Para entender a crise- pequeno guia para leitores deste blog

Desde a era do Padrão-Ouro até hoje, obviamente, muita coisa mudou. Uma delas, sem dúvida, é a velocidade na qual a informação circula. Informação é uma faca de dois gumes e, como veremos no resumo abaixo, ajuda a explicar a crise atual. Não é apenas pelo fato de a informação sobre as diversas investigações recentes sobre a dita crise circular rapidamente mas, também porque a informação está na origem da crise. Vamos em frente.

Primeiramente, a pergunta que todo leigo deseja responder é: “o que causou a crise”? Existem diversas variáveis importantes aqui. Vejamos alguns pontos importantes. Para Brunnermeier (2009) (um resumo do texto encontra-se aqui), as causas têm a ver com os empréstimos ruins dados pelos bancos, o fim do crédito quando estes empréstimos ajudaram a gerar a quebra do Lehman Brothers que, por sua vez, generalizou-se por toda a economia. 

O autor ainda aponta outros problemas: (a) a má regulação do sistema financeiro, (b) o processo de repasse das hipotecas ruins para outros investidores, (c) a prática de financiamento de ativos de longo prazo com empréstimos de curto prazo (algo que provavelmente tem a ver com a informação gerada em suas análises, como veremos abaixo).

Outro bom resumo sobre as causas da crise atual é o de White (2009). Essencialmente, ele nos ajuda a entender o que Brunnermeier (2009) chama de má regulação do sistema financeiro e ela está longe de ser uma falta de regulamentação. Pelo contrário, trata-se de uma intervenção consciente do governo no mercado imobiliário. Se houve liberalização, aponta White (2009), a mesma teria ajudado a conter os problemas atuais:

Na realidade, as regulamentações foram intensificadas nos anos 1990, alimentando o desenvolvimento da crise do mercado imobiliário, como discutiremos abaixo. O último movimento em direção à desregulamentação financeira foi a lei bipartidária da modernização dos serviços financeiros, de 1999, também conhecida como a Lei Gramm-Leach-Bliley, assinada pelo presidente Clinton. Ela abriu as portas para que as empresas financeiras pudessem se diversificar: uma holding que controlasse um banco comercial subsidiário poderia agora ter também seguros, fundos mútuos e bancos de investimentos subsidiários. Longe de contribuir com a desordem recente, a liberalização concedida através da lei foi claramente um ponto chave na sua contenção. Sem ela, o JPMorgan Chase não poderia ter adquirido o Bear Stearns, nem o Bank of America teria adquirido Merrill Lynch – aquisições que evitaram perdas para os acionistas de Bear e Merrill. Sem isso, Goldman Sachs e Morgan Stanley não poderiam ter mudado de especialidade e se tornadoholdings quando ficou evidente que não poderiam mais sobreviver como bancos de investimento.

Sobre a crise, vale a pena reproduzir todo o parágrafo:

Vamos recordar como a crise se desdobrou. Inicialmente, os problemas apareceram na forma de empréstimos imobiliários “exóticos” ou “flexíveis”. Credores “criativos” aumentaram o volume de empréstimos não-convencionais com alto risco de inadimplência (refletido nas taxas nonprime, com juros mais altos de empréstimos), que é o equivalente no mercado imobiliário às debêntures de alto risco. Os empréstimos não-convencionais ajudaram a alimentar o aumento nos preços de casas e condomínios. O preço das casas chegou ao seu limite e começou a cair. Mutuários com rendas desproporcionais em relação aos seus débitos, muitos dos quais imaginavam poder obter empréstimos no futuro, deixando como garantia uma casa de maior valor para conseguir pagar as parcelas mensais de seus financiamentos, ou que imaginavam poder se desfazer de suas propriedades por preços que pagariam facilmente seus débitos, passaram a se tornar inadimplentes. As taxas de inadimplência dos financiamentos nonprime atingiram altas inesperadas. O alto risco dos financiamentos voltou a atormentar os bancos credores, as instituições financeiras aos quais os pagamentos mensais deveriam ser feitos. As empresas detentoras dessas contas de financiamento viram seu fluxo de caixa ser reduzido. Além disso, as empresas detentoras de pacotes de financiamentos securitizáveis (geralmente chamados de “títulos hipotecários”) viram a expectativa dessa contínua redução no fluxo financeiro provocar uma queda no valor dos seus títulos no mercado. A incerteza sobre os fluxos financeiros futuros debilitou a liquidez – a facilidade de revenda – dos títulos.

Como é que credores “criativos” conseguiram aumentar os empréstimos “não-convencionais de alto risco”? Aqui o papel da informação é importante e tem a ver com o que Salmon (2009) chama de “compreensão incorreta” dos banqueiros em relação a uma fórmula desenvolvida por David Li. É verdade, como diz White, que não se pode culpar a ganância dos banqueiros por mais dinheiro no sentido de que não houve nenhum atípico aumento de ganância (ele a chama de “incomum epidemia de crueldade”), mas é fato que sua ganância parece não ter sido cautelosa o suficiente para se prevenir contra o mau uso de um resultado acadêmico: a tal fórmula da “cópula gaussiana”. Nas palavras de Salmon (2009):

Bankers should have noted that very small changes in their underlying assumptions could result in very large changes in the correlation number. They also should have noticed that the results they were seeing were much less volatile than they should have been—which implied that the risk was being moved elsewhere. Where had the risk gone?

They didn’t know, or didn’t ask. One reason was that the outputs came from “black box” computer models and were hard to subject to a commonsense smell test. Another was that the quants, who should have been more aware of the copula’s weaknesses, weren’t the ones making the big asset-allocation decisions. Their managers, who made the actual calls, lacked the math skills to understand what the models were doing or how they worked. They could, however, understand something as simple as a single correlation number. That was the problem.

“The relationship between two assets can never be captured by a single scalar quantity,” Wilmott says. For instance, consider the share prices of two sneaker manufacturers: When the market for sneakers is growing, both companies do well and the correlation between them is high. But when one company gets a lot of celebrity endorsements and starts stealing market share from the other, the stock prices diverge and the correlation between them turns negative. And when the nation morphs into a land of flip-flop-wearing couch potatoes, both companies decline and the correlation becomes positive again. It’s impossible to sum up such a history in one correlation number, but CDOs were invariably sold on the premise that correlation was more of a constant than a variable.

Obviamente, um resultado acadêmico pode – e deve – ser usado pelo mercado, até para que se teste sua eficácia. Anos e anos de estudos científicos costumam ser um bom laboratório para se evitar problemas mas se alguém resolver pular esta etapa, eis que problemas surgem.

A velocidade com a qual a fórmula de Li foi disseminada parece ser um fator importante para se entender a crise (veja também esta observação mais técnica do prof. Laurini). 

Mas há mais. Segundo White (2009), a crise também foi potencializada por uma política monetária frouxa do FED que teria incentivado o boom do setor imobiliário norte-americano. Esta explicação é compartilhada por John Taylor – que pode ser considerado o pai da política monetária moderna – em Taylor (2009). No mesmo texto, o autor levanta outra hipótese importante a ser investigada: o quanto o comportamento mimetizador de outros bancos centrais (em relação às taxas de juros baixas dos EUA) ajudou a disseminar a recessão norte-americana pelo mundo? Esta é uma pergunta interessante, mas sem uma resposta convincente até agora (mesmo porque este não é o único canal de transmissão dos impactos de uma política monetária, diz minha intuição).

Finalmente, outro ponto sobre a velocidade da informação. Não é apenas a fórmula de Li que ilustra as consequências da velocidade da informação na era da internet. No passado, a análise de crises econômicas levava muito mais tempo do que hoje. Vários dos textos citados acima – e nos citados na bibliografia dos mesmos – são recentes. A análise dos dados é muito mais ágil hoje. Se um pesquisador pretender entender a crise de 2008, ele pode fazê-lo com relativa facilidade em pouco tempo. Com um bom marco teórico fica fácil escolher as variáveis certas e verificar as relações teóricas relevantes em uma análise que ultrapassa de longe os discursos vazios de supostos analistas econômicos. Se seu treino quantitativo for de boa qualidade, melhor ainda.

Se o Brasil escapa da crise? Bem, leitor, um país como o nosso poderia escapar se as políticas fiscal e monetária caminhassem bem. Entretanto, há controvérsias sobre se isto ocorre como reza a cartilha dos discursos oficiais. Fica para outra vez uma análise mais detalhada de nosso caso.

Bem, este pequeno guia é incompleto. Deixei de lado vários outros bons textos porque o tempo é escasso e qualquer leitor de blog sabe que não se produz uma análise científica de alta qualidade em um post de blog ou numa mensagem para um grupo de discussão no Orkut ou onde quer que seja. 

Se lhe foi de valia, ou se tem sugestões, por favor, use o espaço de comentários.

UPDATE: leia também este pequeno texto do prof. Laurini.

2 respostas em “Para entender a crise- pequeno guia para leitores deste blog

  1. Pingback: Crise « De Gustibus Non Est Disputandum

  2. Será que a solução passa por um estatização (a famigerada socialização)? Tenho medo dessa idéia, pois não creio que possa o governo gerir o sistema financeiro sem critérios políticos. Noutras palavras, pode ocorrer um protecionismo financeiro, um clientelismo bancário.
    Mas tudo indica que uma estatização de alguns bancos é inevitável, o que você acha?

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