Classe média, alto luxo.

Um país com baixo nível educacional apresenta, certamente, uma elevada oferta de mão de obra desqualificada. Esse contingente de pessoas que não teve acesso à educação tem como opção prestar serviço doméstico, que é mal remunerado justamente pelo fato de haver muita gente disposta a vender sua força de trabalho e sem qualificação profissional.

Uma família típica da classe média, no Brasil, tem empregada doméstica, enquanto na maioria dos países europeus, nos EUA, ou mesmo na Argentina, isso é um luxo que se restringe às famílias de classe média alta. Há, entretanto, indícios de que o perfil do mercado de trabalho brasileiro se assemelha cada vez mais ao daquelas economias mais desenvolvidas.

Recentemente foi aprovada uma lei pelo Senado que garante que os empregados domésticos tenham os mesmo direitos que os demais trabalhadores, apontando como principais mudanças a jornada máxima de 8 horas diárias e 44 semanais, hora extra remunerada em 50% a mais e garantia de salário nunca inferior ao salário mínimo. Isso significa um incremento no custo de contratar uma empregada doméstica. Pode ser que haja, portanto, demissões de forma a gerar desemprego nessa classe de trabalhadores. Mas é preciso que a demissão seja preferível a ter que arcar com eventuais despesas adicionais ou mesmo com o custo de oportunidade ao fazer o serviço da própria casa.

Contudo, vale ressaltar que tem sido observado vastas modificações no mercado de trabalho dos empregados domésticos nos últimos anos. Os salários estão mais altos, o grau de escolaridade se elevou e a informalidade caiu. Com um perfil educacional melhor e com o aquecimento do mercado de trabalho que tem ocorrido atualmente, esse trabalhador se depara com maiores oportunidades de emprego em outros setores da economia, como comércio e serviços, que podem oferecer salários maiores além de uma perspectiva de carreira que o emprego doméstico não dá. Pode ser, então, que essas prováveis demissões decorrentes do aumento do custo desse serviço não resultem em um desemprego tão elevado, mas sim em uma migração desses trabalhadores para outras atividades, o que já vinha ocorrendo antes mesmo da aprovação dessa nova lei, dada a existência de oportunidades alternativas.

O nível educacional do Brasil se elevou e a oferta de mão de obra desqualificada, especialmente a oferta de empregados domésticos, tem diminuído. Isso implica em um aumento ainda maior no preço desse tipo de serviço, somado ao aumento do custo proporcionado pela aprovação da Proposta de Emenda à Constituição, a PEC das domésticas. O mercado de trabalho está sendo reestruturado e a classe média brasileira está a caminho de passar a considerar um luxo a contratação de uma empregada doméstica, assim como é nos países desenvolvidos. É provável que as próximas gerações de classe média não sejam mais tão “mal acostumadas”.

Uma resposta em “Classe média, alto luxo.

  1. Eu percebo que essa questão da migração de oferta de trabalho de empregados domésticos para outros setores, como serviços, possui um forte componente conjuntural. Afinal, a taxa de escolaridade não aumentou tanto assim – apenas em algumas faixas etárias. Acima de 40 anos, ela permanece estagnada.

    O que houve foi muito mais um crescimento do setor de serviços que é intensivo em mão de obra, daí qualquer curso profissionalizante que a pessoa faça já é suficiente para essa migração.

    Mas e se a economia continuar crescendo pouco, gerando impacto na taxa de desemprego, a PEC gerará efeitos perversos sobre o emprego nesse setor. Ou, claro, aumentará ainda mais a informalidade.

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