade-off entre inflação e desemprego.

Lembrando que a análise da Curva de Phillips feita aqui foi baseada em livros-texto de graduação. Para uma abordagem mais avançada, ver, por exemplo, o texto “A Curva de Phillips e a Experiência Brasileira” de Adolfo Sachsida, Marcio Ribeiro e Claudio Hamilton dos Santos .

BrazilPhillipsCircuit[3]

Curva de Phillips para o Brasil, segundo Carlos M. Pelaez (idos dos anos 80) Mais detalhes sobre o autor? http://cmpassocregulationblog.blogspot.com.br

4 respostas em “Embora muito útil, Curva de Phillips apresenta limitações

    • Pedro , pode deixar que vou ler estes materiais que você mandou , tenho certeza que vai ser muito útil . Estou aprendendo muito com o Nepom !

  1. Com as crises do petróleo, tivemos a volta da crítica de Friedman e Phelps, mas dessa vez colocando em cheque o trade-off no curto prazo. Excelente texto e, como citado nele, a curva, apesar de limitada, é de suma importância para análises.

  2. Gustavo, li realmente várias coisas sobre a influencia do choque de petróleo por volta de 1970. Surgiu então uma das teorias de Friedman, onde “Uma política econômica buscando o pleno emprego, com uma maior oferta de moeda, realmente poderia aumentar a renda nominal (o nível de preços e/ou a produção) no curto prazo. No entanto, se esta política exceder as necessidades monetárias da taxa de crescimento da renda real de equilíbrio de longo prazo, a inflação eliminará qualquer estímulo adicional à produção.”

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