Relação entre Produtividade e Salários

Assim como os outros bens e serviços, a relação entre a quantidade dos trabalhadores e os salários pagos segue a lei de oferta e demanda, no entanto outro fator importantíssimo determina o valor dos salários: a produtividade. A determinação do salário é dada pelo valor da produtividade marginal do trabalho, ou seja, o aumento da produção decorrente do acréscimo de um trabalhador. Sendo assim, um aumento na oferta de mão-de-obra gera uma redução no salário, que faz com que as empresas contratem mais trabalhadores, ou seja, gera um aumento no emprego, e isso afeta também o valor do produto marginal do trabalho visto que a produção adicional de um trabalhador extra é maior. Pelo lado da demanda, um aumento no preço de determinado produto é repassado para os trabalhadores, que ganham salários maiores por conta dos lucros que aumentaram. Nos dois casos, a alteração do salário de equilíbrio faz com que o valor do produto marginal do trabalho também se altere, sempre havendo uma igualdade entre eles, visto que uma empresa é maximizadora de lucros.

No Brasil houve um grande aumento da produtividade entre 1950 e 1980, em decorrência do grande volume de investimentos em infraestrutura e indústria e do aumento do número de trabalhadores. Um dos principais motivos pelos quais a produtividade do trabalhador brasileiro começou a declinar foi a falta de investimentos em educação e qualificação da mão de obra.

O salário real, que é o salário corrigido pela inflação, é um dos mais importantes preços da economia, o qual define a distribuição de renda e o nível de emprego. A análise de demanda de mão de obra mostra que o salário é igual à produtividade, em que trabalhadores mais produtivos ganham salários maiores, enquanto os menos produtivos não são bem pagos. Logo, há uma correlação positiva entre essas duas variáveis. A parte da variação do salário real que não é explicada por variações na produtividade é explicada por outras variáveis como, por exemplo, a taxa de câmbio real e o nível de emprego, os quais podem influenciar significativamente o mercado de trabalho e o comportamento dos preços relativos.

Produtividade

Fonte: Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (IPEA) e The Conference Board – Total Economy Database

No gráfico, os dados são referentes ao período de 1992 a 2012. Em relação ao coeficiente de determinação, o R2, representa que 79,94% das variações do salário é explicado por variações do salário. Além disso, se a produtividade variar em uma unidade, a renda vai variar em 0,4256, que é representado pelo beta 2.

No Brasil, a produtividade tem crescido de forma consistente na agricultura, já na indústria e no setor de serviços permanece estável. Da mesma forma, os salários médios aumentaram muito mais na agricultura em relação aos demais setores, visto que dependem da produtividade do trabalho. Em relação à indústria e serviços, o aumento real de rendimentos pagos foi baixo, em linha com a estagnação da produtividade. Além disso, os salários que mais aumentaram foram os de trabalhadores não qualificados em decorrência da legislação de aumento do salário mínimo, que cresceu acima da produtividade do trabalhador nos últimos anos. Um aumento da renda média que não foi causado pelo aumento da produtividade ou por outros setores, mas por conta do salário mínimo, gera um aumento de preços, o que tem contribuído para manter a pressão inflacionária.

Portanto, há uma relação positiva entre produtividade e salário, porém outras variáveis também influenciam o aumento na renda média. Tanto os salários quanto a produtividade aumentaram mais na agricultura em relação aos demais setores. Além disso, o aumento da produtividade entre os anos de 1950 e 1980 foi devido ao grande volume de investimentos em infraestrutura e indústria, além do aumento do número de trabalhores.

Eleições e Bolsa-Família

O Cinelli fez uma pergunta muito simples e interessante: será que a correlação entre votos e bolsa-família existe no corte estadual? Eis a resposta dele. Eu apenas acrescentaria que a questão mais complicada é como medir o “bolsa-família”. Um exemplo de tentativas de se medir a variável encontra-se no meu artigo com Leo, Otavio, Ari e André.

Cinelli tem prestado um serviço para a graduação de Economia como ninguém e é por isso que eu prefiri usar o blog do Nepom ao invés do meu para colocar esta breve nota. Espero que pensem no assunto.

Importações Brasileiras

O setor externo é um assunto determinante para a economia de um país, visto que com a globalização as economias se abriram, e portanto os países mantem relações de trocas de mercadorias e ativos financeiros entre si. Portanto, alterações em variáveis macroeconômicas externas acabam influenciando a economia brasileira, da mesma forma que alterações nas variáveis de nosso país interferem nas suas decisões de compras de produtos estrangeiros, entre outros.

Existem algumas variáveis que nos possibilitam analisar essas relações entre os países. Algumas delas são câmbio, balança comercial e balanço de pagamento. Neste texto darei foco ás importações de um país, que é um componente bastante significante da balança comercial (exportações menos importações). Portanto definirei quais variáveis impactam seu volume, e em qual proporção.
As exportações liquidas, ou balança comercial, mostram as trocas de bens que foram realizadas entre os países. Os dados e a teoria mostram que o que mais influencia o volume das exportações liquidas são o câmbio, renda interna do país (PIB nacional) e a renda do exterior (PIB estrangeiro).

O câmbio interfere nisto pois dependendo de seu valor os produtos nacionais podem ficar mais caros ou mais baratos frente aos produtos internacionais. Logo, um câmbio mais depreciado (real desvalorizado frente ao dólar) barateia os produtos brasileiros e faz com que as demandas por estes aumentem, incentivando assim as exportações do brasil, e também por consequência a indústria do país. Além disso, as importações realizadas pelo Brasil reduzem, neste caso, pelo fato de que o resto do mundo oferta produtos mais caros. Assim, com a depreciação do câmbio a balança comercial tende a melhorar, ceteris paribus, pelo fato de que as vendas de produtos nacionais aumentam, junto com uma queda da compra de produtos externos. Analogamente, um câmbio apreciado dificulta a venda de produtos nacionais, e incentiva a compra de produtos internacionais. Isto piora a balança comercial, mantendo tudo o mais constante.

Porém, é fácil ver que não é apenas o mercado cambial que afeta as exportações liquidas de um país. Se o produto interno bruto local aumentar, a renda do país aumenta, e portanto sua capacidade de compra também. Logo, as pessoas aumentarão sua demanda por produtos externos, o que elevam os valores das importações. Já se a renda estrangeira aumentar, os outros países do mundo comprarão do país local em maior quantidade aumentando o volume de exportações do país.
Após estas explicações podemos mostrar que as exportações e importações de um país dependem das seguintes variáveis, em especial:

EXPORTAÇÕES (PIB ESTRANGEIRO, CÂMBIO)
IMPORTAÇÕES (PIB LOCAL, CÂMBIO)

Como eu disse anteriormente, darei um maior foco para os dados brasileiros sobre importações. Buscarei definir qual a relação entre renda nacional e importações de um país. Pelo que eu disse anteriormente esta relação possivelmente será positiva, pois quanto maior a renda nacional mais se compram de fora. Mas nem sempre quando o PIB local aumenta, as importações aumentam na proporção devida. Isto porque em determinados governos brasileiros se tentam impedir a compra de produtos estrangeiros a fim de proteger a indústria local da concorrência. Então muitas vezes mesmo com cenários propícios para se importar mais, o governo tributa fortemente produtos vindos de outros países, não deixando com que de fato essa variável aumente.

O gráfico abaixo relaciona volume de importações brasileiras com o PIB brasileiro, desde 1995 até hoje. A correlação entre as duas variáveis para os dados brasileiros é de 0,813571. Uma relação bastante alta, e que comprova a teoria. Logo, se renda aumenta as chances das importações aumentarem é elevadíssima, a não ser que outros fatores externos influenciem, como por exemplo a tributação citada acima ou até mesmo o câmbio.
O R ao quadrado destes dados mostra que 66,19% da variação das importações são explicadas pela variação da renda brasileira.

nepom

Enfim, reduzir a compra de produtos estrangeiros apenas para beneficiar um setor específico da sociedade é algo muitas vezes utilizado pelo governo brasileiro. Porém ações deste tipo devem ser pensadas com calma, pois isto pode até melhorar determinado setor pelo provável aumento de sua produção, porém prejudicará todo o resto da sociedade, que terá que pagar mais caro por produtos brasileiros na maioria das vezes menos qualificados que os internacionais. Portanto, é um questão de escolha. Protecionismo pode até auxiliar uma pequena parcela da população, e também o governo, que ganha o apoio de parte das indústrias, porém de fato isto não melhora o bem estar social.

ANPEC: boa sorte!

Muitos alunos – inclusive os do NEPOM – não sabem o que é a ANPEC (Associação Nacional de Pós-Graduação em Economia). Ontem e hoje, alguns ex-alunos fizeram as provas da ANPEC. Espero que todos tenham seu merecido descanso.

Aos que não sabem o que é a ANPEC, sugiro conversar com seu professor e fazer uma visita ao endereço virtual acima. A ANPEC tem, inclusive, uma revista científica que tem artigos interessantes (como este, para meus alunos de Análise Macroeconômica IV, por exemplo).

Caso, algum dia, você ache que sua formação profissional pode ser muito melhor, considere fazer um mestrado ou um doutorado.

Inflação em debate: Nelson Barbosa vs Samuel Pessoa

Este ano tem sido um rico nos debates econômicos relevantes, não aqueles inúteis, de sempre, que se fazem em palestras de má qualidade (geralmente caras). Estes da TV Estadão, por exemplo, estão muito bons. Outros videos da série são estes aí embaixo.

Pois é. Deu para perceber a importância de se acompanhar os dados e estudá-los, estatisticamente? Nem precisa ir muito longe, né? Basta assistir qualquer um dos vídeos…

 

Déficits gêmeos – Uma breve análise teórica e empírica

De acordo com a teoria dos déficits gêmeos existe uma relação de causalidade entre o déficit orçamentário fiscal e o déficit em transações corrente. Essa vinculação é objeto de desacordos entre os economistas e, apesar da existência de inúmeros estudos empíricos e teóricos sobre o assunto, os resultados ainda permanecem inconclusivos e polêmicos. Nem sempre é possível encontrar associações diretas entre déficit público e déficit externo, ou seja, nem sempre o que se observa sobre o equilíbrio externo de um país pode ser explicado pelo que acontece com suas contas públicas. Esclarecido isso, passaremos a uma sucinta explicação sobre a teoria em questão e, posteriormente, à análise de alguns dados da economia brasileira sobre tal conteúdo.

O argumento de que déficits fiscais empurram as transações correntes para situações também deficitárias é desenvolvido a partir da seguinte identidade macroeconômica contábil:

CC ≡ SN – I

(sendo SN = SP + SG)

Aqui CC indica o saldo em conta corrente, I o investimento e SN representa a poupança nacional, que engloba a poupança do setor privado (SP) e a do governo (SG).

Dessa forma, desenvolveremos o raciocínio da teoria a partir do pressuposto de que no equilíbrio macroeconômico o investimento se iguala à soma das poupanças nacional e externa. Isto posto, o excesso de gasto público ou a redução das arrecadações tributárias gera uma redução da poupança do governo que, quando não é devidamente compensada por um aumento da poupança privada doméstica, resulta na necessidade de absorção de poupança externa para compensar o excesso de investimento sobre a poupança nacional. Tal absorção se dá através da venda de ativos nacionais no exterior, ou seja, por meio de um saldo negativo em transações correntes. Seguindo esta lógica, portanto, ao partir de um déficit público chegamos a um déficit em conta corrente, demostrando a teoria dos déficits gêmeos.

Contudo, vale ressaltar que se o desequilíbrio inicial nas contas públicas tiver como consequência um estímulo à poupança privada, assim como sugere a Equivalência Ricardiana, não seria necessário financiamento externo para manter o equilíbrio macroeconômico entre investimento e poupança e, dessa forma, o saldo em conta corrente não seria afetado pelo déficit orçamentário governamental.

Só se pode afirmar com certeza, pela observação da identidade macroeconômica supracitada, que se um aumento do déficit público não é sucedido por um aumento de igual magnitude na poupança privada nacional, o resultado será necessariamente um declínio no investimento e/ou uma elevação no déficit em transações correntes.

Deixando de lado a explanação simplesmente teórica, passamos agora a um sucinto estudo de alguns gráficos e informações sobre a economia brasileira, construídos a partir de dados sobre contabilidade nacional obtidos pelo IBGE. É válido destacar que na análise feita adiante utilizou-se a suposição de que, por simplificação, a conta corrente (CC) é exatamente igual ao saldo da balança comercial (X-M), desconsiderando a renda líquida enviada ao exterior. Sendo assim, o déficit comercial equivale à diferença entre poupança nacional e investimento.

Na imagem abaixo apresentada é possível vislumbrar a evolução, desde 1996 até 2013, das variáveis déficit fiscal e balança comercial, ponderadas aqui de acordo com o PIB de cada ano do período.

Figura 1

Figura 1: Evolução ao longo do tempo da proporção do déficit fiscal no produto, (G-T)/PIB, e da proporção do saldo da balança comercial no produto, (X-M)/PIB.

       Por meio desse gráfico, em um primeiro momento só é possível perceber de forma mais evidente o vínculo entre as trajetórias do déficit orçamentário público e do saldo da balança comercial na experiência brasileira a partir aproximadamente do ano de 2005, que é quando ambas as linhas passam a ter um movimento mútuo de tendência predominantemente decrescente até o ano de 2013. Nota-se que, por um lado, durante o período que se estende de 2000 até 2009 o Brasil administrou superávit comercial juntamente com a situação de desequilíbrio nas contas públicas, diferentemente do indicado pela teoria dos déficits gêmeos. Por outro lado, nos anos que antecedem 2000 e nos anos que sucedem 2009, orçamento do governo e balança comercial tornam-se conjuntamente deficitários.

Agora, na imagem subsequente é possível observar o formato da dispersão dos dados em análise, estando a conta corrente em função do déficit público, isto é, CC/PIB em função de (G-T)/PIB. Além disso, está representada nela a linha de tendência linear para a série em questão.

Figura 2

Figura 2: Representação da dispersão dos pontos e da linha de tendência linear existente entre as variáveis de proporção do déficit fiscal no produto, (G-T)/PIB, e de proporção do saldo em conta corrente no produto, CC/PIB.

       A reta preta crescente indica que existe relação direta entre déficit em conta corrente e déficit fiscal, assim como previsto teoricamente. O coeficiente de correlação encontrado para valores de CC/PIB e (G-T)/PIB foi de 0.59, indicando moderada correlação positiva entre ambas as variáveis. É interessante notar que quando o coeficiente é calculado considerando um período de defasagem no tempo (ou seja, analisa-se aqui o impacto do déficit público de um ano sobre o saldo de transações corrente do ano subsequente, e não do mesmo ano), o valor sobe consideravelmente, atingindo um patamar de forte correlação igual a 0.73. Esse fato é evidencia de que a relação de causalidade entre o déficit orçamentário fiscal e o déficit em transações corrente apresentada pela teoria dos déficits gêmeos tem efeito provavelmente defasado.

Foi possível constatar, portanto, que o quadro econômico brasileiro apresenta evidências de alguma correlação entre déficit fiscal e déficit em conta corrente. Contudo, também foi empiricamente observável que superávits comerciais e déficits orçamentários ocorreram simultaneamente em determinados anos. Sendo assim, fica demonstrado que não é razoável derivar relações de causalidade analisando tão somente uma identidade contábil e ignorando o que o cenário econômico nos mostra na prática.

por Ana Luiza Coelho

Estudante de Ciências Econômicas é mais feliz?

Sorria, você está sendo estudado

O artigo original é este. Os autores, Haucap e Heimeshoff, doravante Haucap & Heimseshoff (2014), fizeram um estudo econométrico interessante sobre a “felicidade” dos economistas. O artigo já está aprovado em um journal da área. O que eles fizeram (não vou citar as páginas porque o link está aí)?

This is the first paper that studies the causal e§ect of studying economics on subjective well being. Based on a survey among 918 students of economics and other social sciences, we estimate the effects of studying in the different fields on individual life satisfaction. Controling for personal characteristics we apply innovative instrumental variable methods developed in labor and conflict economics. We find a positive relationship between the study of economics and individual well-being. Additionally, we also find that income and futurejob chances are the most important drivers of happiness for participants of our survey.

Ok, este é apenas o resumo. Mas você deveria ler o artigo todo. Da revisão de literatura, destaco este ponto que eu sempre acho polêmico:

In summary, there is a broad consensus and little disagreement that economists behave differently (i.e, more selfishly) and that the also hold different views and values than other people. Hence, the main question in this line of research is not so much whether economists are really different at all, but whether these differences are rather due to nature or to nurture (see, e.g., Carter and Irons, 1991; Frey and Meier, 2003; Haucap and Just, 2010; Bauman and Rose, 2011).

Como se vê, há uma literatura que afirma que economistas se comportam de forma distinta do restante da população – mas não vejo isso, ainda, como um consenso na literatura – e há um ponto, supondo que isto seja verdade, interessante sobre saber se a diferença é uma questão, digamos, genética ou de meio-ambiente, no sentido biológico dos termos.

Sorria, você está sendo estimado

A parte econométrica do artigo é outro ponto a se destacar. Estima-se uma função utilidade com um probit ordenado. O que não é trivial é que eles usam dois estágios. Aliás, citando novamente:

However, estimating instrumental variable models for ordered discrete outcomes, which woule be necessary due to the endogeneity of the field of study, is by no means trivial and by far not standard in econometrics yet. Luckily though, it is also not necessary in our case. As Angrist (1991, 2001) has shown, it is sufficient to estimate instrumental variable regressions for discrete choice models using standard two stage least squares methods (2SLS) assuming a linear probability model as an appropriate choice. Angrist (1999, 2001) has also shown that these models estimate the so-called average treatment effect very well. Based on these considerations, we use 2SLS estimations as our basic regressions.

Bacana, né? Os resultados?

happy

Bem, como em outros trabalhos, a religião tem um impacto sobre a satisfação dos estudantes da amostra (eu e meus co-autores já achamos algo assim, em outros trabalhos, na área de Economia da religião e também na do Crime (embora eu tenha os links, parece que alguns estão desatualizados, mas não é difícil você encontrá-los por aí, online). Outro resultado legal é a importância da renda relativa sobre a felicidade. A renda, em termos absolutos, não é tão importante, mas ter uma renda melhor do que outrem o é (não sou muito conhecedor da literatura, mas acho que existem trabalhos que mostram isto com alguma frequência).

Sorria, você chegou ao final do texto

Finalmente, a conclusão:

To conclude, while income, religion, and future job perspectives are important drivers of individual life satisfaction for students in our sample, studying economics also increases students’self-reported well-being – at least some good news for all teachers of economics.

Será que os resultados dos autores são válidos para outras amostras? Meus alunos de Econometria III já conhecem o conceito de validação externa de modelos de regressão. Eis uma pesquisa que gostaria de fazer com alunos brasileiros. Aliás, conhecendo vários dos meus amigos economistas de outras faculdades, não duvido que haja alguém trabalhando nisto.

P.S. Por que você e sua turma de Economia não fazem um video como este do Williams? Caso o façam, publico o link aqui. ^_^

Relação Entre Consumo e Renda para o Brasil

O PIB de um país, também chamado de renda, representa a produção de todos os bens e serviços finais de uma economia. É uma variável macroeconômica extremamente importante para a análise da conjuntura de um país. Através de sua taxa de crescimento, por exemplo, podemos verificar se a economia de um país está aquecida, estagnada ou em recessão, se a inflação tem tendência de alta ou até mesmo se há expectativa de alterações na taxa de desemprego. Porém, para definir o valor de um PIB é necessário ter o consumo do período, além de outras variáveis, como investimento, gastos do governo e exportações líquidas de um país. Porém o consumo é o principal componente do PIB. De acordo com a Penn World Table Version 7.0 o consumo representa 70 % do produto interno bruto de todos os 190 países pesquisados, valor extremamente alto e que mostra uma provável relação bastante forte entre consumo e renda. Porém, a fim de verificar o nível de dependência entre elas, e também com o intuito de relacionar os resultados com a função de consumo Keynesiana e também com a de Milton Friedman, pesquisei alguns dados e estimarei, durante este artigo, algumas relações estatísticas.

Porém, antes disso falarei um pouco das diferentes funções de consumo criadas por Keynes e por Friedman. Ambas têm prós e contras e foram essenciais para a história econômica.

Keynes publicou sua função consumo em 1936, e esta não foi baseada em provas, mas apenas em uma análise empírica. Para ele o consumo era definido por:

C= Co + cYd

Onde Co é chamado de consumo autônomo, c de propensão marginal a consumir e Yd de renda disponível.

O consumo autônomo é uma variável que não foi muito bem explicada por Keynes, mas apenas foi considerada uma parte do consumo total da economia que é necessária para a sobrevivência desta, independentemente da renda de um país. Já a propensão marginal a consumir é um valor entre 0 e 1, que representa quanto uma unidade monetária adicional na renda acrescenta no consumo. Por fim, o consumo depende da renda disponível, que seria uma renda de uma economia já líquida de impostos, depreciação, etc. Esta, para Keynes, é a renda corrente daquele determinado período de tempo, ou seja, é a renda que foi garantida e que está disponível para consumo, já livre das obrigações fiscais.Dessa forma, se a renda de um país cai, o consumo cairá em grande proporção. Porém se caso a renda aumenta, por qualquer motivo que seja, não importando se é um choque transitório ou permanente, o consumo também aumentará.

Como Keynes não faz uma análise intertemporal do consumo, não é possível, por meio de sua teoria, pensar em indivíduos que poupam ou despolpam a fim de suavizar seu consumo, até porque a teoria Keynesiana considera apenas um período de tempo. Logo, mesmo ele tendo mencionado uma propensão marginal a poupar, ele não especificou para onde iria esta poupança. Para Keynes poupar era um luxo, por isso a propensão média a consumir para ele diminui à medida que a renda aumenta. Sua teoria, então, ficou um pouco limitada quando se analisa países que não possuem restrições ao crédito, pois nesses as pessoas olham para as taxas de juros ao definir seu consumo presente, além de que não levam em conta apenas sua renda disponível atual ao consumir, pois não querem que seu consumo varie muito ao longo de sua vida.

Vale lembrar que Keynes mencionou um conceito de propensão média a consumir, que representa a parcela da renda gasta em consumo. Na sua concepção, quanto maior a renda, menor a propensão média a consumir.

Entretanto, mais tarde Milton Friedman criou uma nova teoria de consumo, que enfatizava uma divisão do produto em renda permanente e renda transitória. Para ele a renda podia ser decomposta em 2 partes:

Y = Yp + Yt

Sendo Y a renda total, Yp a renda permanente e Yt a renda transitória.

A renda permanente seria a parcela da renda total que é mais previsível e garantida ao indivíduo durante sua vida, como um salário médio. É uma renda esperada em todos os períodos de tempo. Já a renda transitória seriam choques que podem acontecer ao longo da vida das pessoas, trazendo inesperados aumentos ou quedas na renda de um determinado período. Como por exemplo ganhar uma quantia de dinheiro em um sorteio, ou uma mesada extra dos pais em um único mês, ou até mesmo perder dinheiro em um assalto. Tudo isto afetaria a renda de uma pessoa, mas são situações aleatórias, imprevisíveis e que não ocorrem sempre, pelo contrário, são raras. Como o consumidor visa suavizar seu consumo, ou seja, definir uma renda média (renda permanente) que é capaz de manter um padrão de consumo ao longo de sua vida, sem grandes oscilações, as pessoas preferem poupar e despoupar esta renda transitória, do que consumir demais em um ano que sua renda aumenta, e consumir extremamente pouco mais para frente quando sua renda cair por algum motivo.

Para ele, a longo prazo a propensão marginal a consumir é bem próxima de 1, pelo fato de que as pessoas não deixam dívidas e nem heranças.

A função consumo de Friedman ficou definida por :

C = aYp ou por C = aCt-1 + bYt + erro

Ele também definiu como propensão média a consumir o consumo dividido pela renda, e na sua visão esta propensão era constante no longuíssimo prazo. Porém alterações na renda permanente não alteram a PMC, enquanto alterações na renda transitória afetam inversamente a PMC.

Logo, economias mais restritas ao crédito tendem a se adequar melhor á teoria Keynesiana, enquanto locais com grande facilidade de concessão de empréstimos se torna mais próximo da teoria de Friedman.

Depois de explicadas as teorias de dois grandes economistas, irei analisar um pouco a relação entre essas variáveis para os dados brasileiros. Eles foram retirados das Contas Nacionais, divulgadas pelo IBGE. Os valores nos eixos do gráfico abaixo possuem uma base móvel para o ano de 1995, onde o valor referencial é o PIB deste ano com base igual a 100. Os outros valores são variações em relação ao índice base.

Por meio de uma regressão linear simples, e utilizando o método dos momentos, estimei uma função consumo brasileira. No gráfico abaixo a reta preta representa esta função, que foi estimada como C = 0,7598 Y + 25,016, onde C é o consumo (variável explicada) e Y a renda (variável explicativa).

maaaaaaaaaaaaaaaaa

Podemos então relacionar esta função com o conceito pensado por Keynes, por exemplo. Onde 0,7598 seria a propensão marginal a consumir e 25,016 (em milhões de reais) o consumo autônomo. Logo, quando a renda aumenta em 1 unidade, o consumo brasileiro cresce em 0,7598.

Já pensando na teoria abordada por Friedman, esta função estimada seria coerente a curto prazo, mas não a longo prazo, onde a propensão marginal a consumir se torna bem próximo de 1. Além disso, a renda considerada foi a renda total do período, sem decomposição em renda permanente e em renda transitória.

Porém, é fácil ver que consumo e renda tem forte relação positiva, como mostrada na linha de tendência do gráfico abaixo.

Calculei também correlação entre essas duas variáveis, que teve um valor de 0,797293. A correlação se refere a medida da relação entre duas variáveis, mostrando o grau de dependência entre elas. Quanto mais próximo o valor for de 1, maior é a relação positiva entre essas variáveis. Quanto mais próximo for de -1, maior é a força da relação negativa entre elas, e quanto maior o valor for de 0, menor é a relação entre as variáveis. Portanto, consumo e renda considerando os dados brasileiros apresentam uma dependência e relação bem alta. Isto faz sentido, pelo fato de que a longo prazo, por exemplo de acordo com Friedman, consumo é igual á renda. Além de que para Keynes o consumo só depende da renda, e de nenhuma outra variável. Logo, os dados são válidos para ambas as teorias neste aspecto.

Portanto, ao invés de escolhermos um único economista para seguirmos, devemos utilizar os artifícios que todos propuseram para analisarmos os fatos econômicos e chegarmos a conclusões sobre quais contextos se adequam melhor á cada teoria.

PIB mensal brasileiro (adendo)

Lembra de quando eu comentei que o PIB mensal do IBRE, dessazonalizado, tinha…sazonalidade? Pois é, o prof. Giles, ontem, explicou o porquê disto acontecer em várias séries sobre as quais se aplicam métodos de dessazonalização. Isto reforça o ponto que sempre destaco em sala de aula: no caso de um estudo mais sério de uma série econômica, o correto (ou “o mais adequado”, porque “correto” é um tanto quanto forte) é modelar a sazonalidade e/ou não ignorá-la ao fazer os testes.

Inflação, taxa Selic e composição da dívida pública

A taxa Selic é um dos instrumentos de política monetária utilizados pelo Banco Central para controlar a inflação, preservando a estabilidade da moeda e garantindo crescimento da economia do país.  Quando o BACEN adota uma política monetária expansionista, diminui a taxa básica de juros e como consequência tem-se um aumento no nível geral de preços; por outro lado, quando se adota uma política monetária contracionista os juros são elevados e a inflação é debelada.

De modo bastante simples podemos calcular a correlação existente entre inflação e taxa Selic, utilizando a seguinte fórmula:

É importante ressaltar que em períodos de tempo mais curtos a correlação é mais forte, por outro lado, por se tratar de uma correlação contemporânea existe uma defasagem do efeito da Selic sobre a inflação.

Figura 1: Inflação e Taxa Selic 2004-2014

Na figura 1, percebemos que no período de 2004-2014 há uma grande dispersão dos dados, de modo que a linha de tendência, embora negativamente inclinada, mostra uma correlação fraca entre taxa Selic e inflação; no período a correlação foi de -0,14. Isso sugere que há uma defasagem do efeito da Selic sobre a inflação em períodos de tempo mais longos.

Figura 2: Inflação e Taxa Selic 2004-2005

Na figura 2, analisando um período de tempo mais curto a correlação é mais forte, o valor foi de -0,34. Isso sugere que aumentos da taxa Selic provocaram redução da inflação de modo mais efetivo.

Figura 3: Inflação e Taxa Selic 2014

Na figura 3, analisando os seis primeiros meses do ano, percebemos uma correlação ainda mais forte, o valor foi de -0,93. Isso sugere que os sucessivos aumentos da Selic provocaram controle no nível de preços. Todavia, sabemos que o Governo Federal tem trabalhado com uma meta de inflação que bate no teto da banda, 6,5%, isto é, a política monetária é frouxa e reflete o cenário de baixo crescimento da economia.

No entanto, a composição da Dívida Pública pode diminuir ou potencializar os efeitos da taxa Selic sobre a inflação. Isso ocorre porque o Tesouro Nacional emite títulos de dívida com taxas de remuneração flutuantes, os LFT’s, remunerados pela taxa Selic. Se o Governo possui um elevado estoque de dívida indexado pela Selic, pode haver um desequilíbrio entre as políticas fiscal e monetária, e pior, a política monetária pode ter um efeito contrário ao desejado.

  • Caso o Banco Central eleve a taxa Selic para conter um aumento de preços, o custo com o pagamento de juros, pelo Governo, aumenta podendo comprometer sua política fiscal;
  • Os indivíduos e instituições que possuem os LFT’s recebem mais juros e parte desse dinheiro pode ser usado em consumo ou investimento, aumentando a demanda agregada e provocando aumento de preços.

O Brasil possui um elevado estoque de dívida pública remunerada pela Selic (19,86%), mas há alguns anos era aproximadamente 50%. Talvez esse seja um dos fatores que diminuem o efeito da Selic sobre a inflação.

Alguns países conseguem potencializar suas políticas monetárias emitindo apenas títulos não indexados pela taxa básica de juros (flutuante). No caso dos Estados Unidos, existem apenas os bonds e notes (prefixados). O resultado de uma elevação da taxa básica de juros não provoca impacto na política fiscal (no caso de pagamentos de juros), pois não existem títulos indexados a taxa básica. Por outro lado, o efeito sobre a inflação é maior, pois a elevação da taxa de juros provoca uma redução nos preços dos títulos, uma diminuição na riqueza dos detentores dos títulos e uma procura maior por títulos. Dessa maneira, a demanda agregada diminui e a inflação é controlada.

No Brasil o Governo vem diminuindo o estoque da dívida indexada pela Selic e num próximo artigo apresentaremos um modelo de regressão estimando essa relação entre composição da dívida e efeito da taxa Selic sobre a inflação.

PIB mensal brasileiro: uma primeira olhadela na planilha…

O Vitor Wilher, como sempre, presta um grande serviço à blogosfera com um texto sobre o PIB mensal calculado pela FGV-IBRE (que, aliás, presta outro grande serviço calculando-o, obviamente). Muito bom, não?

A gentileza do Vitor foi a de me permitir espiar a planilha, com a série desagregada. Só para vocês terem uma idéia, o PIB mensal dessazonalizado é o que se encontra na figura abaixo.

pibmensal

Com este PIB mensal e um pouco de econometria, Vitor faz uma previsão que alguns poderiam achar sombria mas, diante da política econômica atual, não é nada surpreendente.

Com esse modelo, sujeito a toda a sorte de críticas, o PIB chegaria a uma taxa de crescimento em 2014 próxima a 0%. O banco Itaú, por exemplo, recentemente reviu sua projeção para 0,1% de crescimento esse ano. Abaixo está um gráfico com exercício semelhante feito para a série com ajuste sazonal.

A economia brasileira já está, praticamente, em estagflação. Por mais que mercados possam funcionar, o governo, com sua mão claramente visível, pode atrapalhar bastante. Afinal, como já disseram muitos keynesianos de quermesse, a intervenção estatal é muito poderosa. Eles têm razão, mas pelos motivos errados: a intervenção pesada atrapalha. O que eu chamo de “intervenção pesada”? Digamos que é um tipo de intervenção que sofre de obesidade regulatória de tal forma que nem um tripé macroeconômico se sustenta. De forma bem genérica, é isto que eu quero dizer. Desabafei, né? Agora voltamos à série.

O gráfico acima mostra que, apesar da dessazonalização, há um padrão cíclico (ou sazonal) ainda marcante na série. Uma forma de verificar isto é olhar para as variações mensais, já livres de tendência. Isto está ilustrado no gráfico seguinte, em cujo eixo vertical temos a taxa de variação relativa do PIB (multiplique por 100% para pensar em percentual, mas esta transformação monotônica não altera o comportamento gráfico da série).

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Repare que a média da variação mensal deste PIB apresenta diferenças, notadamente em abril e maio, respectivamente para baixo e para cima da “média média” dos meses do ano. Não é à toa que o modelo do Vitor é um ARIMA sazonal, como se vê.

Dito isto, outro ponto legal para se estudar é se a série apresenta quebras. Resolvi analisar a existência de quebras na taxa de variação do indicador e encontrei que, no período amostral, existe uma possibilidade alta de identificarmos quatro quebras (anos e meses):  2003(8) 2006(4) 2008(7)  2011(2).

Claro, este diagnóstico pode variar – não estou tão preocupado em estudar a série em detalhe no momento – mas é possível que estas quebras reflitam inflexões da política econômica associadas, claro, a outros possíveis choques exógenos. Gostaria que alguém do Nepom se sentasse em frente ao computador e pesquisasse as notícias em tornos dos períodos citados (digamos: com um mês de intervalo para frente e para trás).

Só para terminar, eis uma outra perspectiva, na qual eu investigava a existência de quebras estruturais na série do PIB mensal em nível. Neste caso, as datas eram (com os intervalos de confiança):

2.5 %       breakpoints    97.5 %
1   2004(1)      2004(2)      2004(8)
2   2006(4)     2006(5)     2006(6)
3   2008(9)     2008(10)   2008(11)
4   2010(11)    2010(12)   2011(1)

pibmensal3

 

Apesar das diferenças (uma análise investiga a quebra no nível, a outra na variação relativa do nível), eu diria que 2006, 2008 e 2011 são anos que valeriam a pena investigar com mais calma. Fica para outra oportunidade.

A hipótese CV-RP (Ciclo da Vida e Renda Permanente)…no Brasil

Gostei do gráfico. Preciso dizer mais? Clique nele para ler o texto original. Mais comentários embaixo do mapa “quente”. ^_^

Bem, eis as notas do gráfico:

Note: The horizontal axis depicts the age of individuals and the vertical axis the distribution of per capita income by annual gross income brackets. The shading refers to the total income in thousand US$. The closer to red, the larger the amount of total income in that age and income range – See more at: http://blog.euromonitor.com/2014/09/income-and-expenditure-brazil-why-brazil-is-an-attractive-consumer-market-with-challenges.html#sthash.PKloY9xe.dpuf

Bacana, né? Lembra muito o gráfico teórico, não? Olha ele aí.

É, galera. Teoria Econômica séria (esta que a gente ensina) ainda tem seu charme, não? Passam-se os anos e a gente ensina a mesma coisa. Há algo aí, apesar de tudo. Os dados negam aos ilusionistas a veracidade de suas falsas hipóteses não-falseáveis, mas retoricamente elegantes. Ou, como dizem no Brasil moderno: Gol da Alemanha!

p.s. não é exatamente a mesma coisa porque o primeiro gráfico tem uma amostra e não acompanha a mesma pessoa ao longo da vida. Entretanto, a amostragem nos conta uma bela história. ^_^ 

Economia do mercado musical – nano-dicas

Seguindo a dica do prof. Marcos Fernandes (FGV-SP), cheguei a este site. O que mais chama a atenção é a figura abaixo.

Sensacional, não? Não é a melhor forma de se visualizar, eu sei, mas é um belo exercício com dados de forma simples. Qualquer aluno de graduação consegue fazer gráficos de pizza e quase todos sabem gerar gifs animados. A bem da verdade, o melhor que já vi de música e economia é este artigo, de Crain e Tollison (Tollison é um dos meus autores favoritos em Economia).

O impacto da Selic no Ibovespa

Trataremos do comportamento do Índice Bovespa diante das variações da taxa básica de juros, Selic, quais implicações econômicas e financeiras seriam limiar da existência de uma correlação e como podemos interpretá-la sob a ótica das empresas e do investidor. Para tanto, exploraremos parte das principais teorias do mercado de capitais e suas respectivas considerações sobre a taxa de juros do mercado.

A política monetária tem função fundamental na economia. O objetivo, para uma política monetária expansionista, é, com taxas de juros mais baixas, estimular o crédito e, portanto, o consumo, além de desestimular a poupança. Ao contrário, a política monetária contracionista, através de taxas de juros mais altas, inibe a tomada de crédito e incentiva a poupança.

No mercado de capitais a política monetária é decisiva no que concerne as tendências. Primeiramente devemos considerar o fato de que as empresas listadas da Bolsa de Valores dependem, em sua grande maioria, da expansão econômica, uma vez que estas obtêm suas receitas através do consumo das pessoas e, neste sentido, a taxa de juros definirá se as pessoas estarão dispostas a comprarem mais ou menos, ou a pouparem.

Entendido que o momento econômico vigente é crucial para a receita das empresas, as expectativas relacionadas à economia impactam diretamente nas expectativas sobre as receitas futuras e, portanto, sobre o valor esperado da empresa.

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Embora possamos fundamentar a correlação entre o Ibovespa e variações da taxa Selic, sua análise de regressão linear apresenta coeficiente de correlação de 0,0005, ou seja, não podemos explicar estatisticamente as variações do Ibovespa em função da variação na taxa Selic. Este resultado pode sugerir que tais variações não ocorrem concomitantemente com as decisões na variação da taxa de juros.

Apesar de não ter encontrado a correlação entre os indicadores, vejamos as considerações da teoria de finanças sobre o retorno do mercado dado variações na taxa Selic.

Um dos métodos de Valuation (Avaliação do valor da empresa) mais utilizados é o Free Cash Flow ou Fluxo de Caixa Descontado, onde o Fluxo de Caixa Disponível da Empresa em cada período é trazido para o valor presente. Onde:

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A taxa WACC (Weighted Average Cost of Capital), utilizada no fator de desconto intertemporal, é o custo médio ponderado do capital. O WACC expressa o custo de oportunidade da empresa relacionando a composição do seu capital entre o capital próprio e o capital de terceiros, onde, o custo do capital próprio (Ke) é o custo do capital dos investidores que compraram ações da empresa para receberem dividendos e, o custo do capital de terceiros (Kd) é o custo do capital de instituições financeiras que financiam a empresa, os credores. Temos:

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Uma vez que o compromisso com os credores é pago antes da distribuição de dividendos, o custo do capital próprio é maior que o custo do capital de terceiros, pois, o custo de oportunidade de cada um se diferencia, principalmente, de acordo com o risco associado à operação. Enquanto as instituições financeiras definem as taxas cobradas através da análise de rating, o investidor define seu custo de oportunidade (Ke) através do modelo CAPM (Capital Asset Princing Model), onde:

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Temos que (Rf) é a taxa de juros livre de risco do mercado, (Rm) é o retorno do mercado e (β) é o coeficiente de correlação entre o retorno do mercado e o retorno da ação da empresa analisada. Ou seja, o investidor exige receber a taxa de juros livre de risco somada ao que é chamado de prêmio pelo risco (Rm – Rf).

Consideremos a taxa Selic como a livre de risco e o retorno do mercado sendo o retorno do Ibovespa, neste caso, é possível perceber que a variação na taxa Selic (Rf) impactaria diretamente o custo de oportunidade do investidor (Ke) e, portanto, sua própria decisão de investir. Devemos considerar também, que a variação na taxa Selic implicará em variações no custo do capital de terceiros, afetando a fórmula do WACC em toda a sua extensão.

Podemos fazer a consideração de que o retorno do Ibovespa (Rm) será afetado se pensarmos que, feita a análise de Fluxo de Caixa Descontado para cada empresa listada no Ibovespa, a variação da taxa de juros implicará em novos valores para o Ativo Financeiro de cada empresa e, portanto, alterando o valor esperado das empresas analisadas. Por este ângulo, podemos dizer que existe uma relação convexa entre o valor das empresas e a taxa de juros livre de risco, pois, a variação na taxa de juros implicará em uma variação inversamente maior no valor das empresas.

Uma consideração importante remete-se ao significado do Beta (β), que pode ser expresso como o coeficiente de correlação entre o risco sistemático do mercado e o risco sistemático próprio da empresa em questão.

Primeiramente, entenderemos que a carteira de mercado, teoricamente, possui todos os títulos do mercado na mesma proporção em que estes estão disponíveis. Alocada de forma eficiente possui títulos de renda fixa e ativos de risco de forma a proporcionar a melhor relação de retorno e risco. O critério mais importante para a carteira de mercado remete-se ao fato de que sua diversificação entre ativos lhe proporciona a exclusão de riscos individuais dos ativos e seus setores, restando apenas o risco sistemático.

Podemos definir o risco sistemático como aquele que não pode ser diversificado, por suas próprias características, geralmente, está atribuído a fatores macroeconômicos e que, portanto, afetam toda a economia, alguns setores mais do que os outros.

Analisando o risco de uma carteira com n ativos de mesmo peso, onde i e j são ativos de risco, temos:

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Se pensarmos em uma carteira com tantos ativos quanto forem possíveis, teremos:

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Se a covariância média se aproximar de zero, dizemos que não há risco não sistemático. E esta será a carteira de mercado bem diversificada.

Agora podemos entender do que se trata o Beta. Aqui, o (Ke) será tratado como a expectativa de retorno de um ativo (i). Reescreveremos o modelo CAPM da seguinte forma:

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Entendemos que a Selic altera o custo de oportunidade das empresas, dos investidores e de instituições financeiras, as proposições analisam possíveis variações na Selic como parte do risco sistemático, ficando implícita a suposição de que existe uma correlação entre a variação da Selic e o retorno do Ibovespa.

Após analisar tanto a relação entre os dados quanto os fundamentos teóricos, podemos concluir que, em teoria, o mercado precifica as variações na taxa Selic, entretanto, baseado em expectativas de longo prazo. Antes que ocorra uma decisão de política monetária, o mercado precifica suas expectativas, inclusive para decisões de períodos subsequentes, quanto a algum tipo de variação tanto na taxa de juros (Há expectativas, de curto prazo, geradas pelos próprios Police Makers através da ata do Copom) quanto para os demais dados econômicos e suas respectivas variações, tais como: câmbio, inflação, PIB, entre outros que também estão fundamentalmente correlacionados às variações no Ibovespa. Vemos, portanto, que o preço do Ibovespa considera um modelo dinâmico das variáveis econômicas no longo prazo. Não havendo, portanto, relação linear entre o retorno do Ibovespa e a variação na taxa Selic quando relacionados nos mesmos períodos. Sendo assim, o Ibovespa representa um bom indicador sobre as expectativas de longo prazo da economia.

Referências Bibliográficas:
Elton, Edwin J.; Gruber, Martin J.;Brown, Stephen J.; Goetzmann, William N. (2004), Moderna Teoria de Carteiras e Análise de Investimentos. Atlas. (Capítulos 5, 6, 9, 13)
Assaf Neto, Alexandre (2012), Mercado Financeiro. Atlas. (Capítulos 15 e 16)