Sub-grupo do Nepom: Mercado Financeiro e Spread

O Nepom formará nos próximos dias um sub-grupo de até 3 analistas (eu e mais dois, ainda não definidos) para estudar o Mercado Financeiro e Spread no Brasil. Um outro grupo está sendo formado e será anunciado em breve também.

Publiquei uma prévia do que esse grupo fará num post em meu blog pessoal: “Análise: Spread e Selic”.

Nesse novo grupo do Nepom, que irei coordenar, estou pensando em usar testes de causalidade de Granger e Mecanismo de Correção de Erros, não só para analisar a relação da Selic, mas também de outros fatores, na formação do spread bancário.

Os leitores economistas têm sugestões de leituras e de métodos de avaliação de causalidade para me ajudar?

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O famoso – e pouco estudado – passthrough

Vitor Wilher tem uma análise da ata do Copom, aqui. Ele mostra que a discussão sobre a transmissão de alterações do câmbio para a inflação – o chamado “passthrough” – continua sendo um tema polêmico entre os analistas. Creio que alguns dos membros do NEPOM poderiam tentar umas estimativas.

Vamos complementar Wilher com um pouco da literatura científica sobre o tema. Vejamos trechos de artigo dos profs. Tejada e Silva (Tejada & Silva, 2008). Primeiro, sua resenha sobre estudos brasileiros:

Existe relativamente pouco trabalho empírico sobre o Brasil, no caso do pass-through das mudanças da taxa de câmbio para os preços das exportações. Os principais trabalhos são os de Ferreira e Sanso (1999), Kannebley (2000) e Ferreira (2000).

Ferreira e Sanso (1999) analisaram o pass-through da taxa de câmbio para as exportações brasileiras de produtos manufaturados, no período 1978:3 a1996:4. As estimativas do coeficiente do pass-through, derivadas usando testes de co-integração baseados nos procedimentos de Engle-Granger, Shin e Johansen, e diferentes especificações do modelo, ficam num intervalo relativamente estreito de 10% a 27%.

Kannebley (2000) realizou um estudo sobre o pass-through da taxa de câmbio para as exportações brasileiras no período 1984 a 1997. Para tanto, usou uma análise de séries de tempo combinada à estimação de modelos lineares seguindo uma metodologia de modelagem econométrica geral-to-specific. Seus resultados apontam para a existência de um grau de pass-through nulo ou incompleto para os nove setores analisados (Extrativa Mineral; Siderurgia; Metais não-ferrosos; Máquinas e Tratores; Veículos Automotores; Peças e outros Veículos; Madeira e Mobiliário; Celulose, Papel e Gráfica e Óleos Vegetais).

Ferreira (2000), usando a equação (10) e a análise de co-integração, estimou um coeficiente de pass-through relativamente baixo, f2 = 0,27, isto é, 27%. Isso reflete o fato de que países como o Brasil têm pouco controle sobre os preços pelos quais efetuam vendas nos mercados externos. A implicação é que mudanças na taxa de câmbio podem ter pouca relevância na determinação dos preços de suas exportações naqueles mercados, isto é, o coeficiente de pass-through pode ser próximo a 0. Também implica que a desvalorização da taxa de câmbio tenha efeito limitado sobre a demanda de exportações.

Em outras palavras, o que este excelente artigo diz é: há espaço para a pesquisa e muito do que se fala por aí na imprensa tem que ser qualificado com muita cautela. Vejamos os resultados dos próprios autores:

O objetivo deste artigo é [sic] analisar os determinantes do pass-through das variações da taxa de câmbio para os preços dos principais produtos exportados pelo Brasil. Foram escolhidos para análise os seguintes setores: Peças e outros Veículos; Siderurgia; Extrativa Mineral; Máquinas e Tratores; Veículos Automotores; Óleos Vegetais; Refino de Petróleo, Madeira e Mobiliário; Beneficiamento de Produtos Vegetais; Metalurgia de Não-ferrosos; Celulose Papel e Gráfica; Material Elétrico; Elementos Químicos e Equipamentos Eletrônicos. Esses setores juntos foram responsáveis por aproximadamente 65,86% das exportações totais brasileiras, no ano 2004. Adicionalmente, para propósitos de comparação, analisaram-se também as Exportações Totais.

Mostrou-se que coeficientes estimados de forma variável no tempo de pass-through da taxa de câmbio para os preços das exportações dos setores analisados, em todos os casos, apresentaram sinal negativo ao longo de todo o período pesquisado – como era esperado teoricamente.

Observou-se também que os coeficientes estimados são relativamente baixos. Em média, para todos os setores, o menor coeficiente médio obtido foi de -0,14 e o máximo foi de -0,34. Esses baixos coeficientes de pass-through fazem com que as desvalorizações da taxa de câmbio não se traduzam em ganhos significativos de competitividade, tendo em vista que não reduzem significativamente os preços das exportações em dólares. Isso, porém, não implica necessariamente aumentos das margens de lucros dos exportadores, já que, se levarmos em consideração os insumos importados, essas margens podem até decrescer.

Wilher tem razão em apontar a importância do passthrough. Tejada & Silva (2008 ) são esclarecedores: precisamos estudar melhor o tema. Com a crise, obviamente, as estimativas podem ficar mais complicadas. De qualquer jeito, fica aqui a dica de leitura para você.

p.s. confira o calendário de reuniões do NEPOM para o primeiro semestre na coluna lateral à sua direita.

Análise descritiva dos dados

Edimeire tem feito um bom trabalho sobre séries de tempo relacionadas às decisões do Copom. Confira, por exemplo, isto aqui.

A fantasia desfeita

Reproduzo abaixo trecho de esclarecedora entrevista do presidente do Banco Central, neste domingo, n’O Estado de São Paulo.

O imaginário popular convive com a fantasia de que aumentar ou reduzir as taxas de juros é um jogo do BC com o mercado. Quem influencia quem nesse movimento, na percepção de quem ocupa o posto de principal observador da cena econômica há 2.215 dias?

Em um regime de metas de inflação é fundamental que a comunicação do BC seja eficaz. Para isso, o BC precisa ter credibilidade, o que significa ser realista e dizer a verdade, mesmo que não seja a mensagem mais agradável naquele momento. Se os agentes respeitam o BC, apostarão no cumprimento da meta e, como resultado, os custos sociais diminuirão consideravelmente. Com esses pressupostos, um banco central tem considerável grau de influência na formação de expectativas.

A entrevisa completa está aqui. Dois pontos me chamam a atenção neste trecho: (a) a jornalista Beatriz Abreu, entrevistadora, sabe um pouco de economia, não cai na fantasia popular de que há uma “luta entre BC e mercado”; (b) a resposta de Meirelles é bem didática e esclarecedora sobre o papel da comunicação do BC ao mercado.

Parabenizo a sra. Abreu pela boa entrevista e recomendo, claro, a leitura da mesma pelos leitores do blog do NEPOM.

NEPOM na mídia

Saiu no Guia do Estudante, da editora Abril:

“Alunos de economia do Ibmec realizam primeira análise Pré- Copom de 2009”

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A indicação do nosso endereço na reportagem já está rendendo visitantes ao blog!

Imprensa cita incorretamente prof. Claudio Shikida

A jornalista Luciane Lisboa, do “Diário do Comércio”, de Minas Gerais, conversou comigo e, de suas anotações, escreveu matéria sobre o corte dos juros. Este tipo de confusão é muito perigoso mas há quem diga que não vale a pena pedir uma nota no jornal porque “ninguém lê” ou porque “dá trabalho e o jornalista fica ofendido”.

Já eu prefiro ser bem claro e desfazer mal-entendidos. Acho um desserviço ao público que lê jornais não ter direito à correção de eventuais erros cometidos. Acredito firmemente na boa fé dos jornalistas e na sua humanidade já que, como eu, também erram.

Mas vamos ao caso. Em determinado trecho da matéria citam-me assim:

Para o coordenador do Núcleo de Estudos de Política Monetária da Faculdade Ibmec (NEPOM), o professor Cláudio Shikida, as motivações que levaram o Banco Central a tomar tal atitude foi (sic), principalmente, o fato de a inflação não ser mais um perigo iminente na economia brasileira e a necessidade de manter a economia brasileira aquecida.

“A atividade econômica no país tem caído muito e a crise já está afetando a cadeia produtiva. Por outro lado, a inflação está baixa, ficou perto da meta. Dessa forma, o governo pode reduzir a taxa com menos riscos de que a inflação volte a subir, disse”.

Em outro trecho fui citado corretamente. Mas o trecho acima está errado. Provavelmente ela se confundiu com suas notas já que entrevistou mais gente. Primeiro, eu não disse que a inflação não é um perigo. Entendo que o Banco Central queira trabalhar com o hiato do produto e com o hiato de inflação de maneira inteligente. Agora, o trecho entre aspas não faz sentido. Eu disse que os efeitos na cadeia produtiva são incertos (no mesmo dia que conversei com a repórter, publiquei isto, dizendo quase o oposto do que está escrito entre aspas no que tange à cadeia produtiva). Também não disse nada sobre a inflação estar alta ou baixa. Eu disse, isto sim, que o Banco Central mostrou se preocupar mais com a atividade econômica do que com a inflação.

Provavelmente foi um mal-entendido e fica aqui esta nota para quem quer que se interesse realmente pelo que os membros do NEPOM têm dito por aí. Recomendo fortemente a leitura do artigo no Millenium cujo link coloquei acima para evitar mal-entendidos.

Por prezar pela boa imprensa é que publico esta nota. Mal-entendidos devem ser sempre corrigidos para o bem do repórter e do entrevistado.

p.s. Não tenho acesso livre, mas a matéria original está aqui.

Mais sobre a decisão de ontem do Copom

Cristiano Costa tem uma interessante interpretação para os dados de desemprego, CAGED e IBGE. O primeiro refletiria uma tendência ou um antecedente dos dados do segundo. Seria interessante ter um gráfico das duas séries por aqui.