“O cara que vende bala no sinal é irracional, ele não sabe o que é melhor para ele”…dizem-me alguns alunos. Será?

Cansei de mostrar exemplos de que o contrário é verdadeiro. Mas veja você mesmo, nesta matéria sobre os “marreteiros” paulistas  (ambulantes que vendem balas e afins nos sinais):

A maioria dos ambulantes compra uma quantidade inicial e, quando vendem tudo, retornam à distribuidora para renovar o estoque e voltar às ruas, buscando pontos estratégicos da cidade como as avenidas Tiradentes, Salim Farah Maluf, Radial Leste, Avenida do Estado e inúmeras outras.

Para driblar a inflação, os marreteiros inventam promoções. Segundo os distribuidores, a tendência é a procura por produtos mais baratos, o que varia conforme o dia. Se hoje é o amendoim, amanhã pode ser a bala de goma. Dessa forma, as possibilidades de lucro são maiores.

Não se convenceu? Bem, eles não fizeram nenhum curso de Econometria, mas:

Os ambulantes contam que existe uma certa sazonalidade ao longo do dia, ou seja, uma certa preferência por determinados tipos de produtos conforme hora do dia. Pela manhã, os produtos que mais vendem são chicletes e balas. Ao meio-dia, aumenta a procura por água e chocolates. No fim da tarde, bolachinhas, amendoins, batatas chips e outros salgadinhos para os trabalhadores que voltam cansados para casa e precisam enganar a fome.

Ah, mas vão me dizer que ele não sabe o que é melhor para ele, que tem que chamar um técnico do IPEA para lhe explicar o que ele deve fazer com sua vida. Será?

“Eu era pintor de carros e ganhava cerca de R$ 1,2 mil por mês”, conta Biro-Biro. “Hoje faturo em média R$ 1.000, mas não sou escravo de ninguém. Tenho liberdade para fazer meu trabalho como achar melhor”.

Como dizem lá nos EUA: I rest my case. Sim, você deveria ler a matéria inteira. Excelente exemplo para uma aula de Microeconomia, ou de Logística, ou mesmo de Ética, já que muita gente acha que “ético” é dizer aos outros como eles devem tocar suas vidas porque, digamos, sabemos mais do que eles o que é melhor para eles. A matéria mostra que a realidade é um pouco diferente do desejo do professor de Filosofia…

Ah, sim: meus parabéns à repórter Vivian Codogno, responsável pela matéria. Vê-se que ela tem noções básicas de Economia e a redação do texto ficou ótima, impecável. Detalhes e narrativa agradaram a este velho leitor.

"O ambulante não sabe mesmo o que quer? Ou você é que ficou um pouco arrogante ultimamente?"

“O ambulante não sabe mesmo o que quer? Ou você é que ficou um pouco arrogante ultimamente?”

Dica de leitura

Eu não li e nem tenho vontade de ler o livro do tal Piketty. Mas muita gente fez barulho em torno dele como se ele fosse revolucionar o conhecimento, trazer a paz mundial ou, sei lá, fosse auto-limpante.

De qualquer forma, o Samuel Pessoa, que é um baita economista, fez uma resenha crítica do livro com um apêndice que acaba, ao meu ver, com a discussão. Enviado pelo Marcos Fernandes lá no livro de caras do Zuckerberg, creio que será útil aos que gostam deste tipo de leitura.

Lei de Okun, novamente

Lei de Okun, novamente…

Certa vez, um membro do Nepom se dedicou ao tema da Lei de Okun (na verdade, já falamos dela algumas vezes, como você pode ver aqui). Recentemente, li uma interessante nota sobre o tema, mas para a economia dos EUA. A discussão é bastante didática e, portanto, pensei em voltar ao tema. Primeiro, tive que voltar ao básico: os dados do PIB foram retirados daqui. Já a taxa de desemprego trimestral eu tive que gerar como médias das taxas mensais (como estava com pressa, peguei direito daqui) das taxa de desemprego (30 dias) das pessoas de 10 ou mais anos de idade, por regiões metropolitanas.

A idéia foi apenas a de replicar o exercício de Wen & Chen (2012) [sim, esta é forma como vamos nos referir à nota citada] com dados brasileiros. O ponto dos autores é falar da diferença que existe na interpretação da Lei de Okun quando se ajustam ambas as variáveis por sua média ou pela “média móvel” obtida pelo filtro Hodrick-Prescott (o popular “HP”). Não fosse por minha preguiça no domingo de manhã, este seria um momento R do dia tal e qual os que faço lá no meu blog.

Momento Gretl do Dia!

Após importar os dados para o Gretl, construí as variáveis para o PIB e para o desemprego. Para o PIB precisamos do logaritmo da razão entre o mesmo e sua tendência: log(PIB) – log(PIB_tendencia). Para o desemprego não é necessário tirar o logaritmo e, assim, temos: desemprego – desemprego_tendencia.

A questão de Wen & Chen (2012) é se há diferença na forma de se calcular a tendência das variáveis. Quanto ao PIB não há muita discussão, mas quanto ao desemprego, sim. Em outras palavras, mantendo a mesma metodologia de cálculo para a média do PIB, o que acontece com a relação de Okun se usarmos a média amostral do desemprego como sua tendência? A resposta está no segundo gráfico a seguir.

okun_novo1

 

okun_novo3

Ambos os coeficientes calculados são estatisticamente significativos a 1% (erros-padrão robustos foram utilizados). A diferença, contudo, é notável: o coeficiente varia de -0.0139 para -0.00298. A diferença, tal e qual em Wen & Chen (2012), leva-nos à seguinte pergunta: qual das duas estimativas deveria ser usada como guia de política econômica?

E agora, Okun?

Obviamente, a resposta depende, ceteris paribus, de qual é a forma correta de se estimar a tendência da variável que mede o desemprego. Caso você acredite que a taxa natural de desemprego durante o período da amostra é simplesmente a sua média, então o modelo correto seria o representado pelo segundo gráfico acima. Caso você ache que a taxa de desemprego natural mude ao longo do tempo, então o primeiro modelo seria o correto. Para nosso desespero, repare no gráfico abaixo. Nele temos a taxa de desemprego, em vermelho (a média trimestral que calculei) e duas medidas de taxa de desemprego natural. A primeira, em azul, é a calculada pelo filtro HP e, a segunda, em verde, é a média da amostra.

okun_novo4

 

Repare que, conforme a visão da taxa de desemprego constante, a economia está abaixo da taxa de desemprego natural desde algum momento ali perto do final de 2007, com um breve salto entre 2008 e 2009 que teria levado a economia para o pleno emprego por um trimestre. A partir daí, a taxa natural estaria acima das taxas de desemprego. A história contada pelo filtro HP já é diferente porque há momentos em que a economia se aproxima e se afasta da taxa natural de desemprego – ela mesma, variável –  desde o início da série.

Este é um exercício que fica fundamentalmente prejudicado pela pequena extensão da amostra, mas não é só isso. Conforme os autores:

If Okun’s law is to be useful as an indicator of the status of the economy for monetary policy purposes, it needs to be stable and significant.

estabilidade desta relação é um ponto importante em qualquer exercício econométrico. Isso envolve não apenas uma questão de quebras estruturais, mas também de especificação do modelo. Isto, claro, vai nos levar a uma discussão sobre modelagem, dinâmica e outros pontos mais avançados que não cabem aqui por uma questão de tempo.

Fica, então, o convite ao leitor para se aprofundar no tema, começando por uma crítica a este exercício.

Impactos Econômicos da Copa do Mundo 2014 na Economia Brasileira

A Copa do Mundo FIFA, mais conhecida pelo nome de Copa do Mundo, é uma competição mundial de futebol que ocorre de quatro em quatro anos. Esse campeonato foi criado em 1928 na França e sua primeira edição ocorreu em 1930, no Uruguai. Em 2014 chegou a vez do Brasil ser a sede do evento, em sua vigésima edição.

Durante o governo Lula um dos pontos mais apoiados pelo presidente do país foi que o Brasil sediasse este espetáculo. Em meio a opositores, Lula , e posteriormente Dilma, conseguiram convencer grande parte da população de que nosso país daria conta do recado. E não só isso, mas que a seleção seria hexacampeã mundial e que ser o país comandante dessa festa traria muitos lucros á sua economia.

Porém, muitos estudiosos e economistas já previam que isto não viria a ser a realidade. E durante os preparativos para o espetáculo, foram sendo vivenciados muitos problemas relacionados a infraestrutura, organização e segurança do país. Assim como corrupção no governo brasileiro .

Durante este artigo, analisaremos os resultados da Copa do Mundo 2014 para o Brasil principalmente em um âmbito econômico. Mas também citaremos influências na política do país.

O primeiro tópico a ser discutido será relacionado aos gastos que o governo brasileiro teve para adequar o país ao Padrão Fifa . Estádios, hotéis, aeroportos, transportes, entre outros tiveram que ser reformados e construídos para que o evento ocorresse no nosso território. Isto já era previsto desde o momento da candidatura do Brasil para ser o país sede, porém saíram dos cofres públicos muito mais do que o esperado. Segundo o balanço oficial do governo foram gastos 25,6 bilhões de reais nesta adequação da infraestrutura do país á Copa do Mundo, nove vezes mais do que o previsto em 2007. Além disso, a proposta era de que parte desses gastos viessem do setor privado, o que não ocorreu, sendo que 83 % deste valor saíram dos cofres públicos. Por fim, a fifa foi totalmente isenta de tributações. De 2010 a 2014 o valor de tributos a ser pago seria de mais de 1,1 bilhão de reais apenas em impostos federais.

Diante de tantos gastos, para que a Copa fosse lucrativa para o Brasil o consumo por parte dos brasileiros e estrangeiros deveria ser extremamente alto neste período. Porém, não foi exatamente isto que aconteceu. A receita total com o evento foi de aproximadamente 6 bilhões de reais. O volume esperado de consumo dos estrangeiros durante o Mundial decepcionou. As vendas no varejo foram uma das áreas mais prejudicadas.

De acordo com a Cielo, valor gasto por turistas estrangeiros em junho e julho caiu em 7% se relacionado aos primeiros meses do ano e o principal motivo desta queda foi o fato de que houve uma transferência de gastos para o setor de alimentos e bebidas, que possuem preços mais baixos.

Outro ponto que prejudicou o comércio local foi a redução da jornada de trabalho durante o mundial . Não só jogos da seleção brasileira paravam o comércio, mas também jogos de outras seleções que fossem acontecer nas cidades reduziam o interesse das pessoas por compras e passeios em shoppings, prejudicando o desempenho das vendas.

O setor industrial também sofreu queda no período, tendo não só como motivação a redução das compras, mas também o encarecimento do crédito e a inflação em patamar elevado .

O único setor da economia que obteve resultado positivo foi o setor de serviços, como hotéis e restaurantes, devido a vinda de mais de 1 milhão de estrangeiros para o Brasil. Mesmo assim este setor foi menos beneficiado do que esperado, pelo fato de que muitos dos turistas se hospedaram em seus próprios carros, vans e barracas e muitos deles não vieram com o propósito de gastar fortunas , mas de assistir o evento economizando o máximo possível.

O PMI , índice de compras do HSBC/Markit, que reúne o setor industrial e de serviços mostrou um aumento pouco significativo na atividade do setor de serviços contra uma queda acentuada na mesma do setor industrial. O índice ficou 49,9 em junho, sendo que valores deste índice abaixo de 50 significa contração econômica.

A inflação ( nível de preços de uma cesta de bens ) brasileira também deve ser ressaltada. Mesmo antes da Copa do Mundo o acumulado em 12 meses já estava bastante alto e próximo de superar o teto da meta de inflação estabelecida pelo Banco Central, de 6,5 % ao ano. Com a Copa do Mundo sendo sediada no Brasil, a tendência é que a demanda por produtos locais aumentem, e consequentemente seus preços também, levando a uma elevação da inflação. Os meses de junho e julho, tradicionalmente no Brasil não são meses em que os preços aumentam de forma significativa. Porém, este ano com a Copa o cenário mudou.De acordo com o índice aumentou 0,40% em relação ao mês anterior, resultando em uma inflação acumulada em 12 meses acima da meta, de 6,52%. Dois itens que tiveram peso significativo para esse resultado foram as passagens aéreas, que registraram alta de 21,95% na variação mensal, e os hotéis, que aumentaram 25,33%.

Logo, é fácil ver que apenas alguns setores específicos foram beneficiados com o mundial, e a economia como um todo foi fortemente prejudicada.

Complementando a análise econômica, é possível ver também influências da Copa na política brasileira. Não só por causa dos gastos enormes com o evento, mas também devido á péssima atuação da seleção brasileira na competição, Dilma Rousseff , atual presidente do país, vem perdendo aprovação da população local.

De acordo com pesquisas recentes feitas pelo Ibope, caso as eleições da presidência brasileira fossem para o segundo turno, ocorreria um empate técnico entre Dilma e seu concorrente Aécio Neves. É importante dizer também que mais uma vez, após perda de força da presidente atual, empresas estatais como a Petrobrás se valorizaram significativamente .

Enfim, A Copa do Mundo de 2014 serviu de lição para o povo brasileiro. É importante sim sediarmos importantes eventos internacionais, mas apenas quando já tivermos condições de oferecer para o povo o mínimo para a sua sobrevivência, como saúde e educação, e apenas quando tivermos também no governo do país, pessoas que se importem primeiramente com a vida da população local, e depois com o que os estrangeiros pensarão de nosso país.

Por que os alunos – inclusive os mais fracos – não gostam de picaretagem? (Epílogo)

Mais do mesmo!

Eis que volto à prática do apud (citação da citação):

Como é impossível elevar todos aos píncaros da glória, já que as aptidões individuais são diferentes, o objetivo passa a ser a mediocrização total. (…) Esse é sem dúvida um traço cultural, difuso, do brasileiro. Mas não há dúvida quanto ao locus no qual essa mentalidade é mais amplamente difundida e inculcada: a nossa escola. A ojeriza à meritocracia em nossas escolas vem sob a desculpa de que a competitividade pode causar profundos danos à psique das crianças. (Gustavo Iochpe em artigo para a Veja, 2008, citado em Schwartsman, A. & Giambiagi, F. “Complacência”. Elsevier, 2014, p.97]

No texto anterior, falei dos motivos pelos quais os alunos que conheço, inclusive os mais fracos (de base inferior e, assim, com mais chão pela frente para chegar ao mesmo grau de excelência que um colega mais bem favorecido pode alcançar), possuem para não seguirem o caminho da picaretagem.

Mas não expliquei, obviamente, o porquê de a picaretagem resistir ao tempo. Tivesse Hegel razão, então a picaretagem não poderia existir, já que seria um restolho da História ao longo da dialética da Razão. Estou errado, amigos filósofos? Para me corrigir, usem os comentários.

Gustavo Iochpe escreve bem, mas exagera na dose: será que a mediocrização é um traço cultural nosso? Duvido. Creio que se é uma cultura, ou melhor, um valor, é um do mais frágeis, que bem pode se alterar em 20 ou 30 anos. Mas eu concordo com ele no diagnóstico imediato: vivemos na era em que meritocracia, um conceito simples, é acusado de ser maligno por um bando de medíocres e alguns ingênuos.

Bons tempos aqueles da tia da escola…

Recordo-me do meu tempo de criança na escola e não vejo traços de preconceito  - como vejo hoje – contra a meritocracia. Ao contrário, lembro-me do orgulho que era chegar em casa com a caderneta cheia de boas notas e da vergonha que era perder média em prova. Não quer perder média fosse bom ou ruim. Perder média é uma forma de me fazer perceber que eu precisava estudar mais. Para os meritofóbicos, perder média é sinal de que o professor é culpado e que papai e mamãe devem ser chamados para ir à escola, se possível com uma arma, para ameaçar o professor, o diretor, etc.

Não é necessário, obviamente, retomar o texto anterior para mostrar que, em última instância, a meritofobia é inimiga do nível de vida que todos desejam ter, já que mediocriza  a qualidade do ensino e, portanto, da mão-de-obra que se forma no colégio ou na faculdade.

Traços como este, na psique do brasileiro, não são, de maneira alguma, permanentes. Podem durar muito tempo e podemos ter um crescimento econômico medíocre por conta da mentalidade medíocre, que promove a complacência e a leniência com as atitudes estúpidas, claro. Mas isso não precisa ser assim para sempre.

Por que não muda?

Então, você vai me perguntar: por que é que as coisas não mudam assim, como num passe de mágica? A resposta é simples: os incentivo de curto e longo prazo das pessoas nem sempre estão alinhados corretamente. O aluno quer a moleza e não deseja estudar. O papai e a mamãe da geração Y não querem impor limites e disciplina aos filhos porque isso atrapalha seu próprio gozo da vida que têm. As escolas podem atuar na educação técnica dos meninos e meninas, mas não substituem os pais no que diz respeito aos valores básicos. De que adianta o professor falar de mérito, se o pai (des)educa em casa? Vai depender mesmo da sorte se o menino vai ou não se transformar em um mini-bandido.

Mas, como eu disse no outro texto, em última instância, pessoas cometem cada vez menos os mesmos erros e a perspectiva de ter uma vida melhor para si e para sua família é um motivador que serve como barreira à picaretagem e a mediocrização. A meritofobia não se sustenta no longo prazo porque, em última instância, o competidor mais atento vence.

Eu me pergunto mesmo é se a geração atual que está nas escolas percebe o tamanho do buraco que constroem para si mesmos quando atacam a meritocracia. Acho que a resposta é: não percebem muito bem no curto prazo, mas, no médio prazo, aprendem e mudam de idéia. Serão, creio, melhores pais e melhores mães no futuro e corrigirão as bobagens que a geração Y fez com a pedagogia doméstica e escolar de hoje. Obviamente, isto demanda tempo e, bem, tempo é dinheiro…olha o poder dos incentivos funcionando de novo…

Por que os alunos – inclusive os mais fracos – não gostam de picaretagem?

Por que é que não?

Estamos em época de provas de “salvação” – a famosa PS (prova substitutiva) – e há sempre algum aluno desinformado que acha que a revisão de sua prova é um balcão de negócios no qual ele tem maior poder de negociação porque…bem, porque ele acha isso. Preconceitos e idéias erradas geralmente têm origem similar.

Mas mesmo assim, há alunos que não se saem tão bem em provas e que se recusam a entrar neste jogo errado. Por que? Porque eles sabem que o melhor para eles é uma avaliação rigorosa. O mesmo se aplica ao trabalho no Nepom: o que aconteceria se o coordenador do grupo fosse “bonzinho”, “relaxado” e não cobrasse um padrão mínimo de qualidade no trabalho do grupo?

Você pode não acreditar em mim. Então eu vou citar um outro economista (citação indireta, já que li o trecho a seguir em outro livro que o cita), o prof. José Márcio Camargo, da PUC-RJ:

Trabalhadores com baixos níveis de qualificação, com menos de sete anos de estudos, têm produtividade baixa. Ou seja, esse grupo é homogêneo e de baixa produtividade. Portanto, existe pouca assimetria de informação, o que faz com que seja relativamente fácil para o empregador determinar o salário para esse grupo. Entretanto, à medida que aumenta o nível de qualificação dos trabalhadores, aumenta a heterogeneidade (…). Para os trabalhadores com altos níveis de escolaridade, existe um grande número de informações sobre a produtividade do trabalhador: a qualidade da universidade onde estudou, o curriculum vitae, estágios, cartas de recomendação de professores e ex-chefes, etc. Portanto, apesar de esse grupo ser muito heterogêneo, o volume de informações disponível sobre a produtividade dos indivíduos que o compõem é elevado, o que diminui a assimetria de informações e, portanto, facilita a determinação dos salários. [Camargo, J.M. "Desemprego, informalidade e rotatividade - Reformas que fazem diferença; em Fabio Giambiagi e Octavio de Barros (orgs). Brasil pós-crise - Agenda para a próxima década. Elsevier, 2009, p.237 (*)]

Reparou no trecho acima? Como aprendemos no início dos nossos cursos de Economia, bens “homogêneos” são aqueles que apenas se distinguem quanto ao preço, sem qualquer apelo ao consumidor por outro critério. Um egresso da faculdade que não se diferencia do outro exceto pelo preço de sua mão-de-obra está limitado a conseguir empregos de baixa remuneração (ou então faz um concurso público, no qual, por lei brasileira, sabe o salário porque este está determinado a priori). Pode mudar isto? Claro. Basta se qualificar.

Qualificar-se não é um processo unilateral, mané!

Mas o que é se qualificar? Faça-se esta pergunta e logo você perceberá que seu curso de inglês, de alemão, francês ou de piano são apenas parte de seus esforços em se diferenciar de outros colegas. Qualificar-se é tentar sair da homogeneidade ou, como o próprio nome diz: é tentar se diferenciar pela qualidade.

Agora, qualificar-se é uma coisa e fazer com que os outros percebam que você se qualificou é outra. Por isso é que os alunos se incomodam se ouvirem um boato de que sua faculdade foi rebaixada em algum indicador de qualidade: é como se o valor do diploma, que ele pretende apresentar ao empregador, tivesse o valor diminuído. Em outras palavras, ele precisará mostrar muito mais serviço para aquela entrevista de emprego. Terá que usar o famoso: “eu sei que vim desta faculdade fraca, mas veja meu trabalho…”. O problema é que se for a primeira entrevista de emprego, o único jeito de “ver o seu trabalho” é conseguindo o emprego.

Ocorre que não é apenas a faculdade que adiciona valor ao currículo do sujeito. Pense no seguinte exemplo: você pode ter aulas de futebol na Escola X comigo e com o Ronaldinho Gaúcho. Não lhe parece óbvio que as chances de eu ter problemas em conseguir alunos serão elevadas neste caso? Isso ocorre porque quem adiciona valor ao aprendizado de futebol, neste caso, é o craque, não eu. Claro que ele pode ser um péssimo professor de futebol, mas acho que demorará bastante para as pessoas descobrirem isto – e eu continuo sendo um sujeito bem ruim quando estou com a bola no pé – e o tempo, meu amigo, é dinheiro (pois é escasso).

Quando o professor cede e atende aos pedidos de um aluno preguiçoso que não percebeu corretamente a questão do valor do aprendizado, ele prejudica a turma inteira porque, como sabemos, o boato é de que: “naquela faculdade, os professores facilitam a vida de todos”. Não há problema algum em uma faculdade optar pelo caminho mais fácil. A questão é que formará mão-de-obra muito mais homogênea e, portanto, limitada a um nível salarial mais baixo. Claro, o sujeito pode “lavar seu diploma” fazendo uma especialização em uma instituição de fama melhor (embora nem sempre fama seja sinônimo de efetiva qualidade, como falei).

A explicação é bem simples…mas nem sempre a gente quer assumir os custos…

Percebe-se, então, que no final das contas, todo aluno enfrenta um dilema humano simples: um trade-off entre estudar mais agora ou investir tempo tentanto alegar uma “correção injusta”, “rigor excessivo do professor”, etc. Obviamente, o professor é humano e erra tal e qual o aluno. Mas ambos também são humanos e, logo, devem cometer os mesmos erros cada vez menos ao longo da vida. É, sim, uma corrida. Quem começar errando menos agora sai na frente. Simples assim e não há lei, política do governo ou milagre que mude isto. Não é a toa que alunos mais fracos, com mais dificuldades, mas honestos, são os que ficam mais revoltados quando percebem que alguns de seus colegas querem professores picaretas.

Por isso é que nenhum aluno do Nepom jamais pediu para que eu lhe facilitasse a vida. Há problemas a serem resolvidos? Há. Tem preguiça e “corpo mole” de vez em quando? Claro. Mas todos sabem que um menor nível  de exigência hoje, complacência com erros e tolerância com a preguiça significam um ponto a menos na hora da prova fatal que é a entrevista de emprego e não é demais lembrar que é difícil construir uma boa reputação e é muito fácil destruí-la.

Nepom, provas, trabalhos…tudo isto é parte do mesmo universo: o universo acadêmico. Cá para nós, ele não é tão diferente assim do universo da vida, não é? Existe o desejo da folga, do menor esforço, etc. É a velha tentação bíblica. Quem decide ceder é o indivíduo. O problema, neste caso, é que todas as turmas de todos os períodos perdem com a picaretagem do professor que cede ao choro do aluno que anseia pelo caminho mais fácil (que, para seu desespero, não o levará ao sucesso pessoal no final do dia).

Há, portanto, a escolha da administração da faculdade, sobre que tipo de mão-de-obra quer apresentar ao mercado, a do professor que também tem que decidir, dadas as diretrizes da administração, se vai ser mais ou menos “bonzinho” (= “picareta”) com os pedidos do último elo desta corrente: o candidato a profissional (= “aluno”).

Não foi tão difícil entender isto, foi?

(*) Mas eu peguei o trecho de Fabio Giambiagi e Alexandre Schwartsman. Complacência – entenda por que o Brasil cresce menos do que pode. Campus, 2014, p.28

Uma aula de oferta e demanda em uma entrevista

O prof. Nakabashi (lá da USP de Ribeirão Preto) dá uma aula de Economia nesta longa entrevista. Veja como ele explica o desempenho do setor açucareiro com a teoria econômica que você viu em sala de aula.

O interessante de se assistir este video é que um aluno do 4o período terá uma percepção diferente da entrevista do que um do 1o período, dado o conhecimento acumulado. Por isso é que é bacana você sempre interagir com alunos de períodos diferentes do seu: aprende-se sempre um pouco mais.

O prof. Nakabashi nos fez um grande favor com esta entrevista.

Correlação: o que você (realmente) quer ver? – Momento R do Dia

Digamos que você tem umas cinco mil observações e fez um trabalho para seu professor (o prof. Jonathan adora sufocar alunos com bases de dados deste tipo). Aí você pega duas variáveis e faz a correlação entre elas. Digamos que você ainda é inocente e jovem e só sabe usar uma planilha como a da Microsoft. Então, você obtém um gráfico de dispersão como o que se segue.

Fullscreen capture 6302014 40607 PM

Ok, deu para ver que existe uma relação negativa entre as variáveis. Mas será que não estamos sendo enganados por nosso amadorismo em Estatística? Digamos que existam cem pares que correspondam aos valores (0.3, 4.2). O gráfico acima não será capaz de nos mostrar esta forte incidência do dito par. Agora, que tal este outro gráfico, obtido por meio do programa gratuito R (especificamente, por meio de um de seus pacotes, o hexbin).

Fullscreen capture 6302014 40853 PM

A história ficou um pouco diferente, não? Repare que, na legenda vertical à direita, temos a contagem correspondente às cores dos pequenos hexágonos no gráfico. Em outras palavras, há pares ordenados que se repetem 37 vezes! Claro, conforme o tamanho do hexágono, podemos agrupar um ou pares ordenados (isto pode ser alterado nas configurações do gráfico, claro).

Repare que agora podemos visualizar duas nuvens de pontos mais frequentes ao longo da linha de regressão linear. Uma mais em cima (na direção noroeste) e outro mais embaixo (na direção sudeste). Por que isto acontece? Não sei. Mas uma coisa é certa: você não conseguiria descobrir este padrão usando o gráfico simples lá da planilha.

É verdade que uma correlação não é muita coisa, mas mesmo ela nos ensina algo. Tudo depende de se você está bem equipado para enxergar os dados.

20140628_093931-1

Murdoch recebe uma mãozinha do Senhor Fantástico e passa a usar o R.

E se usássemos um alfa de 1%?

Leitura para os que não entendem o tal p-valor, mas não têm coragem de estudar.

A dica não é tão difícil, né? Afinal, o autor é um psicólogo. Opa, calma lá. Cuidado com os preconceitos, leitor: na civilização (ou seja, fora do Brasil), psicólogos não são majoritariamente analfabetos em Estatística Básica…

O pessoal do Nepom entrou mesmo no clima da Copa e eu, bem, estou ocupado me divertindo com uns mestrandos muito bons do PPGOM e, assim, não posso atualizar o conteúdo aqui com a frequência que gostaria. Em breve, claro, eu volto à minha programação normal e, espero, eles também.

 

A nova era da Econometria: grandes bases de dados

Hal Varian, professor emérito da U.C. Berkeley e atual economista-chefe da Google, tem um novo artigo (acesso liberado…mas não sei até quando…aqui) sobre este fascinante tema. O artigo recebeu um comentário crítico de outro craque de Econometria, o Rob Hyndman. Obviamente, eu acho que vale a pena ler ambos.

Também é legal notar que Varian usa o R em boa parte (senão em todo ele) do artigo. Ou seja, Varian e Hyndman são referências de, digamos, 2/3 do que eu penso/falo/ensino/aprendo no dia-a-dia e, portanto, é um prazer divulgar estes textos aqui.

Off-topic: Mudando rapidamente de assunto, veja que exercício interessante este do Vitor Wilher.