O famoso – e pouco estudado – passthrough

Vitor Wilher tem uma análise da ata do Copom, aqui. Ele mostra que a discussão sobre a transmissão de alterações do câmbio para a inflação – o chamado “passthrough” – continua sendo um tema polêmico entre os analistas. Creio que alguns dos membros do NEPOM poderiam tentar umas estimativas.

Vamos complementar Wilher com um pouco da literatura científica sobre o tema. Vejamos trechos de artigo dos profs. Tejada e Silva (Tejada & Silva, 2008). Primeiro, sua resenha sobre estudos brasileiros:

Existe relativamente pouco trabalho empírico sobre o Brasil, no caso do pass-through das mudanças da taxa de câmbio para os preços das exportações. Os principais trabalhos são os de Ferreira e Sanso (1999), Kannebley (2000) e Ferreira (2000).

Ferreira e Sanso (1999) analisaram o pass-through da taxa de câmbio para as exportações brasileiras de produtos manufaturados, no período 1978:3 a1996:4. As estimativas do coeficiente do pass-through, derivadas usando testes de co-integração baseados nos procedimentos de Engle-Granger, Shin e Johansen, e diferentes especificações do modelo, ficam num intervalo relativamente estreito de 10% a 27%.

Kannebley (2000) realizou um estudo sobre o pass-through da taxa de câmbio para as exportações brasileiras no período 1984 a 1997. Para tanto, usou uma análise de séries de tempo combinada à estimação de modelos lineares seguindo uma metodologia de modelagem econométrica geral-to-specific. Seus resultados apontam para a existência de um grau de pass-through nulo ou incompleto para os nove setores analisados (Extrativa Mineral; Siderurgia; Metais não-ferrosos; Máquinas e Tratores; Veículos Automotores; Peças e outros Veículos; Madeira e Mobiliário; Celulose, Papel e Gráfica e Óleos Vegetais).

Ferreira (2000), usando a equação (10) e a análise de co-integração, estimou um coeficiente de pass-through relativamente baixo, f2 = 0,27, isto é, 27%. Isso reflete o fato de que países como o Brasil têm pouco controle sobre os preços pelos quais efetuam vendas nos mercados externos. A implicação é que mudanças na taxa de câmbio podem ter pouca relevância na determinação dos preços de suas exportações naqueles mercados, isto é, o coeficiente de pass-through pode ser próximo a 0. Também implica que a desvalorização da taxa de câmbio tenha efeito limitado sobre a demanda de exportações.

Em outras palavras, o que este excelente artigo diz é: há espaço para a pesquisa e muito do que se fala por aí na imprensa tem que ser qualificado com muita cautela. Vejamos os resultados dos próprios autores:

O objetivo deste artigo é [sic] analisar os determinantes do pass-through das variações da taxa de câmbio para os preços dos principais produtos exportados pelo Brasil. Foram escolhidos para análise os seguintes setores: Peças e outros Veículos; Siderurgia; Extrativa Mineral; Máquinas e Tratores; Veículos Automotores; Óleos Vegetais; Refino de Petróleo, Madeira e Mobiliário; Beneficiamento de Produtos Vegetais; Metalurgia de Não-ferrosos; Celulose Papel e Gráfica; Material Elétrico; Elementos Químicos e Equipamentos Eletrônicos. Esses setores juntos foram responsáveis por aproximadamente 65,86% das exportações totais brasileiras, no ano 2004. Adicionalmente, para propósitos de comparação, analisaram-se também as Exportações Totais.

Mostrou-se que coeficientes estimados de forma variável no tempo de pass-through da taxa de câmbio para os preços das exportações dos setores analisados, em todos os casos, apresentaram sinal negativo ao longo de todo o período pesquisado – como era esperado teoricamente.

Observou-se também que os coeficientes estimados são relativamente baixos. Em média, para todos os setores, o menor coeficiente médio obtido foi de -0,14 e o máximo foi de -0,34. Esses baixos coeficientes de pass-through fazem com que as desvalorizações da taxa de câmbio não se traduzam em ganhos significativos de competitividade, tendo em vista que não reduzem significativamente os preços das exportações em dólares. Isso, porém, não implica necessariamente aumentos das margens de lucros dos exportadores, já que, se levarmos em consideração os insumos importados, essas margens podem até decrescer.

Wilher tem razão em apontar a importância do passthrough. Tejada & Silva (2008 ) são esclarecedores: precisamos estudar melhor o tema. Com a crise, obviamente, as estimativas podem ficar mais complicadas. De qualquer jeito, fica aqui a dica de leitura para você.

p.s. confira o calendário de reuniões do NEPOM para o primeiro semestre na coluna lateral à sua direita.

5 respostas em “O famoso – e pouco estudado – passthrough

  1. As citações são interessantes…

    Desde o início da desvalorização cambial no ano passado tenho lido artigos sobre a relação direta entre a mesma e a existência de pressões inflacionárias… Mas, como mostrou o IGP, houve variáveis contrabalanceadoras…

    Sds,
    Vítor Wilher

    ps: depois, se for possível, reescreva meu nome, pois está com dois LL, é Wilher, com um L só…

  2. Devagar, devagar, devagar… Não confunda “obra do mestre Picasso” com o impublicável. Se eu entedi direito o que os autores querem estimar, o objetivo é verificar se existem desvios da lei do preço único (isto é, se os preços de produtos exportados são diferentes dos preços destes produtos dentro do país). Isto não tem nada a ver com o passthrough da forma como se entende em política monetária (a transmissão dos choques do câmbio para os preços domésticos).

    Sobre este último tópico, a propósito, o BC tem uma série de estimativas, e minha especialista no tema diz que o assunto, ao contrário de controverso, é até muito chato, já que, independentemente do método, os valores do passthrough são praticamente iguais.

    Abraços!

  3. Do texto: “Na literatura econômica, a expressão exchange rate pass-through é geralmente usada para referir-se aos efeitos das mudanças das taxas de câmbio sobre um dos seguintes itens: (1) preços aos consumidores; (2) investimentos; (3) volumes de comércio e (4) preços das importações e das exportações. Como assinalado na introdução, o foco de estudo do artigo é o tópico (4) e, mais especificamente, o pass-through das variações da taxa de câmbio para os preços das exportações.”

    Agora, daí a dizer, como está no post, que “a discussão sobre a transmissão de alterações do câmbio para a inflação – o chamado “passthrough” – continua sendo um tema polêmico entre os analistas”, é desconsiderar a montanha de estudos existentes no primeiro conceito citado pelos autores (a transmissão para os IPC’s), e, como relatei, com resultados muito parecidos, independente do método empregado.

    De fato, eu acho que chamar de passthrough o que eles chamam é um “erro de rótulo”, já que, de acordo com as equações que eles derivam, o que se estima é o desvio da “Lei do Preço Único”. A literatura tem consagrado o termo passthrough como o primeiro caso listado pelos autores, e muito pouco a respeito dos outros três.

    • Puxao de orelha de qualidade. Registrado. Espero que o pessoal do NEPOM no sub-grupo do passthrough continue com as pesquisas, claro. Precisamos de alguma econometria aqui, nesta área.

      Valeu, Angelo!

Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s