O Google Trends resiste à análise dos dados?

Um gráfico quase idêntico a este foi utilizado na última apresentação do Nepom; a diferença é que agora temos observações até o fim do mês de março/09.

Alguns dados sobre concessões de seguro-desemprego foram divulgados pelo Ministério do Trabalho na imprensa, esta quinta-feira:

Pedidos de seguro-desemprego no Brasil sobem 7,9% no primeiro trimestre” (em comparação com o mesmo período do ano de 2008)

“Queda na concessão de seguro-desemprego indica reativação da economia” (em comparação com o mês anterior)

“O seguro-desemprego contou em março com 585.255 requerimentos, contra 597.811 em fevereiro e 727.723 em janeiro.”

O que a confrontação do gráfico com estes dados pode nos dizer?

Aparentemente, a palavra-chave “seguro desemprego” foi uma boa variável proxy para as concessões do benefício social do governo. Veja que o Trends atingiu seu pico nos meses de janeiro e início de fevereiro. Ao longo do mês de fevereiro apresentou uma queda significativa e seguiu flutuando em torno de uma média relativamente estável até o fim do mês de março.

Da mesma forma se comportaram os dados oficiais: pico em janeiro, queda em fevereiro e relativa estabilidade em março.

No entanto, podemos observar que a magnitude da elevação em janeiro foi bem superior no Trends ao que foi efetivamente observado na realidade.

Isso pode ser explicado por fatores como, por exemplo, um grande número de trabalhadores que, com uma preocupação antecipada quanto à perda do emprego, recorreram ao Google para pesquisar quais seriam seus benefícios no caso de desemprego.

Uma outra explicação seria a concentração mais elevada de demissões num curto espaço de tempo, que pode ter congestionado a capacidade de atendimento dos sindicatos e órgãos governamentais, o que levou os trabalhadores a recorrerem em maior proporção à internet para buscar informações.

O fato é que não temos como comprovar nenhuma destas alegações. E não podemos saber qual foi a motivação de cada pesquisa, o que não ocorre com os dados oficiais. Se um trabalhador fez efetivamente o pedido de seguro-desemprego, é porque ficou desempregado e quer receber o benefício. Não podemos tomar, com segurança, a mesma conclusão de uma pesquisa sobre “seguro desemprego” no Google. Já nos deparamos, então, com um problema…

Uma avaliação análoga pode ser feita com base na palavra-chave “saque FGTS”:

Apesar das limitações que já enxergamos, o Google Trends promete ser uma poderosa ferramenta de análise econômica, principalmente pelo aspecto ressaltado por Varian, com relação à defasagem temporal: os dados do Trends são atualizados semanalmente!

É necessário, agora, estudarmos com cautela que grau de relação os resultados do Trends guardam com as variáveis econômicas reais. Com base neste tipo de análise, poderemos construir variáveis proxy e previsões superando o recorrente problema de defasagem temporal das séries estatísticas oficiais.

PS.: estamos à procura de estudos científicos já realizados sobre o assunto; se os leitores tiverem indicações, serão muito bem-vindas!

2 respostas em “O Google Trends resiste à análise dos dados?

  1. Pingback: Nepom e o Google Trends « A Outra Face da Moeda

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