Pão com linguiça: quando é mais barato?

Talvez você não ache que seja diet. Talvez não ache que seja tão bom. Ok, mas meu ponto central aqui é outro. Vamos pensar um pouco sobre este maravilhoso quitute da culinária brasileira. Particularmente, eu odeio molhos e prefiro o pão com linguiça simples, ou seja, com pão e linguiça. Então, vamos ver como se comportam os preços do pão e da linguiça que você pode comprar para fazer seu delicioso jantar!

Detalhes importantes!

Primeiro, não temos dados de pães com linguiça demandados, ofertados ou mesmo de equilíbrio. Então, no caso, vou fazer o melhor que posso observando, inicialmente, os preços destes bens. Na verdade, os índices de preços porque também não temos os preços em reais destes bens por motivos óbvios.

Assim, fui (virtualmente) ao IBGE (sugiro que você faça o mesmo exercício) e busquei o IPCA. Você descobrirá que o índice passou por várias mudanças. Assim, mesmo que você queira saber a variação percentual mensal, tem que ter mente que há sub-períodos caracterizados por alterações aqui e acolá na metodologia. Em resumo, são os seguintes: Jul/89 – Dez/90, Jan/91 – Jul/99, Ago/99 – Jun/06, Jul/06 – Dez/11 e, finalmente, Jan/12 em diante. Simples assim. Não vou entrar estas mudanças em detalhes. Fica como dever de casa. Afinal, um leitor deste blog médio tem obrigação de se esforçar para aprender a procurar dados e analisá-los. No free lunch, pal!

Agora veja, lá no IBGE, na página indicada, eu busquei os sub-componentes do índice. Separei dois sub-índices de preços: o da linguiça e o do pão francês. Minha idéia é que você mesmo pode fazer este maravilhoso prato em casa. Não, não busquei óleo, panela, etc. Bom, vamos começar a falar do tema.

Primeiramente, eu peguei uma amostra menor, que se inicia em 1995 (meus dados cobrem a extensão: 1989.7 – 2014.1, ok?). O que você tem aí embaixo é a variação do IPCA em cada caso. Olhe com atenção para estes gráficos.

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Obviamente, eu espero que produtos individuais variem mais do que a média de uma cesta de produtos e é por isso que sua mãe (não, não estou te xingando) tem a impressão de que a inflação é sempre maior do que a que o governo anuncia. Mas, vamos ser justos, cada produto tem um preço distinto, derivado de um mercado distinto. Logo, as oscilações não são sempre iguais às da média de todos os preços de uma cesta. Ah, é. Antes que eu me esqueça, o IPCA é um índice de Laspeyres, tá?

Bom, observe que as oscilações dos dois índices são parecidas, embora não idênticas. Será que isto se deve a mercados parecidos? Acho difícil alguém me dizer que o processo de produção de pães é similar ao de linguiças. Então, não, não se deve mesmo esperar um comportamento tão similar. Será que existe correlação? Será que faria sentido teórico esperar uma correlação entre estes dois preços? Isto fica para depois. Prossigamos!

Quero fazer um pão com linguiça e gastar pouco? Dá uma dica aí, véi(o)?

Repare que estas duas séries de tempo se prestam a muitos testes. Por exemplo: alguém poderia querer verificar se média da inflação do pão francês é a mesma em sub-períodos da amostra. Outra idéia é ver se a variância da série muda ao longo dos anos. Claro, você pode fazer um monte de exercícios estatísticos só pensando neste parágrafo.

Mas eu quero fazer, aqui, um exercício diferente. Eu quero ver se existe um fator específico e mais ou menos determinado ao longo do ano. Quero saber se há sazonalidade em cada uma das séries. Pense assim: digamos que a linguiça segue uma espécie de ciclo ligado ao processo de criação do porco. É, parece que os estudos corroboram a existência de ciclos na criação dos porquinhos (mais didaticamente aqui). Aliás, este pessoal explicou bem o ciclo. Veja:

In the Hog Cycle, pig farmers observe rising prices for pork products, and they decide to increase production of hogs in order to take advantage of those higher prices. The problem is that there is an inherent lag time between that decision and the effects of the increase in output. The lag time is related to the gestation period for piglets, and the time it takes for the piglets to mature into harvestable hogs. By the time all of the pig farmers start bringing pigs to market, there is a surplus which causes pork product prices to fall. That drop in prices causes other pig farmers to scale back production, since they know that they cannot make money raising more pigs at the depressed prices, and that creates a shortage of port products, thereby bringing an incentive for increased production…. And on it goes over and over again. Pigs have been raised as an agricultural product for centuries, and so anyone who is involved in that industry has no excuse for not being aware of its existence.

Gostou? Pois é. Então, além da relação entre demanda de linguiça, seu preço e o preço do pãozinho, existe um motivo tecnológico (do lado da oferta), no mercado de porcos que pode gerar ciclos em seu preço. Reescrevo para você: independentemente dos pães, preços de linguiças oscilam por motivos próprios (alguém dirá: idiossincráticos…).

Por que isto é importante? Ora, a teoria que aprendemos em sala nos permite dizer que um bom teste empírico para a demanda de pães e linguiça passa pela mensuração do impacto de uma mudança no preço de um sobre a demanda de outro. Mas se existe este ciclo que se repete com certa periodicidade mensal ou trimestral (portanto, sazonal), então temos que ter cuidado antes de sair fazendo econometria aqui e ali. Como alguém pode distinguir o impacto de uma mudança do preço sobre a quantidade demandada se o próprio preço oscila por outros motivos? Pronto, acho que você já entendeu um pouco a função de se dessazonalizar dados em uma apresentação, digamos, de análise de conjuntura (agora você entendeu porque estou falando de sanduíches no blog do Nepom, não é?).

E a dica?

Vamos pensar de forma simples na sazonalidade. Digamos que ela causa, principalmente, mudanças na média do preço, não em sua variância, por exemplo. Sejamos mais generosos e passemos também a supor que o pãozinho também pode ter ciclos devido a algum motivo (ou a alguns motivos) similar(es) aos do ciclo dos três porquinhos aí.

Bom, sendo assim, eis minha dica.

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Observe atentamente os gráficos. Eu renomeei as séries, mas são as mesmas. Por exemplo, no gráfico imediatamente acima, “linguica1″é a variação mensal percentual do IPCA da linguiça. Repare no eixo horizontal. Temos os doze meses do ano. Assim, este gráfico mostra os valores da variação mensal empilhados de uma forma diferente: em ordem cronológica para cada mês.

Agora, se existe sazonalidade na média, esperamos que as médias mensais não sejam iguais. Bom, olhe os dois gráficos. Acho que com um intervalo de confiança razoável, podemos dizer isto, não? Quanto à dica, a menor variação no preço do pão parece ocorrer, em média, em Dezembro (quando consideramos a amostra 1995: 2013). Quando observamos o preço da linguiça, a menor média ocorre em Março.

Bom, imaginando que a linguiça tenha uma validade maior do que a do pão (na melhor das hipóteses você terá que fazer uma rabanada…), acho que o negócio é comer um pão com linguiça ali em Março. Ops, não é que estamos quase em Março?

Tá, mas…

É, eu sei. Chamo sua atenção para o fato de que não testei hipótese alguma aqui. Também chamo sua atenção para o fato de que tomei uma amostra deliberadamente extensa e alguém poderia me dizer que tem bons motivos (mas eu não consigo nem imaginar um bom motivo aqui, dado que não sou especialista em nenhum destes mercados) para dizer, por exemplo, que com a introdução do Sistema de Metas de Inflação, os ciclos dos preços destes produtos poderia ter sofrido modificações importantes. Pode ser e o espaço dos comentários fica aberto para que dicas, sugestões, críticas, etc.

Acabou?

Depende da oferta e da demanda. Meu humor pode mudar e eu posso desistir de continuar falando do tema. Minha idéia inicial é continuar com estas duas séries discutindo economia aplicada. Mas também vou olhar a demanda. Caso não haja muito interesse, provavelmente vou abandonar o tema. Como eu me conheço bem, é necessário que haja uma ajuda exógena para que eu não mude de tema. Outra coisa importante: pretendo usar este tema, também, para ilustrar o uso do pacote estatístico R. Possivelmente é o que farei com mais detalhes numa possível sequência desta conversa sobre pão com linguiça. Quer mais? Deixe um comentário!

p.s. Dica do R: monthplot.

 

3 respostas em “Pão com linguiça: quando é mais barato?

  1. Pingback: Pão com linguiça no Nepom | De Gustibus Non Est Disputandum

  2. Pingback: R para curiosos (alguns posts didáticos sobre R aqui e no Nepom) | De Gustibus Non Est Disputandum

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