Crédito, o queridinho do Brasil

O setor de crédito é fundamental para a economia e, sendo gerido com responsabilidade, pode gerar crescimento e desenvolvimento, por um simples motivo: se há crédito, há consumo. Há várias formas de dividir os agentes econômicos com o fim de descrever a relação entre eles, como: firma, consumidor, governo etc. Dentre diversas opções e combinações, em nossa análise os dividiremos em dois grandes grupos: superavitários e deficitários.

Sendo você o representante de uma família, na figura do detentor da renda e responsável pela sua alocação, assim o fará de forma a maximizar o bem estar dos indivíduos que dependem deste recurso. Este recurso pode ser direcionado para uma poupança, para o consumo, para uma aplicação financeira variável etc. O que se espera é que você, como agente racional, faça “alguma coisa”, e isso por um motivo simples: inflação e a taxa de juros fazem com que incorra um custo sobre o dinheiro que está “parado”.

A inflação corrói o poder de compra do dinheiro e a taxa de juros é o seu custo de oportunidade: o quanto você poderia ganhar caso esse dinheiro tivesse sido aplicado em um fundo de renda fixa, que seja, remunerado por uma taxa de juros qualquer. Logo, os agentes econômicos, sendo racionais, tendo recursos disponíveis e com a opção de transforma-los em ativos econômicos remuneráveis, não irão colocar o dinheiro embaixo do colchão. Eles irão ao banco e fazer uma aplicação seja em títulos públicos, CDB’s, poupança etc.

Da mesma forma que existem agentes que alocam seus recursos em aplicações, existem também agentes que demandam esses recursos, seja para o financiamento de um imóvel, de um carro ou para o pagamento de algumas dividas que precisam ser amortizadas em um curto espaço de tempo. Estes vão a uma instituição financeira e fazem um empréstimo.

Dentro de toda essa narrativa, o banco, além de desempenhar outras inúmeras funções na economia, nada mais é do que um intermediador entre os agentes superavitários e deficitários. Como intermediador o banco torna-se capaz de criar moeda escritural através de um processo dinâmico de empréstimos e aplicações. Através de um efeito multiplicador, a instituição financeira é capaz de transformar a aplicação feita pelo primeiro agente em diversos outros empréstimos e aplicações. Abaixo, segue um exemplo de como isso ocorre:

EFEITO MULTIPLICADOR NOVO DEPÓSITO COMPULSÓRIO NOVO EMPRÉSTIMO
DEPÓSITO INICIAL

100

10

90

DEPÓSITO 1

90

9

81

DEPÓSITO 2

81

8,1

72,9

DEPÓSITO 3

72,9

7,29

65,61

DEPÓSITO 4

65,61

6,561

59,049

DEPÓSITO 5

59,049

5,9049

53,1441

EFEITO TOTAL

1000

100

900

Em toda a aplicação financeira, por legislação o banco é obrigado e reter uma quantidade determinada pelo Banco Central. No nosso exemplo, essa quantidade representa 10% da quantia aplicada. Como pode ser visto acima, 10% ficam retidos e os outros 90% são emprestados via depósitos em conta, o que acaba realimentado o processo. O ciclo se encerra quando a parte compulsória se iguala ao depósito inicial.

Dada essa explicação, agora podemos falar um pouco sobre o crédito no Brasil e qual tem sido o seu impacto na economia. Desde muito tempo o Governo e a base aliada têm se valido do argumento de que, “graças às medidas econômicas do governo Lula, hoje o pobre pode ter isso, pode ter aquilo”, mas pouco se fala em que, apesar de poder ter um monte de coisa, o pobre continua pobre. Muitos saíram da pobreza extrema através dos programas de transferência de renda, mas não são destes pobres que estou falando. Estou falando do pobre “classe média baixa”. Ele tem uma TV legal, financiou o carro em 72 vezes etc. Mas no tocante ao aumento de sua produtividade como trabalhador, melhoria do capital humano, as coisas não foram assim. Dentro da teoria econômica, salário é função da produtividade do trabalhador, porém o que vemos hoje são trabalhadores pouco produtivos, com um grande poder de compra e bem endividados e é ai que o vilão herói do povo, crédito, entra.

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Nas aulas de introdução a microeconomia, aprendemos uma lei muito simples, mas que rege todo o funcionamento dos mercados e consequentemente a economia como um todo. Esta é a “lei de oferta e demanda”.  No “mundo perfeito”, o ideal é que os agentes econômicos, ofertantes e demandantes, se entendam da forma que for melhor para eles e que no final um equilíbrio entre as partes seja estabelecido, criando preço e definindo a quantidade transacionada do bem ou serviço em questão. Mas, sabemos que existem distorções e que, às vezes por uma questão de informação ou intervenção estatal esse equilíbrio não se dá de maneira perfeita, o que não é argumento para que o Governo interfira nos mercados na tentativa de se valer os seus interesses políticos “forçar” esse equilíbrio.

Onde se pretende chegar com tudo isso? Vamos lá! Existe um órgão, dentro do Banco Central do Brasil, que se chama COPOM. Esse órgão se reúne periodicamente para definir qual será a taxa de juros básica da economia, a taxa SELIC. Todas as outras taxas juros da economia se ajustam a partir da SELIC. Se o COPOM decide aumentar a taxa de juros, todos os outros bancos tendem a fazer o mesmo com suas taxas, de maneira análoga, se o COPOM decide reduzir a taxa de juros, assim fará os outros bancos em relação as suas respectivas taxas.

O Banco Central é, pelo menos em teoria, um órgão independente do Governo Federal, sendo assim o COPOM tem autonomia para decidir qual será a taxa SELIC, porém, na pratica as coisas não funcionam muito dessa forma. Em meados de 2011 e 2012 o Banco Central sofreu forte pressão por parte do Governo Federal, via imprensa (até onde se sabe), para que a taxa de juros fosse reduzida. Segundo o Governo Federal, a alta taxa de juros dificultava a vida dos investidores e consumidores. Se o BACEN cedeu ou não à chantagem emocional pressão do Governo, o fato é que reunião após reunião, a taxa de juros foi caindo e caindo. Até que na reunião do dia 10/10/2012 a SELIC registrou a sua maior baixa desde 1997, chegando a 7,25% e assim se manteve até a reunião do dia 17/04/2013.

Com a taxa de juros em patamares relativamente baixos, esperava-se um aumento no investimento e no consumo, dado que ambos são funções da taxa de juros, inversamente proporcionais (espera-se: diminuição da taxa de juros, aumento em investimento e consumo). Porque o Governo queria isso? Simples, olhando para o modelo Keynesiano de demanda agregada para uma economia fechada, vemos que Y=C+I+G, sendo Y o produto, C o consumo e G os gastos do governo (sem entrar nos deméritos do modelo, a ideia é pensar de maneira tautológica). A ideia é a seguinte: mais investimento e mais consumo é igual a mais produto. Porém, se olharmos para os dados, não foi bem isso que aconteceu, a bola de cristal do Mantega estragou.

Segue abaixo um gráfico com dados da taxa de investimento anual entre os períodos de 1990 e 2012.

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Se repararmos bem, o índice manteve uma variação aparentemente constante, que gira em torno de uma média de 17,56957 (índice).  Tendo posse dessa informação, podemos chegar a uma conclusão: o investimento no Brasil não respondeu às variações na taxa de juros. É como se, em um modelo IS-LM a curva IS para o Brasil fosse inclinada de forma que perturbações na taxa de juros surtissem pouco efeito sobre o produto, via investimento.

Sabemos que taxa de juros é somente uma das variáveis que influenciam o investimento: legislação, câmbio e outras inúmeras variáveis também o influenciam, porém, como estamos interessando em analisar o crédito, iremos nos ater somente aos efeitos da taxa de juros.

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Enfim, o investimento não respondeu, mas e o consumo? Este sim, respondeu. Com uma taxa de juros em patamares relativamente baixos, há maiores incentivos para ir ao banco pegar um empréstimo, com os juros menores, a divida no futuro tende a ser menor. Vale lembrar que a expansão do crédito não se deu somente através da queda da SELIC, Caixa Econômica Federal e Banco do Brasil reduziram bruscamente a taxa de juros do cheque especial, o que forçou todos os outros bancos a fazerem o mesmo. O Governo estava disposto a fazer as pessoas gastarem, se elas teriam condições de pagar não pareceu preocupar muito, desde que gastassem o que tivessem e o que não tivessem.

Investidores apáticos e consumidores ferozes, quais as consequências disso? Lembra-se da “lei de oferta e demanda”? Então, quando falamos sobre investimento estamos nos referimos à aquisição de maquinas e equipamentos, ou seja, aumento do estoque de capital, da capacidade produtiva da economia. Se pensarmos em um modelo que explica o crescimento do produto hoje, veremos algumas variáveis de investimento defasadas. Qual o significado disso? O efeito do investimento na economia não é imediato, demora um tempo para surtir efeito no produto. O tempo preciso é difícil afirmar, mas nada que um exercício de econometria não seja estatisticamente capaz de nos dizer.

Baixa aquisição de maquinas e equipamentos hoje implica em baixo crescimento amanhã, porém, como podemos reparar na série histórica da taxa de investimento, o índice é baixo há certo tempo, o que nos leva a um problema de baixo crescimento hoje. Se não existe capacidade produtiva para atender à crescente demanda impulsionada pelo crédito, existirá um problema de demanda maior do que oferta, ou seja, inflação.

A inflação apareceu, mesmo que “dentro da meta” (quase quebrando o teto da meta na base da paulada), ela aumentou. Poderia ter aumentado mais, mas o Governo usou seu mais forte cabo eleitoral chamado Petrobras congelou o preço da gasolina, reduziu alguns tributos aqui e ali (vamos pagar lá na frente, não se preocupe) e quase que em um golpe de misericórdia, conseguiu “controlar” a inflação.

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Vendo os efeitos da redução da taxa de juros, o COPOM resolveu voltar com ela para os patamares anteriores, na tentativa de conter o aumento dos preços. O crédito respondeu na hora. Segundo a Anefac, Associação Nacional dos Executivos em Finanças, Administração e Contabilidade, o juro ao consumidor teve o maior aumento desde setembro de 2012. As taxas médias de juros passaram de 5,60% ao mês em dezembro de 2013 (ou 92,29% ao ano) para 5,65% ao mês de janeiro (ou 93,39% ao ano). Mas ainda assim, o crédito tem sido o maior responsável pelo, ainda que baixo, crescimento da economia brasileira com avanço de 14,6% registrado no ano passado. Além disso, com a desvalorização do câmbio, dado os empréstimos que os bancos fizeram em moeda estrangeira, suas carteiras de crédito inflaram. Segunda a revista Valor Econômico, em reportagem divulgada no dia 10/02/2014, “balanços já divulgados por Itaú Unibanco, Bradesco e Santander Brasil mostram que a desvalorização de 12,8% do real frente ao dólar em 2013 inflou a carteira de crédito das três instituições financeiras em pelo menos R$21,7 bilhões no ano passado. Isso representa 18,4% dos R$117,9 bilhões de expansão que o saldo de empréstimo do trio teve de 2012 para 2013.

Aumento da taxa de juros para reduzir a inflação, aumento na carteira de crédito provocando inflação. BNDES não ficou atrás. Seus empréstimos aumentaram em 15,9% em 2013 e, como há de se esperar, o ultimo a ver esse dinheiro será o empreendedor que pretende abrir uma empresa, gerar renda e emprego. O negócio do BNDES é financiar divida de grandes empresas e não novos investimentos. Quem quiser abrir uma empresa hoje, além de lidar com todos os entraves burocráticos para se abrir uma empresa no Brasil, terá que buscar empréstimos a juros mais altos, em bancos privados.

Vale lembrar também: a inadimplência segue crescendo. Abaixo a série histórica do índice de inadimplência do SERASA.

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Bom, creio que fomos longe nesta modesta análise, espero ter sido claro nas explicações. Economia não é bola de cristal, mas com certo esforço conseguimos abstrair a realidade em alguns modelos, fazendo analises interessantes e de relevância para o agregado.

O verdadeiro objetivo de um governo é se manter no poder e, infelizmente, na maioria das vezes estes interesses não coincidem com o que é melhor a se fazer, na perspectiva do bem estar social, eficiência. A vantagem de lidar com os dados é que eles não mentem. Eu sou a favor de todos terem acesso a bens de consumo, desde que sejam remunerados por sua produtividade e não por manobras eleitorais do governo, essas que têm prejudicado a economia e prometem deixar heranças não muito interessantes (exercício de previsão simples fundamentado na teoria econômica e ratificado pelos dados).

Aumenta o crédito, aumenta a inflação, aumenta inadimplência, aumenta taxa de juros, depreciação do câmbio com projeções de desvalorização até 2015 etc. Resta-nos aguardar.

 

Uma resposta em “Crédito, o queridinho do Brasil

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